O que a Dilma e outros líderes políticos podem aprender com o Papa?

Enquanto o Vaticano inicia uma profunda reforma na instituição financeira, o Brasil ainda patina na adoção de mudanças cruciais para o País

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SÃO PAULO – Se a economia, assim como o que está evidenciado pelo seu nome, é a arte de “gerir a casa”, como a origem do seu nome diz, o governo do nosso País ainda parece ter muito que aprender. E quem pode dar importantes lições não é nenhum grande especialista em ciências econômicas, não fez parte de nenhum governo e nem foi laureado com prêmio Nobel nos últimos anos.

Na verdade, ele tem formação de químico, mas que ficou mais conhecido por ter um grande cargo na Igreja. Seu nome de batismo? Jorge Bertoglio, mas é mais conhecido por ser o Papa Francisco.

Enquanto o Brasil sofre em meio às ameaças de um rebaixamento de rating devido à deterioração fiscal e um cenário de forte expansão de gastos, o Vaticano segue na direção oposta. Em meados do mês passado, foi divulgado que, em um ato para iniciar uma verdadeira reforma no Banco do Vaticano, o papa Francisco renovou completamente a cúpula da instituição, que vem sendo alvo de uma série de escândalos financeiros, inclusive suspeitas de lavagem de dinheiro de crime organizado.

E o papa já avisou: caso não consiga realizar uma reforma profunda na instituição, vai fechar o Banco do Vaticano. A reforma não abrange apenas o banco, mas também a redução do poder da Cúria – famílias e religiosos que são funcionários de luxo da Santa Sé e oneram fortemente a Igreja, assim como minam a sua credibilidade. 

O que Jorge Bertoglio fez para tornar a administração mais enxuta? Contratou consultorias para limpar a administração e reduziu o número de funcionários, assim como trabalha para que a instituição foque no financiamento de obras religiosas, reduzindo assim o número de correntistas. Até o Itamaraty reduziu a sua conta no Banco do Vaticano, transferindo as movimentações para o Banco do Brasil. 

Mas o que o Brasil pode aprender com a experiência do Vaticano? Por motivos bastante claros, é difícil comparar as duas questões e como resolvê-las. Enquanto o Papa Francisco tem um poder de comando dentro da Igreja quase absolutista e possui uma enorme aprovação pública, o governo brasileiro tem que enfrentar o Congresso, o Senado e até mesmo os aliados para aprovar os seus projetos, além de lidar com o mau humor dos investidores e com a volatilidade dos mercados que, ao sabor da maré, mostram-se mais inclinados a injetar capital em um ou em outro país. 

Contudo, isso não quer dizer que os ensinamentos do atual Papa não possam ser aplicados no Brasil, que se depara com o aumento dos gastos públicos, expansão tributária, sem que haja uma contrapartida de que a forte oneração leve a uma melhora nos serviços públicos. O Estado gasta muito e gasta mal, o que ficou bastante claro com os protestos do último mês de junho de 2013, que evidenciaram o descontentamento do brasileiro com a forma de gestão da máquina pública. 

A carga tributária brasileira representou, em 2013, cerca de 36% do PIB (Produto Interno Bruto), a maior dentre os BRICs (grupo formado por Brasil, Índia, Rússia e China) e comparável ao de países desenvolvidos. E com o pior retorno à população. Assim, de alguma forma, era de se esperar que o anúncio de um aumento na tarifa de ônibus em R$ 0,20 poderia levar a um clamor popular.

Após a eclosão dos protestos, o governo até chegou a fazer um pacto fiscal. Porém, parecia ser tarde demais. Ainda minado em sua credibilidade por ter feito a chamada “contabilidade criativa” para atingir as suas metas fiscais, o governo assumiu os seus erros e ressaltou que não faria mais “mágica” para conseguir o superávit primário. Contudo, há ainda alguns reveses pelo caminho. Conforme apurou a ONG Contas Abertas, o governo duplicou restos a pagar; a meta só foi cumprida graças ao adiamento de R$ 51 bilhões em despesas.

Soma-se a isso as falas do ministro Guido Mantega e de Dilma que, mesmo em um cenário de forte deterioração da economia brasileira, mostraram-se otimistas, o que acabaria resultando numa percepção ainda pior dos investidores acerca da situação econômica do País. Há aqueles que defendem que só a indicação pela presidente da República para a contenção de gastos já seria suficiente para “acalmar os nervos” do mercado, termo este usado por Mantega para justificar a divulgação antecipada do resultado fiscal.

Dilma já deu sinalizações de que faria isso. Contudo, enquanto aponta para uma possível trajetória de maior austeridade fiscal, a concessão de benefícios a alguns setores da economia levando a uma renúncia fiscal, enquanto outros são sobrecarregados, reforçam o cenário de que a austeridade ainda não veio. Com a proximidade das eleições, a hipótese de maior contenção de gastos cai por terra mais ainda.

E não somente o governo federal, como também as outras esferas, mostraram pouco comprometimento com as contas públicas. Prova disso é a implosão política maranhense: enquanto a guerra nos presídios tomava conta do segundo estado mais pobre do Brasil, a governadora do estado, Roseana Sarney, fazia licitação de lagosta e outros frutos do mar prevendo um gasto de R$ 1 milhão – logo depois adiado -, o que representa claramente uma inversão nas prioridades do que deveria ser um governo, que tem como objetivo primário “ajeitar a casa”, e não usar os recursos ilimitados enquanto boa parte da população é privada de seus direitos mais básicos.

Gastar sim, mas de forma consciente e eficiente, delimitando os papéis das instituições e não sobrepor uma função a outra. Lutar contra a corrupção e desvio das verbas públicas. E um destes passos está sendo feito, com a prisão de vários políticos acusados do mensalão: o último deles foi Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, na semana passada.  Enfim, a missão é arrumar a casa. O exemplo está aí e não é novo. Cabe a nós seguir seu exemplo e replicá-lo. 

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.

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