Juros, moeda e tempo: sempre juntos

Como vieses comportamentais afetam nossa visão sobre juros

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Os últimos meses têm sido de muitas reuniões com possíveis clientes para aplicação nos fundos da nossa gestora, a RESETFUNDS. Nesses encontros, tenho notado algumas confusões com o conceito de juros e moeda.

A confusão sempre começa quando comento que um dos nossos fundos, o de DeFi, tem uma expectativa de rentabilidade de 10% a 15% ao ano em dólar.

Algumas pessoas respondem que isso é muito pouco, já que conseguem quase 12% aplicando no CDI e que, para o risco, ganhar mais 3% não compensa.

Qual o erro desse comentário? A moeda.

Juros é um conceito simples, mas não pode ser desatrelado de outros dois: tempo e moeda.

Os juros para um dia nunca são os mesmos do que para um ano, assim como os juros em uma moeda nunca são os mesmos que para outra moeda. É impossível desatrelar dos juros os conceitos de moeda e prazo.

Colocando de forma simples, juros nada mais é do que a forma de transportar determinada moeda no tempo.

Sendo assim, como no meu exemplo eu estava falando de uma expectativa de prazo para um ano, o prazo estava equacionado.

Apesar de que, se formos precisos, estamos falando de um juro que é contabilizado de forma exponencial (no caso do real) e um juros que é contabilizado e forma linear (no caso do dólar), o que, no longo prazo, faz uma diferença enorme. Mas, para o caso em questão, é menos relevante.

Focando na moeda: por que cada moeda tem seus juros? Essa é uma explicação que daria um livro, mas está atrelada a fatores culturais, credibilidade dessa moeda/país, inflação, decisões das políticas monetárias e fiscais etc.

Em geral, os juros são mais altos quanto mais o país precise se financiar para pagar sua estrutura ou seus investimentos. Tem a ver também com a capacidade desse país arrecadar impostos.

Independente da razão, não dá para desatrelar os juros da moeda. Um exemplo claro disso é que o título do governo brasileiro para 10 anos, paga 11,6% a.a., enquanto o título do governo americano paga, para o mesmo prazo, 2,4% a.a., e o título do governo japonês, 0,2% a.a.. Taxas muito diferentes e que só podem ser comparadas na mesma moeda.

Esses três casos são exemplos das menores taxas de juros de cada uma dessas moedas, pelo fato de serem títulos emitidos pelos governos nas moedas que eles mesmo controlam. Se, por acaso, uma empresa quer emitir nessas moedas, ela terá que emitir a uma taxa acima dessas.

Por exemplo, se pegarmos uma empresa que tem um risco de crédito correspondente a 5% a.a., a taxa que ela tomaria dinheiro deveria ser por volta de 16,6% em reais, 7,4% em dólar e 5,2% em iene.

Isso também fica muito claro quando pegamos títulos do mesmo país em outra moeda. O Brasil, por exemplo, captando em dólares, paga juros por volta de 5% a.a.. É maior do que os juros que o governo americano paga por conta de o Brasil não ter o controle da moeda dólar, e sim o governo americano.

Voltando ao caso do fundo da RESETFUNDS, o correto seria comparar os 10 a 15% de expectativa de rentabilidade com os juros pagos pelo governo americano, mais um spread de risco associado. E aí, cada um tem que fazer sua conta e ver qual o risco atrelado a esse investimento.

Como comparação, além do quanto o título do Brasil paga (5% a.a.), podemos ter os junk bonds (títulos de crédito considerados de altíssimo risco), que hoje pagam juros anuais de aproximadamente 6%, ou de algum índice de bolsa em dólares.

No caso dos índices de Bolsa, fica mais difícil olhar para frente, mas podemos olhar a rentabilidade passada. O S&P tem um acumulado de 10.8% a.a. nos últimos 10 anos e o Dow Jones, 8.6% a.a.. Aí sim estaríamos comparando coisas que são comparáveis e não laranjas com livros.

Esse raciocínio deve fazer parte de qualquer análise de investimentos. Ignorar o prazo ou moeda do investimento é uma receita fadada ao fracasso.

Outro ponto interessante é o relativo aos vieses comportamentais. Consigo ver vários que levam a essa análise equivocada em relação aos juros, tais como o de ancoragem ou representatividade. O primeiro por conta de você logo ir para o que tem mais fresco na cabeça em relação a juros para comparar, e daí o CDI aparece. E o segundo por conta de associar juros diretamente ao CDI.

Vieses que são naturais. Temos que saber como lidar com eles para tomarmos melhores decisões, seja em investimentos, seja na nossa vida de modo geral.

Uma curiosidade é que tenho falado também com vários não-brasileiros, ou até brasileiros que moram no exterior, e essa discussão nunca aparece.

Acredito que isso acontece pelo fato de eles terem como referência os juros em dólar, euro, iene, franco suíço etc. Todos os títulos de governo dessas moedas pagam juros inferiores a 5% a.a. hoje, o que faz com que uma expectativa de rentabilidade de 10 a 15% seja vista como uma ótima oportunidade.

Louco, não é? A decisão técnica deveria ser a mesma independentemente de onde a pessoa está ou aos fatores externos aos que ela está exposta. Mas não é.

Juros, desatrelado de moeda e prazo, não faz sentido, tal qual avião sem asa ou futebol sem bola. Mas somos humanos e funcionamos assim.

Cabe a nós entendermos os fatores técnicos e estar atentos aos fatores comportamentais para não cairmos em suas armadilhas.

Depois me conte se ficou alguma dúvida e se já caiu em algum desses vieses.

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Links usados nesse artigo:
Reset Funds
Preços e taxas dos títulos IPCA, Pré e Pós-fixados | Tesouro Direto
Rates & Bonds – Bloomberg
Brazil 3,75% 12/09/2031 – US105756CE88 – Luxembourg Stock Exchange (bourse.lu)
ICE BofA US High Yield Index Effective Yield (BAMLH0A0HYM2EY) | FRED | St. Louis Fed (stlouisfed.org)
Behavioral Finance – Overview, Examples and Guide (corporatefinanceinstitute.com)

Gustavo Cunha

Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)