Repórter Felipe Moreno lança livro sobre Eike Batista

Eike - A Derrocada do Homem mais Rico do Brasil reconstitui a maior tragédia da história do mercado de capitais brasileiro

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(SÃO PAULO) – A maior tragédia da história do mercado de capitais brasileiro acaba de ser reconstituída no livro Eike – A Derrocada do Homem mais Rico do Brasil (editora Matrix, R$ 27 pelo site flpmoreno.com.br), lançado nesta sexta-feira. Escrito pelo jornalista mineiro Felipe Moreno, que, como repórter de Mercados do InfoMoney, acompanhou de perto a ascensão e queda do grupo X, a obra conta a história das empresas do ex-bilionário Eike Batista com uma “visão 360 graus” – parafraseando expressão popularizada pelo próprio empresário. Moreno analisa a construção do mito, o contexto econômico que o produziu, os parceiros de peso, a chegada das empresas à Bolsa, as bravatas nunca cumpridas, as vítimas de seus fracassos e, finalmente, o colapso. A narrativa precisa e o tom crítico ajudarão a perpetuar a história triste que empobreceu milhares de brasileiros e contribui para o amadurecimento do mercado financeiro. Leia a seguir um resumo dos principais pontos defendidos pelo jornalista:

O mito
Eike é mostrado como a pessoa que ganhou mais dinheiro com o PowerPoint no mundo – “mais até do que Bill Gates”. O ex-bilionário foi um vendedor nato de sonhos, capaz de captar bilhões de reais na Bolsa para investir em empresas que levariam muitos anos para começar a gerar caixa. A confiança que os investidores depositaram em Eike ajudou a construir sua fama de “Midas brasileiro” e até a lenda urbana de que ele teria o mapa brasileiro do minério e do petróleo na cabeça. Era um gênio empreendedor que não tinha vergonha de sua riqueza. O único brasileiro a ocupar uma das 10 primeiras posições no ranking dos maiores bilionários do mundo. O futuro homem mais rico do mundo, que só não sabia se ultrapassaria Carlos Slim “pela esquerda ou pela direta”. O sócio que qualquer um queria ter. O líder que enriqueceria seus seguidores.

O contexto que produziu esse mito
Eike foi um fenômeno da era de ouro das commodities. Era o Brasil do Cristo Redentor transformado em foguete na capa da revista Economist, da conquista do “investment grade”, do dólar que só caía, da febre dos IPOs na Bolsa, da aparente segurança com as regras do Novo Mercado, da elevada liquidez internacional, do deslumbramento dos estrangeiros com o Brasil. Se tivesse surgido em meio ao cenário econômico atual, Eike não teria uma pequena fração da projeção que conquistou na década passada.

As empresas
Em 2006, a MMX, primeira empresa de Eike a abrir capital, conseguiu levantar R$ 1,1 bilhão com sua oferta de ações. Era a miniVale. Um ano depois, veio o IPO da MPX, que arrecadou R$ 2 bilhões. Em 2008, chegou ao mercado o que deveria ser a joia da coroa do grupo X: a OGX, que captou R$ 6,7 bilhões. Era a miniPetrobras. Logo depois fez a cisão da MMX, dando origem à LLX, que seria a Roterdã dos trópicos. Outra cisão da MMX criou a IronX, que ajudou a torná-lo mítico no mercado, uma vez que a empresa foi vendida para a Anglo American por R$ 5,4 bilhões. Como Eike havia pagado muito menos pelas minas, a notícia foi encarada como a prova definitiva de seu toque de Midas. Em 2010, Eike trouxe à bolsa a OSX, levantando mais R$ 2,45 bilhões. Era a Embraer dos mares. Ainda chegariam à Bolsa a PortX (incorporada posteriormente pela MMX) e a CCX. Sua fortuna alcançou US$ 30 bilhões com esses IPOs, mas poucos se questionaram até que ponto essa montanha de dinheiro seria real.

As quase empresas
Além de todos esses empreendimentos, Eike ainda prometeu construir uma montadora nacional de carros. Tentou entrar no bloco de controle da Vale. Estudou comprar o SBT do apresentador Silvio Santos. O suntuoso hotel Glória foi uma grande promessa, mas nunca saiu do papel e acabou vendido. O barco Pink Fleet rendeu fotos em todas as revistas de celebridade, mas virou sucata.

As bravatas
O ex-bilionário era uma máquina de fazer promessas. Disse que tinha US$ 1 trilhão em petróleo na OGX. Declarou que as reservas provadas da OGX alcançavam 10 bilhões de barris, quando na verdade eram muito menores. Divulgou fatos relevantes em série sobre supostas descobertas que nunca se provaram. “Minhas empresas são à prova de idiotas”, afirmou certa vez. “Quem apostar na queda das minhas ações será pego de calças curtas”, escreveu em outra oportunidade em seu perfil no Twitter. Seu livro se tornou best-seller imediatamente. Deu entrevista para o Fantástico. Exibiu carrões. Exibiu mansões. Exibiu uma frota de jatos. Exibiu mulheres. Posou ao lado de celebridades, de Madonna a Lula. Tornou-se, talvez, o brasileiro mais invejado de sua época.

Os sócios ou credores
Eike teve como parceiros em seus projetos gente muito graúda como a General Eletric, a BP, o Mubadala, o BNDES, o BTG Pactual, o Bradesco, o Itaú, a Caixa, o banco Votorantim, o Santander, a BlackRock, a Pimco, o Ontario Teachers Pension Plan. Difícil acreditar que todo esse grupo de instituições, com executivos tão experientes, estivessem errados em aprovar a liberação de uma mantenha de dinheiro para o empresário. Mas todos erraram.

As vítimas
O investidor brasileiro médio é típico de manada. É o cara que comprou um imóvel ou um fundo imobiliário em 2013. É quem entrou na capitalização da Petrobras em 2010. É o cara que entrou com tudo na Bovespa no início de 2008. É quem comprou dólar no pico de R$ 4, logo antes da eleição de 2002. É o cara que sempre investiu na poupança, mas que só resolveu diversificar porque recebeu uma dica ou porque ouviu um amigo contar vantagem que estava ganhando muito dinheiro sem trabalhar com alguma aplicação financeira. É quem acha chato demais se informar sobre a economia. Sem considerar fundos passivos, mais de 50 mil brasileiros investiram dinheiro na OGX sem saber quase nada sobre os riscos de uma empresa de petróleo, sem entender a dinâmica de uma empresa pré-operacional, sem estar preparados para enfrentar as armadilhas da Bolsa. São pessoas que acreditaram em opiniões de analistas pouco preparados ou muitas vezes enviesados. São pessoas que, salvo exceções, não foram devidamente avisadas pelos jornalistas da área. Gente que vislumbrou a possibilidade de ficar rico de uma hora para outra sem analisar os riscos de empobrecer ainda mais. Em suma, presas fáceis a serem fisgadas por algum espertalhão.

2013: o colapso
Talvez só tenhamos começado a conhecer um pouco do verdadeiro Eike Batista em 2013. P ex-bilionário vendeu ações da OGX 15 dias antes de anunciar ao mercado que a OGX abandonaria quatro de seus principais campos de petróleo. Segundo matéria publicada pela Folha, ele já sabia desde 2012 que não havia óleo viável ali. Depois passou a fazer de tudo para não honrar a put (opção de venda) de US$ 1 bilhão, dinheiro que havia se comprometido por escrito a colocar na OGX caso a empresa necessitasse de caixa para dar continuidade a seus projetos. Demitiu executivos em série. Demitiu centenas de pessoas. Não pagou o aluguel do prédio onde ficava a EBX. Deixou dezenas de fornecedores na mão. Deu um calote bilionário nos credores. Vendeu empresas às pressas sem se importar muito com os sócios minoritários. Foi acusado por mentir ao mercado e por insider information. Nunca pediu desculpas. Preferiu apontar o dedo para aqueles que o assessoraram no passado, que o teriam enganado.

Confira a capa do livro:

Eike - A Derrocada do Homem Mais Rico do Brasil

João Sandrini

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