O PIB encolheu no terceiro trimestre? Provavelmente sim

Produção industrial pior do que a esperada reforça a expectativa que a economia tenha voltado a encolher

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(SÃO PAULO) – Hoje saíram os dados da produção industrial brasileira em setembro. Apesar do crescimento de 0,7% sobre agosto, o resultado ficou muito aquém das expectativas. Uma pesquisa do Valor com 20 consultorias e instituições financeiras apontava para um crescimento esperado de 1,3%. O Itaú, um dos mais otimistas, acreditava em uma alta de 1,6%, que, se tivesse sido confirmada, teria levado a um resultado negativo de 0,9% no terceiro trimestre – devido ao desempenho negativo da indústria nos dois meses anteriores.

O banco já havia alertado em relatório que esperava uma “leve queda” do PIB no terceiro trimestre. O desempenho da produção industrial só intensificou essa aposta – e pode até mesmo fazer com que a retração econômica não seja tão leve assim. É provável que o governo diga que o resultado é apenas um pequeno escorregão, mas o mercado não confia tanto assim em uma rápida reversão. Em recente entrevista ao InfoMoney, o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio da Mauá Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo, já havia alertado para uma possibilidade de 70% de que o Brasil entre em recessão.

Que a economia anda a passos lentos e que são necessárias reformas para aumentar a produtividade do Brasil em relação a outros países, já não é mais novidade para ninguém. Mas o que pode aumentar a esperança sobre o futuro? O governo, até o momento, parece paralisado. Nesta semana, até surgiu uma proposta para conceder mandatos fixos à diretoria do Banco Central – o que poderia garantir juros menores no futuro. Mas a ideia, que contaria com a simpatia do ex-presidente Lula e do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi rapidamente descartada por porta-vozes do Palácio do Planalto.

Os leilões de infraestrutura começam a sair em ritmo lento, mas só devem dar algum alento logístico às empresas daqui a três ou quatro anos. Após caírem exageradamente nos anos anteriores, os juros devem voltar agora para um patamar superior a 10%. A inflação mostra-se persistentemente elevada – apesar dos esforços do governo em barrar aumentos dos preços administrados. As contas públicas continuam em rápida deterioração. A arrecadação parou de crescer e os gastos com custeio, de menor qualidade, se mantêm em elevação. A perspectiva de perda de “rating” do Brasil em 2014 cresce a passos largos. Sem confiança e visibilidade sobre o futuro, os empresários adiam investimentos.

Como se não bastasse o cenário interno complicado, os mercados mundiais vivem ainda sob a ameaça de retirada dos estímulos nos Estados Unidos – que podem colocar pressão sobre o dólar e, consequentemente, sobre a inflação. Todo mundo sabe que um dia o Federal Reserve terá de reverter a política monetária frouxa – e o consenso é que, de 2014, isso não passa. Também parece claro para todo mundo que, nesse ambiente, a economia brasileira não vai sair da pasmaceira. Só o governo ainda não se mostrou convencido. Quem sabe a proximidade das eleições não dá uma chacoalhada na equipe econômica?

João Sandrini

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