Pirâmides, meditação e algumas gafes: a entrevista de Dilma ao México que você não viu

Questionamentos sobre a cor da bandeira do México, sobre a origem das pirâmides e até sobre meditação mostraram que Dilma e o jornalista mexicano foram muito além da questão do impeachment

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SÃO PAULO – Na tarde do último domingo (24), ganhou destaque na mídia a entrevista que a presidente Dilma Rousseff para o jornal de esquerda La Jornada, do México. E o que mais se foi falado foi a sua opinião sobre a tentativa da oposição de pedir o seu impeachment, além do que ela pensa sobre os protestos de rua.

“O problema do impeachment é sem base real, e não é um processo, e não é algo, vamos dizer assim, institucionalizado? Eu acho que tem um caráter muito mais de luta política, você entende? Ou seja, é muito mais esgrimido como uma arma política, não é? Uma espécie de espada política, mistura de espada e de dama que querem impor ao Brasil. Agora, a mim não atemorizam com isso. Eu não tenho temor disso, eu respondo pelos meus atos. E eu tenho clareza dos meus atos”, afirmou a presidente.

Contudo, quem conhece a presidente sabe que ela também costuma fazer algumas falas desencontradas, sendo que muitas delas já geraram compilações cômicas pela internet. A compilação do site BuzzFeed não nos deixa mentir…

E não foi diferente durante a entrevista de Dilma para o jornal mexicano. Logo no começo da transcrição, divulgada pelo site do Palácio do Planalto, a presidente já deu algumas declarações imprecisas. Desta vez, sobre as pirâmides do México e também sobre os métodos que fazia para tentar suportar os traumas sofridos na ditadura.  

Ao ser perguntada sobre se esta está sendo a primeira visita de Estado ao México, Dilma respondeu: 

“Estou, e estou contente de ir ao México. Eu conheço o México. Eu já fui ao México umas duas vezes. Não, acho que foi até mais do que duas vezes, mas uma foi só de passagem…. A coisa que mais me estarreceu no México não foi as duas pirâmides, porque aí eu já estava… eu já tinha tido noção do tamanho da civilização anterior aos Astecas, foi no museu antropológico, que me disseram que agora mudou, não é? E que eu fiquei absolutamente espantada pela versão ocidental, que não destaca o tamanho daquela civilização. E a única coisa…”

Depois de ser perguntada pelo jornalista Darío Pignotti se poderia começar a fazer a gravação, ela respondeu afirmativamente, e continuou: “(e a única coisa) que não destaca e que uma das coisas, assim, que eu acho que eles… Uma das coisas que a mim, eu tive muito impacto quando eu vi, na época que eu fui a primeira vez, que foi em 1982, lá em (…), lá se vão muitos anos, eu vi, tinha uma reprodução da cidade indígena, e a cidade indígena, ela…”

Depois de algumas reticências, o jornalista disse o nome da cidade Tenochtitlán. Depois de falar que a “nossa população indígena não estava no mesmo nível de desenvolvimento”, Dilma e o jornalista mexicano travaram uma discussão sobre as civilizações mexicanas, que durou alguns diálogos. 

Não, me diz o seguinte: as duas pirâmides não são astecas?”, perguntou Dilma, recebendo a resposta “não, totalmente, não. Mas eu também não sou expert em…”

Dilma rebateu: “são… Segundo… Por exemplo, eu fiquei estarrecida e corri atrás para saber. Segundo se sabe, é de uma civilização anterior”.

A presidente também comentou sobre o Museu Antropológico, ao ser questionada sobre o que gostaria de visitar: “é, me perguntaram isso e eu, primeira coisa que eu disse era o Museu Antropológico. Mas depois me falaram duas coisas, que aí, aí eu estou balançando, porque o museu eu já conheci, porque depois eu voltei e tornei a olhar, tornei a ir no museu, porque não dava tempo, era… para mim foi muito importante. Eu queria ir no… eu queria ver uma exposição, ou onde tem as pinturas de uma mulher que foi da época da Frida Kahlo, chamada Remedios – se eu não me engano –,Varo”.

Ao falar sobre a cultura dos dois povos, o jornalista questionou: “são duas culturas tão intensas, tão ricas, a mexicana e a brasileira, que a aproximação dos dois povos é um experimento político e cultural extraordinário, não é?”

E ela respondeu: “é. Eu acho que Brasil tem muito a ganhar com essa aproximação cultural. Porque tem uma riqueza na cultura mexicana que ela valoriza o que nós temos, também, você entende? Ela é… Porque, o que eu senti? Eu senti orgulho do Continente, orgulho da América Latina. Então, eu acho que ela mexe muito com a sua autoestima. Então, tem isso também: mostrar que houve aqui, aqui, uma civilização daquele tamanho”.

A cor da bandeira: a grande questão
Conversa vai, conversa vem, o jornalista pediu para fazer uma pergunta para a presidente, mas ela mesma fez a pergunta: “qual é a cor da sua bandeira?”

O jornalista respondeu: branca, azul e vermelha e Dilma rebateu, “Branca, vermelha e azul, não é? Não, verde”, e o jornalista falou novamente: “não, vermelha e verde, verde. Igual que a da Irlanda, igual que a da Itália, só que tem o escudo no meio, da águia com a serpente”.

Dilma falou novamente: “por que eu e perguntei isso? Sabe por quê? Teve um teatrólogo brasileiro, que você deve conhecer, Nelson Rodrigues, que, além, disso, foi um colunista de futebol… que quando se referia à Seleção Brasileira, dizia que a Seleção Brasileira era a pátria de chuteiras, a pátria verde e amarela de chuteiras, Lá, a Seleção Mexicana é a pátria azul, branca e verde…”

Não, a camisa é verde, a camisa da Seleção. Sim, é verde”, disse o jornalista, enquanto a presidente respondeu: “é verde? Então, é a pátria verde de chuteiras. A nossa também às vezes é verde, hein?”

Meditação
Ao falar sobre a ditadura, e quando perguntada se depois de resistir àquelas torturas “as pressões de hoje não são nada”, a presidente respondeu que “são bem mais fáceis”, apesar de não serem “facílimas” ou não relevantes.

E continuou: “e eu falo, sabe por que que não tem heróis? Porque eu vi as pessoas mais variadas, é uma questão de resistir. Se você tem convicção que está certo, você tem de resistir. Resistir, tem hora até que você resiste se enganando. Você fala: ‘Ah, eles vão voltar’. Porque eles falam assim para você: ‘nós voltamos daqui a uma hora, pensa bem’. Aí te pendura outra vez, bota no pau-de-arara, te dá um choque, etc. Qual é a estratégia, o que que é que você tem de fazer? Primeiro, você não pode pensar, você tem de impedir, você tem de fazer um esforço quase… Como é que chama aquilo que uma vez me falaram: ‘você tem de fazer treinamento de…’. Aquele que a gente para  fica assim: ‘Ummmmm’”.

“Meditação”, completou o jornalista e Dilma prosseguiu. “ Meditação. Você faz meditação. Você sabe o que é fazer meditação espontânea? Você tem de tirar aquilo da sua cabeça. Porque se você não tirar aquilo da sua cabeça, o medo toma conta, não é? E o medo, ele te corrói, o medo é uma coisa que tem dentro de você, não tem fora. O medo é tudo que a natureza, ao longo de toda a nossa evolução, colocou dentro de nós, para a gente poder sobreviver. Há alguém querendo nos comer, não é? Há o raio, há o diabo. Há o diabo, por isso que tem adrenalina”, afirmou a presidente.

Confira o áudio completo da entrevista clicando aqui. 

Outros pontos
Além das falas curiosas de Dilma, a presidente ainda falou sobre o pré-sal e sobre as manifestações nas ruas. Ela destacou que a democracia não é marcada pelas “situações de paz dos cemitérios, mas sim por “manifestações de rua”, reivindicações e “expressões de descontentamento”.

“Onde tem algum conflito, ele faz parte da democracia. Nós, quanto mais resilientes formos, quanto mais normal for a manifestação política, ‘Eu estou divergindo’, ‘Eu sou contra’, e isto não levar à ruptura, nem à situação extrema, mais evoluídos, do ponto de vista democrático nós somos”.

A presidente ainda falou sobre o esquema de corrupção de empreiteiras em contratos com a Petrobras. Ela afirmou que a estatal é “tão importante para o Brasil como a seleção” e, ao falar sobre a Operação Lava Jato, reconheceu envolvimento de funcionários da empresa no esquema de corrupção.

“A Petrobras tem 90 mil funcionários, quatro funcionários foram e estão sendo acusados de corrupção. Ninguém pode falar antes de ser condenado, mas todos os indícios são no sentido de que são responsáveis pelo processo de corrupção”. 

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.

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