Em que moeda devo investir meu patrimônio?

Mantê-lo todo em real pode ser o maior risco que você está tomando

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Há duas semanas, pela primeira vez uma empresa americana listada na Nasdaq resolveu deixar seu caixa não mais em dólares, mas sim em Bitcoin.

Isso me levou a pensar sobre os riscos e vantagens disso.

Tendo em vista que o Bitcoin não tem a ver com os custos e receitas dessa empresa, transformar todo seu caixa nele é uma atitude deveras agressiva. Pode dar muito certo, ou muito errado, e isso nunca seria recomendável para fazermos com o nosso patrimônio/dinheiro de longo prazo.

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Mas isso não quer dizer que diversificar não seja uma necessidade. A maioria dos Bancos Centrais do mundo está fazendo experimentações com suas moedas, que aumentam o risco dessas quando olhamos no longo prazo.

A imensa emissão de moeda dos países desenvolvidos (nomeadamente Estados Unidos e União Europeia) da última década, que ganhou um novo e volumoso episódio devido à pandemia, pode fazer com que muitas dessas moedas tenham enormes problemas no futuro.

Sejam problemas advindos de inflação de consumo, inflação de ativos (gerando bolhas), default, controle de capitais ou qualquer outra forma que não conseguimos antever, a verdade é que hoje o risco de isso acontecer é grande e está aumentando.

A questão aqui tem menos a ver com qual o risco de crédito que queremos correr, comprar um bond/debenture de uma empresa, um título público ou uma ação, mas sim com o efeito que estar na moeda errada pode gerar ao nosso patrimônio no longo prazo.

Olhando para trás, podemos ver que, em momentos nos quais poderíamos ter errado a moeda onde guardar nosso patrimônio, um outro fator acabava minimizando (ou até zerando) esse efeito: os juros.

O real é um bom exemplo. Por mais que ele, no longo prazo, tenha se desvalorizado em relação ao dólar, foi muito vantajoso ter o dinheiro investido em reais. Isso porque os juros recebidos foram maiores do que a desvalorização da moeda.

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Mas será assim no futuro? Com o diferencial de juros entre os países diminuindo, me parece que essa é uma premissa difícil de ser confirmada.

Quando olhamos para a moeda brasileira, a situação se agrava ainda mais devido a fatores econômicos (aumento de dívida pública, desemprego, situação da Previdência, etc.), políticos (troca de ministros, funcionamento da democracia brasileira, etc.) e a uma postura, correta a meu ver, do BC do Brasil de deixar a moeda flutuar.

Além disso, do ponto de vista do mercado financeiro internacional, o Brasil é tido como um país com alto risco para investimentos e high beta, ou seja, amplifica os movimentos das moedas/economias tidas como fortes.

Nesse cenário, a pergunta que temos que nos fazer é: faz sentido deixarmos todo nosso patrimônio em uma só moeda? E, mais especificamente, faz sentido deixarmos tudo em reais?

Minha opinião, e a da grande maioria dos investidores, é um categórico não!

A discussão é mais sobre o percentual que deveríamos ter em outras moedas que não o real, do que se deveríamos diversificar em termos de moeda.

E para chegar nesse percentual, o principal ponto a ser analisado é em que moeda estão nossos gastos.

Se você vive no Brasil, paga e recebe tudo em reais, percentuais altos em outras moedas não são recomendados, por conta de possíveis descasamentos de curto prazo que isso pode gerar.

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Mas isso não quer dizer que esse percentual deva ser zero, já que, por mais que você esteja no Brasil, parte do seu consumo é atrelado ao dólar. Arroz, trigo, carne e outros artigos, só para citar os alimentícios, tendem a seguir os preços internacionais, que são cotados em dólar.

A boa prática em termos de planejamento financeiro requer que uma parte significativa dos seus investimentos esteja na mesma moeda dos seus gastos presentes e futuros.

Se a ideia é mudar para outro país, por exemplo, é aconselhável que a alocação dos seus investimentos vá migrando para essa segunda moeda à medida que os planos de mudança vão se tornando realidade.

Ter um descasamento de moeda significativo entre a moeda dos investimentos e a moeda que você gasta pode gerar alguns problemas. Em Portugal, por exemplo, para onde alguns aposentados brasileiros se mudaram com a ideia de se manter em euros com a pensão recebida em reais, a grande desvalorização cambial dos últimos trimestres fez com que eles tivessem que rever esses planos.

Esse caso de ter fluxos futuros em uma moeda, seja via salários, pensões ou rentabilidade de investimentos, e gastos em outra, gera uma situação de grande desconforto e instabilidade.

No caso das pensões e salários é mais difícil ajustar. Mas, no caso de investimentos, não há por que não ajusta-los e ter grande parte deles na moeda dos seus gastos.

Outro fator importante quando olhamos para o longo prazo é que esse investimento gere um valor de compra igual ou possivelmente maior no futuro do que o que poderíamos comprar com o valor investido hoje.

Aí entram investimentos que não pagam juros, mas nos quais há uma expectativa de que isso ocorra. Os mais citados aqui são os metais (ouro, prata etc.) e o bitcoin.

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Mas podemos colocar moedas também nessa cesta. Se você mora no Brasil, comprou dólares há 10 anos e deixou eles parados (sem ganhar juros), o que compra com eles em reais hoje é mais do que comprava com os reais investidos no momento da compra.

Em resumo, tendo dito que grandes descasamentos cambiais entre renda e gastos não são aconselháveis, no caso do Brasil, diversificar de reais é uma necessidade.

Gostou? Algum ponto que não considerei? Me diga o que achou. 

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Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).