Quebrou a cara? 4 meses após “maldição” de Mantega, dólar foi de R$ 2,43 para R$ 2,84

Ex-ministro defendeu moeda brasileira e disse que dólar não iria subir por que o País tinha uma política "clara" e "que interessa a todos, à maioria da população"

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SÃO PAULO – 19 de outubro de 2014: reta final das eleições. Os investidores tentavam se antecipar para os impactos de uma vitória de Dilma Rousseff (PT) ou Aécio Neves (PSDB) no mercado financeiro. De forma simples: a expectativa era que se a petista vencesse, a Bolsa iria afundar enquanto o dólar iria disparar, e o contrário aconteceria com a vitória de Aécio. Foi nesta data que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, jogou uma “maldição” em quem se posicionasse a favor da alta da moeda americana.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, veiculada há exatos 4 meses, Mantega cravou que quem apostasse em uma alta do dólar iria “quebrar a cara”. Na época, a moeda era cotada a R$ 2,43. Como sabemos, Dilma Rousseff ganhou as eleições e o cenário base do mercado venceu a ameaça do ministro: o dólar engatou uma disparada, chegando ao patamar de R$ 2,87 na semana passada – alta de 18% -, a maior cotação da moeda em mais de 11 anos. A aposta dos investidores a favor do dólar – ou contra o real – se sustenta pelas dúvidas acerca da capacidade da equipe econômica de Dilma enfrentar o terrível panorama econômico doméstico, cujo PIB deve contrair em 2015 ao mesmo tempo em que a inflação deve superar com folga o teto da meta, de 6,5%.

Em outubro, Mantega destacou as grandes reservas de dólares que o Brasil tinha para justificar que, se fosse preciso, o Banco Central iria intervir para conter o movimento da moeda. “Não há motivo para isso [apostar na alta do dólar]. Agora, se alguém tentar fazer isso vai quebrar a cara. Rali contra o câmbio vai quebrar a cara porque nós temos US$ 380 bilhões de reservas. Somos poderosos nessa área. Não tem razão para fazer rali, mesmo porque a política que nós vamos praticar está clara, não tem mistério. E acredito que é uma política que interessa a todos, à maioria da população”, disse na época o sempre otimista Mantega, cuja saída do Ministério já era fato independente de quem ganhasse a corrida presidencial.

Apesar das altas, até o início deste ano o dólar ainda conseguiu se manter em níveis mais baixos, em torno dos R$ 2,60. Porém, no final de janeiro, a sinalização do “novo” ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de que o governo lutará com o mesmo empenho para manter o dólar artificialmente baixo provocou uma nova corrida de valorização da divisa dos EUA, que superou com facilidade a barreira dos R$ 2,80.

E para quem está impressionado com esta alta, é melhor ficar atento: os economistas trabalham com um cenário de dólar acima de R$ 3,00 ainda este ano, podendo encerrar 2015 em R$ 3,20. Na última quarta-feira (18), o Goldman Sachs afirmou que o Brasil deveria deixar que o real se desvalorize até um nível entre R$ 3,10 e R$ 3,20, considerado pelo banco americano um valor justo da moeda.

Duas conclusões que podemos tirar: i) para o investidor que acreditou na maldição do Mantega e se arrependeu, ainda há um espaço para ganhar com a alta do dólar sem medo de “quebrar a cara”, se as projeções dos economistas se concretizarem; ii) se Mantega de fato acreditou que o dólar não iria subir, esperamos que ele não tenha planejado uma viagem internacional para o seu “período sabático” após 8 anos à frente do Ministério da Fazenda, caso contrário, ele pode criar um rombo no orçamento. Ainda bem que, desta vez, esse rombo não será nas contas públicas, e sim na privada.

Rodrigo Tolotti

Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.

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