Turquia dá choque de juros; Brasil será o próximo?

Altas dos juros na Turquia, na África do Sul e na Índia surpreenderam o mercado financeiro; a notícia ruim é que os dois países têm fragilidades externas parecidas com a brasileira

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(SÃO PAULO) – Os países emergentes começaram a reagir nesta semana ao movimento de migração da liquidez global para os Estados Unidos deflagrado pela redução dos estímulos monetários. O primeiro a surpreender foi o Banco Central da Índia, que inesperadamente elevou os juros de 7,75% para 8% ao ano. Na noite desta terça-feira foi a vez da Turquia de elevar a taxa de juros para empréstimos de um dia de 7,75% para 12% ao ano. Em seu último pronunciamento público, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já havia alertado que a alta dos juros no Brasil teria que ser seguida por outros países emergentes. O movimento turco já era esperado, mas a agressividade do BC pegou todo o mercado de surpresa. Já a África do Sul anunciou hoje o aumento da taxa básica de 5% para 5,5%.

Os quatro países têm em comum um elevado déficit externo. Isso significa que a quantidade de dólares que estão entrando nesses países é inferior ao volume que sai. A redução dos estímulos monetários nos EUA incentiva investidores a retirar dinheiro de emergentes com esse tipo de fragilidade e mandá-lo para países considerados mais seguros. Em relatório recente, o JPMorgan afirmou que os países mais vulneráveis à migração da liquidez global para os EUA seriam o Brasil, a Turquia, a Índia, a Indonésia e a África do Sul. O resultado é a desvalorização das moedas dos emergentes, justamente o que os BCs da Índia, da Turquia e da África do Sul estão tentando combater com a alta dos juros, que tornam os papéis dos dois países mais interessantes na visão de investidores propensos ao risco.

Mas o real vai continuar se desvalorizando? O dólar pode chegar a R$ 2,50 ou R$ 3? Será que o Brasil também será obrigado a elevar mais os juros para conter a desvalorização da moeda? Mantida a tendência de retirada gradual dos estímulos nos EUA, é provável que o real ainda se enfraqueça. Mas elevar os juros não é a única forma de atrair o capital estrangeiro de volta. O Brasil também poderia, por exemplo, cortar gastos públicos, o que daria mais conforto aos investidores em comprar papéis brasileiros mesmo diante das taxas atuais. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, poderiam vir a público e prometer um superávit primário (economia do governo para pagar juros) de 3% do PIB neste ano, por exemplo. Não há, entretanto, nenhum indício de que eles farão isso.

Reportagem publicada ontem no jornal Valor Econômico diz que Mantega estaria disposto a cortar R$ 30 bilhões do Orçamento, o que seria suficiente para garantir um superávit de 2% do PIB. Esses R$ 30 bilhões, no entanto, correspondem apenas ao total de receitas infladas, que simplesmente não existem, mas que estão previstas no Orçamento. É como se o governo apenas estivesse fazendo uma estimativa mais factível de arrecadação de tributos e adaptando também a previsão de despesas. A presidente Dilma Rousseff comentou apenas que a decisão sobre o Orçamento só será tomada em fevereiro.

O problema é que mesmo que Mantega consiga entender que a complexidade do momento atual para os emergentes é maior do que sugerem seus discursos, um anúncio de superávit primário maior do que está sendo cogitado até agora dificilmente convenceria o mercado. Ninguém espera um governo muito austero até a conclusão da eleição presidencial. Há ainda o déficit de credibiilidade da equipe econômica. Nos últimos anos, o ministro cansou de prometer uma coisa ao mercado e entregar outra. Aí, em dezembro, Arno Augustin dava um jeitinho de cumprir a meta fiscal com algum truque ou malabarismo que não engana ninguém. Não é à toa que muita gente no mercado diz que só volta a acreditar na política fiscal brasileira quando os dois forem substituídos.

Sem o respaldo da política fiscal e mantido o atual cenário, não restará alternativa ao BC senão continuar a aumentar a Selic. Os juros futuros para 2017 já apontam para uma taxa de 13% ao ano – bem mais alta, portanto, que a atual Selic de 10,5%. A decisão turca põe pressão sobre as taxas brasileiras porque a movimentação de capital ao redor do mundo é hoje muito rápida. Se os juros turcos ficam mais atraentes para os investidores, automaticamente as taxas brasileiras passam a ser menos competitivas. É o movimento contrário do que foi visto nos últimos cinco anos, quando os juros artificialmente baixos nos países desenvolvidos permitiram que o Brasil pudesse ter as taxas mais baixas de sua história.

O aumento dos juros, no entanto, é o remédio maisamargo. Cortar gastos públicos ajudaria a reduzir a dívida pública. Já a Selic maior terá o efeito contrário de elevar os gastos públicos com juros. Não é uma boa notícia em um momento em que as agências internacionais de rating ameaçam cortar a nota do Brasil, o que acentuaria ainda mais a saída de capital estrangeiro e a desvalorização do real. É, portanto, um cenário que não incentiva a tomada de risco por investidores.

João Sandrini

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