Mudança no jogo: Petrobras quer ajuste automático de preços; governo vai ceder?

Na apresentação do balanço do 3º tri, Graça não deixou esconder que a situação da estatal não está nada confortável: defasagem "tem impactado o fluxo de caixa e alavancagem"

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SÃO PAULO – A defasagem entre os preços de combustíveis no mercado internacional e os praticados no interno foi uma das grandes pedras no sapato da Petrobras (PETR3; PETR4) no terceiro trimestre, que viu seu lucro minguar 39%, para R$ 3,39 bilhões. Uma mudança nas regras do jogo, entretanto, parece estar próxima. Embora não tenha vindo o tão aguardado reajuste nos preços dos combustíveis, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, anunciou que uma nova metodologia de reajuste foi apresentada ao conselho de administração – leia-se governo -, que deve votar até o fim de novembro na proposta. 

Um grande passo (que pode ajudar a recuperar a confiança dos investidores na estatal), mas que também deixa grandes dúvidas. Isso porque, na prática, a bola agora está com o governo, mais precisamente Guido Mantega, ministro da Fazenda e que preside o conselho de administração da Petrobras. A tarefa é difícil, pois de um lado luta-se para conseguir uma folga na inflação, enquanto de outro pede-se por aumento nos preços dos combustíveis. Atualmente, a defasagem da gasolina é de 6,5% e a do diesel, de 19%, sem contar os custos de transporte.

O ponto crucial é avaliar como será feita essa metodologia. Sem dar detalhes, Graça disse apenas que a nova metodologia para dar maior previsibilidade do alinhamento dos preços domésticos do diesel e gasolina aos internacionais foi apresentada ao conselho, que, por sua vez, pediu a elaboração de simulações adicionais e estabeleceu prazo de 22 de novembro para votação. Numa expressão popular: “isso vai dar pano pra manga”.

Na apresentação do balanço do terceiro trimestre, Graça não deixou esconder que a situação da estatal não está nada confortável: “tem impactado o fluxo de caixa e alavancagem”. Isso porque além do lucro fraco, os investidores que tiveram paciência de digerir o balanço da petroleira ao longo do fim de semana notaram que, no quesito dívida líquida, a companhia informou montante de R$ 193 bilhões, mais do que o triplo da geração operacional de caixa anualizada, medida pelo Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Embora não seja o único critério utilizado pelas agências de classificação de rating, um indicador dívida líquida/Ebitda acima de três vezes pode colocar em risco a nota de grau de investimento da Petrobras. 

“Defasagem” carimbou discurso de Graça
O cuidado da presidente da Petrobras em justificar movimentos negativos no balanço, em sua carta de apresentação, não deve ter sido em vão.

Antes de anunciar a nova metodologia, soma-se três vezes o uso da palavra “defasagem” como um dos principais entraves da empresa no período: 1) “consumo recorde de diesel no Brasil, superando 1 milhão de barris por dia, levou ao aumento das importações, em período de forte depreciação do real e de aumento do preço do petróleo, ampliando a defasagem dos preços domésticos em relação à paridade internacional”; 2) “Lucro operacional totalizou R$ 5,5 bilhões, uma redução de 51% em relação ao segundo trimestre do ano. Além do impacto da defasagem de preços em momento de forte demanda, também tivemos maiores despesas com poços secos/subcomerciais e menor valor de receitas extraordinárias com venda de ativos”; 3) “Ainda que tenhamos tido 4 reajustes de preços do diesel e 2 de gasolina nos últimos 16 meses, totalizando 21,9% e 14,9% de aumento, respectivamente, a forte depreciação do real verificada desde maio de 2013, chegando a 22% de desvalorização fez com que a defasagem voltasse a crescer nos últimos meses. Depois disso, ficou claro qual será a questão crucial a partir de agora. 

Paula Barra

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