OGX lembra as manifestações de junho: “não são apenas R$ 0,20”

Esse é o ponto mais baixo do sonho da construção de uma mini-Petrobras que tanto encantou o mercado e os pequenos investidores

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SÃO PAULO – 50 mil pequenos acionistas observam os desdobramentos da história da OGX Petróleo (OGXP3), uma das empresas que se tornaram mais famosas em toda a Bovespa nos últimos anos – principalmente entre as pessoas físicas. A empresa vive uma crise sem precedentes e viu suas ações despencarem dos R$ 23,00 para os R$ 0,20 na última segunda-feira (7) – o mesmo valor que desencadeou as manifestações populares de junho.

Quando a tarifa do ônibus foi elevada na cidade de São Paulo – a primeira vez em dois anos -, milhares de pessoas foram às ruas protestar. Somado a isso, a brutalidade policial com os manifestantes fez com que outros milhões saíssem de suas casas em todo o Brasil. E criaram o slogan “não são só R$ 0,20” – afirmando que havia muito mais por trás dos protestos contra o aumento da tarifa. 

Slogan esse que exemplifica a situação do grupo EBX. A ação da OGX vale R$ 0,20. Mas representa muito mais do que isso: é o ponto mais baixo do sonho da construção de uma mini-Petrobras (PETR4) que tanto encantou o mercado e os pequenos investidores. É também um sinal de que Eike não mais conseguirá cumprir seu sonho de se tornar o homem mais rico do mundo – que o empresário dizia ser capaz de conseguir em 2015 ou 2016.

A importância da OGX para o mercado
A OGX representava uma esperança no Brasil que já esfriou, depois de três anos de fraco crescimento. Representava a emergência dos nossos ricos e o toque de Midas de Eike. É, em vários sentidos, a ação mais importante dos últimos anos: chegou, se tornou uma das mais negociadas em toda a Bovespa, e ao derreter chamou a atenção de todo o mercado.

Com sua forte importância no mercado e volatilidade, chegou a “sequestrar” o Ibovespa – praticamente ditando o desempenho do índice em alguns dias do último mês. Esteve na boca de todos os portais de notícias e até mesmo nomes importantes, como Guido Mantega e Luciano Coutinho, ministro da Fazenda e presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) falaram a respeito do que se passava na petrolífera.  

Como o aumento da passagem, a OGX também despertou paixões: grupos de minoritários tentaram instalar processos contra a empresa – tentando reaver parte de seu dinheiro perdido -, citando irregularidades que haviam sido cometidas por eles. Como as manifestações de junho, esses movimentos se espalharam de norte a sul, mas ainda não produziram resultado.

Mas teve também o acionista que manteve (e ainda mantém) a fé e acredita que haverá a possibilidade de um turnaround. Ela existe, mas com a empresa cada vez mais próxima de uma recuperação judicial e com dívidas de US$ 3,6 bilhões, tidas como impagáveis, esse cenário é cada vez mais improvável. 

Fere o mercado, fere os investidores
A OGX foi uma ferida também na própria BM&FBovespa, que viu uma das ações mais negociadas da Bovespa se tornar um problema para o mercado. Mas que sai fortalecida, já que tomou medidas para que isso não se repita – como a nova metodologia do Ibovespa, que excluíra “penny stocks” (aquelas negociadas abaixo de R$ 1) dos próximos índices.

Os investidores que entenderem como funciona a dinâmica de uma empresa pré-operacional saem também fortalecidos – e não mais irão “cair” nesse problema. Mas muitos tiveram perdas que não puderam aguentar e tiveram que abandonar a bolsa. E assim, o fenômeno OGX se torna uma lição que nunca será utilizada.

São pequenas vitórias como a decisão da prefeitura paulistana de congelar a tarifa do ônibus. Mas que teve, como consequência direta, o aumento dos impostos – principalmente no IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para garantir os subsídios às empresas de ônibus. Há a expectativa de uma reformulação no sistema de transporte público nacional, que pode vir a garantir uma tarifa mais baixa, mas esta ainda não saiu do papel. 

Uma crise que não se restringiu a OGX
A crise da OGX não se restringiu somente à empresa. O grupo todo foi afetado, mesmo entre as empresas cujo resultado da OGX pouco importava. A principal prejudicada foi a OSX Brasil (OSXB3), que nasceu como fornecedora de equipamentos e navios da OGX – amarrada à petrolífera – e viu suas ações despencarem de R$ 30,40 para R$ 0,48. Hoje, o próprio grupo estuda reestruturá-la para evitar que tenha o mesmo destino que a irmã.

Já a MPX Energia (MPXE3), que atualmente se chama Eneva, tinha alguns projetos em conjunto com a petrolífera, como a exploração de gás natural no Maranhão. Curiosamente, esses projetos funcionaram: hoje, as duas empresas produzem gás que abastece as usinas da Eneva.

Mas a companhia teve de ser vendida para que o EBX conseguisse pagar as suas contas – mas não antes de apresentar uma forte queda na Bovespa, que a levou dos R$ 13,96 para a região dos R$ 5,00. E hoje, é o grupo alemão E.On que dá as cartas na empresa de energia fundada por Eike, que tenta vender o restante de suas ações para conseguir honrar com seus compromissos.

Outras empresas “X”, como LLX Logística (LLXL3), MMX Mineração (MMXM3), CCX Carvão (CCXC3) também sofreram desvalorizações significativas, principalmente depois que se percebeu que a OGX enfrentava sérios problemas. Até mesmo a IdeiasNet (IDNT3), onde o investidor tinha uma participação de cerca de 14,3%, sofreu com a crise: o diretor de relações com investidores explicou ao InfoMoney que as ações sofriam com a expectativa de que Eike venderia suas ações. Eike finalmente liquidou sua posição na semana passada.

O grupo EBX está cada vez em maiores dificuldades. Na semana passada, o grupo optou sair pela suntuosa sede do edifício Serrador, no centro do Rio de Janeiro – voltando para os prédios na praia do Flamengo onde o empresário trabalhou por décadas. Mas muito menos empregados irão fazer o caminho da volta: dos 400 trabalhadores que a holding já teve, apenas 65 continuam empregados. Mais de 80% deles já foram demitidos.

Mesmo assim, Eike continua prometendo uma recuperação pessoal. Cheio de superstição, Eike cita seu mapa astral, que passou meses sinalizando tempos ruins, mas que hoje mostra uma “boa fase”. Agora é esperar para ver. 

Felipe Moreno

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