Os suportes e resistências de Dilma pelo Datafolha

Com apenas 13% de avaliação ótimo/bom, aumentam as comparações entre os índice da presidente e aqueles que derrubaram Fernando Collor de Melo

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*Colaborador do InfoMoney por mais de um ano, Marcos Mortari atualmente trabalha como consultor político.

A pesquisa Datafolha desta terça-feira (18) aponta para uma nítida deterioração da imagem do governo Dilma Rousseff, que passa pelo seu pior momento em toda a gestão frente à opinião pública. A piora do quadro econômico, a crise de corrupção gerada com as ampliações da investigação Lava Jato (que completou um ano nessa semana), as tensões políticas alimentadas por uma base fragmentada no Congresso, as dificuldades energéticas e hídricas em determinadas regiões, além da guerra de discursos de ódio e efeitos colaterais das eleições mais disputadas da história recente do país figuram entre os principais temas da atual agenda que “sangra” – para delírio do senador tucano Aloysio Nunes Ferreira (SP) – a popularidade da presidente.

Com apenas 13% de avaliação ótimo/bom, aumentam as comparações entre os índice da presidente e aqueles que derrubaram Fernando Collor de Melo. Enquanto este apresentava 68% de rejeição a poucos meses de seu impeachment, a outra conta com uma reprovação de 62% alguns dias depois de uma manifestação levar milhares às ruas de capitais de todo país – com destaque para São Paulo, que, de acordo com o mesmo Datafolha, contou com cerca de 210 mil pessoas; enquanto cálculos da PM apontaram para a casa do milhão.

Além disso, outro grande problema foi muito bem apresentado pela jornalista Eliane Brum em um momento em que a maioria se preocupava se os manifestantes eram tucanos ou se havia petistas, se eram ricos ou pobres, se eram brancos ou havia pretos: “mais brutal para o Partido dos Trabalhadores pode ser não a multidão que ocupou as ruas em 15 de março, mas aquela que já não sairia de casa para defendê-lo em dia nenhum”, escreveu em coluna ao El País. O PT sofreu uma enorme redução em sua efetiva base política e isso traz custos elevadíssimos a Dilma. Ainda a se considerar: na última eleição, houve um expressivo contingente de eleitores que votou branco, nulo ou simplesmente não exerceu seu direito e dever de comparecer ao seu colégio eleitoral.

É evidente que as turbulências têm aumentado e a presidente provavelmente corre mais riscos de sofrer um impedimento – legítimo ou não – do que antes. Tudo isso evidencia a série de erros cometidos pelo governo, sobretudo logo após a vitória conquistada nas urnas. Não que erros não tivessem sido cometidos antes – certamente foram, e muitos. Mas a traição sobre seu próprio eleitor certamente catalisou o mal- estar. A esquerda acostumada a apoiar o PT apesar de não se sentir fielmente representada pelo partido se sente profundamente traída com a escolha de se adotar uma orientação macroeconômica contrária a seus ideais.

Ao trair a esquerda e não conquistar a direita, Dilma pode acabar sem ninguém
Ao mesmo tempo, Dilma ainda não conquistou os espaços que talvez esperasse ao lado de Joaquim Levy. Muito pelo contrário: a resposta da direita e de outras vertentes da política nacional tem sido dada pelo barulho das panelas. Se são Le Creuset ou da 25 de março, isso deveria importar menos ao governo nesse momento, uma vez que a insatisfação dá sinais de que superou barreiras ideológicas importantes e atingiu as diversas camadas da sociedade. Muitos são contra o impeachment, mas o desconforto com relação às ações do governo é enorme. No momento em que o que normalmente é conduzido para dentro da panela fica cada vez mais caro, não há governo que contenha a queda de popularidade.

 Segundo o Datafolha, a taxa de aprovação de Dilma caiu de 23% para 13% do início de fevereiro para cá, enquanto a reprovação saltou de 44% para 62% e a percepção regular caiu de 33% para 24%. Conduziram à piora dos números, sobretudo, os eleitores de escolaridade média (66%), os com renda mensal de 2 a 5 salários mínimos (66%) e aqueles com renda entre 5 e 10 salários mínimos (65%), no Centro-Oeste (75%) e Sudeste (66%), principalmente em cidades com mais de 200 mil habitantes (66%).

“A avaliação negativa do governo Dilma, acima de 60%, é comparável à enfrentada por Sarney (pesquisas em 10 capitais durante o mandato do maranhense mostravam índices negativos de 62% a 68% entre março de 1988 e janeiro de 1990) e por Fernando Collor (68% avaliavam seu governo como ruim ou péssimo no início de setembro de 1992, pouco antes de Collor ser impedido de exercer a Presidência). No pior momento de sua administração, Fernando Henrique Cardoso também se aproximou desse patamar (o governo do peessedebista foi avaliado como ruim ou péssimo por 56% em setembro de 1999)”, observou o Datafolha no relatório da pesquisa.

A deterioração da imagem da gestão de Dilma não se deu a um determinado perfil de eleitor. Todos os segmentos manifestaram o aumento da descrença – uns com maior exposição, enquanto outros com menor. No caso da escolaridade, eleitores das categorias “fundamental” e “médio” apresentaram as maiores mudanças, enquanto aqueles com ensino superior deixaram de ser os que tinham o pior índice de percepção de “ótimo/bom” para se tornarem o grupo com o maior percentual de avaliação positiva, superando até mesmo os 13% consolidados. Comportamento semelhante pode ser observado em eleitores com renda superior a dez salários mínimos, acompanhados por aqueles que recebem entre cinco e dez salários mínimos.

Ambos os exemplos ressaltam a complexidade da experiência política vivida por esse governo. Eles derrubam discursos maniqueístas herdados de uma eleição polarizada e nos ajudam a questionar outra retórica igualmente envelhecida: aquela usada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, para minimizar panelaços e a manifestação de domingo. A maior parte dos brasileiros nas ruas podem ter votado, em sua maioria, no candidato da oposição, o senador Aécio Neves, para a presidência. De qualquer forma, não é isso que se espera de um governo. A essa altura já ficou clara a insatisfação, inclusive de eleitores de Dilma Rousseff, com o andamento de sua gestão, e um argumento que resgata toda a divisão do país, cujo clímax remete a outubro do ano passado, simplesmente não cabe às atuais circunstâncias.

As tabelas abaixo permitem uma análise mais profunda sobre a mudança na percepção do eleitor. A primeira refere-se ao Datafolha de 3 a 5 de fevereiro, enquanto a segunda mostra o resultado da pesquisa feita em 16 e 17 de março.

O suporte dos 13% testa a resistência das ruas
Uma ponderação importante aos números extremamente negativos para o governo, apresentados pelo Datafolha nesta terça-feira, pode dar um mínimo de alento temporário a Dilma. Como ocorre em outras áreas das ciências humanas, a pesquisa do instituto – que entrevistou 2.842 pessoas em 172 municípios, na segunda e terça-feira desta semana – pode conter o vício da proximidade de um fato com potencial de modificação pontual da opinião pública.

Em outras palavras, o levantamento do Datafolha pode estar tão imerso no contexto dos protestos de dois dias antes (extremamente negativo ao governo) de seu período de campo que não seria tão surpreendente assim se Dilma mostrasse uma recuperação não desprezível se uma nova pesquisa fosse feita algumas semanas depois. É possível que muitas pessoas que tenham respondido que avaliam o governo como “ruim/péssimo”, por exemplo, na verdade não o enxerguem de maneira tão negativa e que, passado o calor de um momento de efervescência, contrário ao governo, elas possam retornar a um posicionamento menos crítico e compor a faixa daqueles que consideram a atual gestão simplesmente como “regular”.

A depender do andar da carruagem nos próximos dias, tanto do lado das ações do governo como do comportamento das massas de eleitores, é possível que os 13% de ótimo/bom de Dilma ainda seja, na ótica de uma “análise técnica das pesquisas de popularidade”, um suporte com certa dificuldade para ser rompido. Um suporte quase no nível do mar, é verdade, mas um suporte. Além do mais, talvez o número 13 possa dar sorte a mais gente além do saudoso ex-jogador e técnico de futebol Mário Jorge Lobo Zagallo. Dilma Rousseff tem treze letras e é um número cabalístico ao seu partido. Entretanto, não é só de sorte que sobrevive um presidente. Resta saber se ela também tem os outros requisitos para espantar de vez o fantasma do impeachment e governar o país por mais quatro anos.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.

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