Quebrando estereótipos: Bogotá, a cidade do futuro

Uma comparação da capital colombiana com a maior cidade do Brasil

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BOGOTÁ – Quando você pensa na Colômbia, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Eu fiz essa pergunta para 10 pessoas e as respostas que mais ouvi foram: FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), narcotráfico, pobreza e cocaína. Pois bem, esqueçam isso tudo.

Na semana passada eu estive em Bogotá, capital da Colômbia, em um evento sobre fundos de private equity, e aproveitei para conhecer grande parte da cidade e questionar muitos de seus moradores sobre ela. Assim, posso dizer que vincular aquelas palavras à Colômbia é tão imbecil quanto vincular macacos ao Brasil.

Assim como você não chega em São Paulo e vê membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) andando pelas ruas e distribuindo tiros para todos os lados, você pode ir para a Colômbia tranquilamente, pois te garanto que você não irá encontrar nenhum guerrilheiro em ação, principalmente hoje em dia, que a situação está totalmente sob controle devido aos acordos da Força com o governo.

Ao contrário do que imaginam, Bogotá está muito à frente de São Paulo em muitos aspectos. Discorda? Passe apenas um fim de semana lá que você irá mudar de ideia na mesma hora.

Eu não irei comparar um país com o outro nesses quesitos que irei abordar, pois não conheço todas as cidades do Brasil e muito menos da Colômbia para dizer. No entanto, comparar a cidade de São Paulo com a cidade de Bogotá é algo totalmente plausível, afinal, além de conhecer as duas de forma considerável, elas possuem tamanhos relativamente próximos e com um número de habitantes não tão distante assim. Enquanto São Paulo possui quase 12 milhões de habitantes, Bogotá tem quase nove milhões de pessoas.

Imaginem vocês uma cidade de nove milhões de habitantes sem metrô. Um caos não é? Errado novamente. O transporte público de Bogotá, apesar de a cidade não ter metrô, é muito melhor que o de São Paulo. Todas as pessoas para as quais eu pedi uma opinião em relação ao transporte público da cidade, o elogiaram. Isso em três dias. Eu moro em São Paulo há 22 anos e NUNCA ouvi alguém elogiar o transporte público desta cidade, que, convenhamos, é um verdadeiro caos.

De 1999 para 2000, na virada do milênio, a cidade colocou em prática um projeto de transporte público chamado TransMilenio, que é nada mais que uma enorme frota de ônibus, bonita e moderna, e que FUNCIONA. Milhares de pessoas a usa diariamente e ninguém reclama e nem passa sufoco, pois os ônibus não ficam lotados e nem demoram a passar, ou seja, são sincronizados.

Todas as principais avenidas da cidade possuem uma faixa exclusiva de ônibus, mas que foram feitas com planejamento e estudo. O mais interessante é que há uma alta barreira, que impede que carros passem, entre a faixa dos ônibus e as faixas dos carros, o que nos faz perceber que o objetivo da faixa é realmente melhorar o transporte público e não arrecadar mais com multas (como em São Paulo), afinal, não tem como os carros invadirem a faixa.

Já em São Paulo, nosso “excelentíssimo” prefeito, Fernando Haddad, que está conseguindo, aos poucos, superar a ineficiência e a capacidade de fazer “cagadas” de seu antecessor, Gilberto Kassab (o que é algo extremamente difícil), resolveu fazer “um zilhão” de quilômetros de faixas de ônibus sem planejamento nenhum, só para ir à televisão na próxima eleição falar que cumpriu o que prometeu na campanha logo no primeiro ano de mandato. Acontece, que fazer faixa de ônibus não é pintar uma linha mais grossa no chão e escrever ÔNIBUS. É um pouco mais complexo que isso. Isso é provado pelo fato de que o nosso prefeito transformou o trânsito de São Paulo, que já era um caos, em um verdadeiro inferno.

Ruas ganharam faixa de ônibus sem o menor sentido, parece que só para cumprir números. Um exemplo está ao lado de minha casa, em duas ruas que sempre foram super tranquilas e hoje são parte de um caos diário, pois elas só têm duas faixas e uma virou de ônibus. Outro dia fiquei parado com meu pai naquela rua por mais de 40 minutos e ele fez um comentário que me despertou a atenção: “estamos aqui há mais de meia hora e não passou um ônibus nessa filha da puta desta faixa”. E claro, os carros não podiam invadir, pois tinham guardas da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) posicionados estrategicamente (até meio escondidos, o que é ridículo) para multar o primeiro cidadão que fosse vencido pelo cansaço e pela fome e invadisse a faixa do ônibus. Para a infelicidade deles (sim, pois parece que eles torcem para que os carros entrem na faixa do ônibus para multar e acabar com o bloco – bater a meta) ninguém invadiu – naquele dia.

Resumindo: em Bogotá, isso não existe. O trânsito flui bem (claro que tem horários de pico com trânsito mais complicado, afinal, isso ocorre em qualquer cidade grande do mundo), mas eu não vi e nem ouvi relatos de algo tão catastrófico como o que vejo por aqui diariamente.

Falando em CETs (um – entre tantos – câncer de nossa cidade), em Bogotá não se vê nem um décimo da quantidade de “guardas de trânsito que só servem para multar e piorar o trânsito” que se vê nas ruas de São Paulo, afinal, lá não existe a indústria da multa. Aliás, para quem pensa que lá é perigoso, que tal essa informação: o número de CETs que vejo em São Paulo é comparável com o número de policias que vi em Bogotá. Um policial a cada esquina. Literalmente. Eu andava pelas ruas tranquilamente, tirando fotos com meu iPhone e em nenhum momento me senti ameaçado. E antes que você pergunte, não, eu não estava em qualquer país da Escandinávia, eu estava na Colômbia.

Se os políticos de São Paulo se preocupassem menos em multar e fazer medidas populistas e marqueteiras para ir falar números na televisão na próxima eleição e focassem em realmente melhorar o trânsito com medidas feitas com planejamento e um plano decente, sem segundas intenções, sem desvio de verbas, superfaturamento e etc, essa cidade seria sensacional. Aliás, ela tem tudo para ser, afinal, é uma cidade enorme, que transborda cultura e é conhecida mundialmente. Em qualquer país do mundo que você fale que mora no Brasil, a pessoa imediatamente vai perguntar: em São Paulo? Então por que não aproveitamos todo nosso potencial? Essa pergunta nunca terá uma resposta, pois cada vez tenho menos esperança de que algo irá mudar.

Como pode Bogotá ter um sistema de transporte que funcione tão bem – sem ter metrô ainda – e que foi colocado em prática há 13 anos. Como pode São Paulo (e o Brasil) estar tão atrasado? É inacreditável. Enquanto eu estava lá eu só pensava: meu Deus, como isso funciona bem. Não tem milhões de pessoas no ponto do ônibus (nos principais centros comerciais, às 18h), não tem pessoas espremidas dentro dos ônibus, não tem um trânsito caótico e desgastante. Imagina só isso em São Paulo. Ia ser sensacional.

Bogotá está com um projeto de metrô pronto e que entrará em prática em breve. Serão cinco linhas que percorrerão a cidade inteira e a primeira ficará completamente pronta em menos de seis anos. Se nenhuma pessoa reclama do transporte público em uma cidade com nove milhões de habitantes que não tem metrô, quando tiver eu não quero nem ver a qualidade do sistema. Farei questão de voltar lá para ver e sentir inveja novamente.

Outra coisa espantosa são os preços. Ainda em transporte público, os taxis, além de ter um serviço de altíssima qualidade, a cidade possui um número surreal deles. E o mais interessante é que a demanda acompanha a oferta. O serviço é tão barato que tem pessoas que usam esse transporte público, usado só em último caso em São Paulo (ou quando pago pela empresa) diariamente. Pelas contas rápidas que fiz, uma corrida de R$ 100,00 aqui em São Paulo daria cerca de R$ 20,00 em Bogotá. Espantoso.

Mas a maior vantagem em relação a preços nem é essa. Os produtos simplesmente não têm impostos. Confesso que não sei como é a regra exatamente e como funciona essa política no país, mas o que eu sei é que fiz compras nos três principais e maiores shopping da cidade (que, por sinal, são muito lindos, como os de São Paulo) e todas as lojas que entrei tinham uma placa na frente escrito “Duty Free”. No momento da compra, a vendedora ainda fazia questão de avisar que o produto que eu estava comprando era totalmente livre de impostos, o que também vinha especificado na nota. Ou seja, os shoppings são como grandes Free Shops e não tem diferença nenhuma de preço nos produtos das lojas do aeroporto com os do shopping.

O quão surreal é isso para quem mora em uma das cidades mais caras do mundo, que cobra uma quantidade abusiva e vergonhosa (perante o mundo) de impostos?! Alias, sim, São Paulo já está conhecido mundialmente por isso, pois quando eu falava para os estrangeiros (americanos, japoneses, chilenos e colombianos) que morava em São Paulo, o primeiro comentário que eu ouvia era sobre o quão cara é esta cidade.

Um exemplo prático da diferença de preços entre São Paulo e Bogotá está nos produtos da Apple. Eu me espantei muito quando entrei na AppStore do Shopping Andino (o maior da cidade) e vi preços tão inferiores aos do Brasil. O iPhone 5S 16g, que chegou aqui na última sexta-feira por espantosos e absurdos R$ 2.799,00, custa 1.600.000,00 pesos colombianos, ou seja, cerca de R$ 1.800,00. Sim, é isso mesmo R$ 1.000,00 a menos. Sem comentários.

Além do transporte público de qualidade, da segurança, dos preços baixos, da beleza da cidade e de um aeroporto internacional infinitamente melhor, maior, mais bonito e eficiente que o nosso (sim, tenho vergonha do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos), as pessoas são extremamente educadas e receptivas com os turistas, sempre dispostas a dar informações (mais até que em Buenos Ayres e Montevideo). Sem falar que elas são muito mais bonitas do que eu imaginava e do que em qualquer outra cidade que já visitei na América do Sul.

Pois é, está na hora de acordar, São Paulo e Brasil, afinal, estamos ficando para trás em nosso continente TAMBÉM.

Arthur Ordones

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