Dilma Rousseff realmente estava falando do Brasil em seu discurso na TV?

Em seu discurso de final de ano, Dilma não falou sobre os problemas econômicos que vivemos atualmente: ressaltou que a economia brasileira vem em bom ritmo

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

SÃO PAULO – Neste domingo (30), Dilma Rousseff se pronunciou na televisão para uma mensagem de fim de ano e falou bastante do andamento econômico do Brasil. Mas, ao ouvir o excesso de otimismo da nossa mandatária, muita gente pode ter se perguntado: “ela está falando do mesmo Brasil em que vivemos?”. 

Em seu discurso de final de ano, Dilma não falou sobre os problemas econômicos que vivemos atualmente: ressaltou que a economia brasileira vem em bom ritmo – a despeito do menor crescimento para um governante desde a época da República Velha, com três anos de crescimento pífio, que devem se estender. A presidente e seu antecessor, Lula, possuem vários êxitos, sobretudo na área social, mas falar que a economia vai bem pode beirar o cinismo atualmente.

Mas também não é que ela vai mal – o boom das commodities da década passada fez com que a economia amadurecesse exponencialmente. O último presidente não petista, Fernando Henrique Cardoso, deixou o governo com o desemprego de cerca de 10% e inflação de 12%. E se a comparação for com o começo da década de 90 então, a economia brasileira é um grande sucesso: ninguém tem saudade da hiperinflação daquele período e do altíssimo desemprego. 

Se muito foi feito pela economia desde o governo de FHC, que instituiu as diretrizes macroeconômicas seguidas por Lula, poucas coisas foram feitas de positivo no governo Dilma. Em um período de desempenho fraco das economias externas, o governo Dilma optou por fechar ainda mais o já fechado mercado brasileiro. Basta ver o setor automobilístico, que passou a ter uma “cota” de importação. É verdade que ela já identificou vários erros de percurso e vem tentando mudá-los, mas ainda não vem sendo uma boa “comandante” para a economia nacional. 

Inflação começa a preocupar…
Além disso, Dilma e sua equipe econômica resolveram em um primeiro momento desvalorizar o real e desvalorizá-lo meses depois – retirando todas as medidas que fizeram para “tornar a indústria nacional” mais competitiva. Pressionou para que o BC abaixasse os juros para os patamares mais baixos da história recente e teve que elevá-los conforme a inflação começou a incomodar. 

Aliás, se algo incomodou profundamente no governo Dilma até aqui foi a inflação (que há três está no topo da meta) e a falta de autonomia do Banco Central, que depois de mais de uma década de independência sob o jugo de Lula, passou a ser visto como “manipulado” pelo governo federal – a ponto de Dilma se vangloriar dos juros baixos como uma conquista dela, que, em teoria, deveria ser creditado ao Alexandre Tombini. Mesmo com toda controvérsia sobre o aumento de preços Dilma jura que a inflação está “sob controle”.

E, de fato, está longe da hiperinflação dos anos 80 e 90. Hiperinflações surgem quando os gastos do governo precisam ser cobertos por um dinheiro que não vem da arrecadação ou do endividamento. Um dos maiores nomes da economia na história, Milton Friedman chamou a inflação de “imposto” e por muito tempo ela tem sido tratada na literatura econômica como um dos maiores problemas para as classes mais baixas, mais vulneráveis. 

…e pode hiperpreocupar
Na hiperinflação entram outros dois pecados do governo Dilma: o caso Petrobras e setor elétrico. Primeiro, Dilma lembrou da “viabilização do Pré-Sal”. A empresa tem uma política de preços disfuncional e precisa de mais receitas para viabilizar a exploração do pré-sal de uma vez por todas – ou corre o risco de não alcançar a produção esperada de 4,5 milhões de barris diários até 2020. Atualmente a empresa produz 2,1 milhões. 

Se o governo optar por financiá-la através da emissão monetária, como fizeram os militares no passado quando a situação saiu do controle, a volta da hiperinflação é dada como certa. Perder o controle com a Petrobras é difícil – a empresa é gigante e tem uma boa margem de lucro na atividade exploratória. Mudar a política de preços “salva” a empresa em qualquer circunstância. 

Mas os danos feitos ao setor elétrico preocupam. Na MP 579, Dilma abaixou os preços da energia elétrica e fez com que os investimentos no setor recuassem gravemente. Algumas empresas desistiram de renovar suas concessões. Para pagar a “conta”, o governo Dilma criou a “conta-energia-elétrica”, que sai do bolso dos contribuintes para as empresas.

Com a energia barata na conta, o mais provável é que a demanda suba, fazendo com que os gastos do governo também tenha que se elevar – e o preço para o contribuinte também venha a crescer. Novamente, a situação é parecida com o que os militares fizeram nas décadas de 70 e 80: conta de energia barata e rentabilidade garantida. Eles perderam o controle e o resultado foi a hiperinflação. 

Situação pode desandar
Dilma, porém, usa da artimanha de culpar quem foi contra a MP 579 para jogar a população ao seu favor. Disse, em seu discurso, que “enfrenta duras críticas daqueles que não se preocupam com o bolso da população brasileira”. Nada mais longe da verdade, senhora Presidente: apenas há o risco de que a situação desande como antigamente. 

Pouco antes, ela havia citado o equilíbrio fiscal. É verdade que o Brasil está longe da situação crítica que alcançou no final dos anos 80, mas a “contabilidade criativa” do governo Dilma tem camuflado uma piora significativa desses números – trazendo grandes preocupações. Para fazer o superávit primário atingir a meta, o Tesouro optou por antecipar os dividendos das estatais. Em um período em que muitas delas, como a própria Petrobras, estão revisando suas políticas de dividendos por efeitos passados. 

Há qualidades
Se o discurso de Dilma não foi muito condizente com a condição econômica, ao menos mostra que o social do País está sendo bem servido pelo atual governo. Há motivos de discórdia em relação ao Mais Médicos, por exemplo, pelo fato de que – indiretamente – o programa tem patrocinado a ditadura cubana.

Mas não se critica o fato de que o governo tem levado médicos para lugares extremamente carentes – até José Serra, adversário de Dilma em 2010, veio elogiar a iniciativa. Mesmo em condições precárias, a existência de um profissional de saúde ajuda (e muito) essas populações.

Ela também lembra da mais importante conquista do Brasil nos últimos anos, a melhora no padrão de vida de milhões de pessoas. Para Dilma, isso deve se tornar a bússola para os brasileiros neste novo Brasil. E se o governo ajudou muitos a deixarem a pobreza extrema através dos programas de transferência de renda, o crescimento econômico jogou milhões de brasileiros na classe média. Crescimento hoje estagnado.

É válido destacar também que os recursos do Pré-Sal deverão ser investidos nas obrigações básicas de um governo – educação e saúde. Isso impede com que o Brasil venha a torrar bilhões de dólares de suas riquezas naturais em questões que não são essenciais para o Estado. Seria muito pior se esse dinheiro estivesse sendo destinado para o financiamento de “campeões nacionais”, como o BNDES tem feito nos últimos anos – através do crédito subsidiado. Política esta que praticamente eliminou o lucro do banco nos últimos anos e obrigou a sucessivos aportes por parte do tesouro – novamente uma política que pode descontrole daqui a algum tempo.

Por último, um apelo
É válido destacar também que Dilma fez um apelo: deixem o pessimismo de lado em um ano eleitoral para não travar os investimentos. Talvez esse pedido de Dilma tenha os adversários Aécio Neves e Eduardo Campos em mente, já que devem aumentar a retórica oposicionista para ganhar espaço nas eleições. 

Esse pedido não é possível: é dever da oposição mostrar o que está de errado, como o próprio PT fez durante os anos em que não era governo. Que as eleições de 2014 tragam bom senso para o Brasil e que, seja qual for o vencedor – Dilma, Aécio ou Campos -, assuma um País mais maduro e mais rico e consiga trazer o desenvolvimento necessário. 

Veja na íntegra o discurso de Dilma: 

Minhas amigas e meus amigos,

Graças ao esforço de todas as brasileiras e de todos os brasileiros, o Brasil termina o ano melhor do que começou. Temos motivos também para esperar um 2014 ainda melhor do que foi 2013.

As dificuldades que enfrentamos, aqui dentro e lá fora, não foram capazes de interromper o ciclo positivo que vivemos e que tem garantido que a vida dos brasileiros melhore gradativamente a cada ano. Nos últimos anos somos um dos raros países do mundo em que o nível de vida da população não recuou ou se espatifou em meio a alguma grave crise. Chegamos até aqui melhorando de vida, pouco a pouco, mas sempre de maneira firme e segura. Construindo a base para que a expressão “melhorar de vida” deixe de ser, em um futuro próximo, um sonho parcialmente realizado, torne-se a realidade plena e inegável da vida de cada brasileiro e de cada brasileira.

É para isso que você pega duro no batente todos os dias. É para que o seu esforço traga resultados ainda mais rápidos que cobro todos os minutos um bom desempenho do meu governo. Não existe nada mais importante para mim do que ver as famílias brasileiras melhorando de vida, mais felizes, mais tranquilas e mais satisfeitas com o fruto do seu trabalho. Por isso, sinto alegria de poder tranquilizar vocês dizendo-lhes que entrem em 2014 com a certeza que o seu padrão de vida vai ser ainda melhor do que você tem hoje. Sem risco de desemprego, podendo pagar suas prestações, em condições de abrir sua empresa ou ampliar o seu próprio negócio. Entrem em 2014 com toda energia e otimismo e com a certeza de que a vida vai continuar melhorando. Reflitam sobre o que aconteceu de positivo nos últimos anos na vida do Brasil, na sua vida e na vida de sua família e projetem isso de forma ampliada para os próximos anos.

Você, jovem, sabe o quanto o seu padrão de vida melhorou comparado ao que você tinha na infância e ao que seus pais tinham na sua idade. Usem essa fotografia do presente e do passado recente como pano de fundo para projetar o futuro. Esta é a melhor bússola para navegar neste novo Brasil.

Minhas amigas e meus amigos,

Neste ano de 2013 continuamos nossa luta vigorosa em defesa do emprego e da valorização do salário do trabalhador. Uma luta plenamente vitoriosa, pois alcançamos o menor índice de desemprego da história. Estamos com uma das menores taxas de desemprego do mundo, continuamos nossa luta constante contra a carestia. Nela, tivemos alguns problemas localizados, mas chegamos a um ponto de equilíbrio que garante a tranquilidade do planejamento das famílias e das empresas.

Nisso o governo teve uma ação firme, atuou nos gastos e garantiu o equilíbrio fiscal, atuou na redução de impostos e na diminuição da conta de luz. Nesses últimos casos enfrentando duras críticas daqueles que não se preocupam com o bolso da população brasileira.

Neste ano o Brasil apoiou como nunca o empreendedor individual, o pequeno e o médio empresários, diminuindo impostos, reduzindo a burocracia e facilitando o crédito. Continuamos nossa luta incansável pela construção de um grande futuro para o Brasil, viabilizando a exploração do pré-sal e garantindo a destinação de seus fabulosos recursos para a educação e a saúde. Ampliamos nossa luta pela melhoria de infraestrutura iniciando a mais ampla, justa e moderna parceria de todos os tempos com o setor privado para a construção e ampliação de estradas, portos e aeroportos. Aumentamos o apoio à produção agropecuária em todos os seus formatos e escalas produtivas. Continuamos a difícil luta pela melhoria da saúde e da educação, setores onde ainda temos muito a fazer, mas onde estamos conseguindo avanços.

No caso da saúde, o Mais Médicos foi um dos destaques. Hoje já temos 6.658 novos médicos em 2.177 cidades beneficiando cerca de 23 milhões de pessoas. Em março, serão 13 mil médicos e mais de 45 milhões de brasileiros e brasileiras beneficiados.

Como toda mãe de família, sei que o patrimônio mais valioso na vida dos nossos filhos é a educação. Por isso, estamos fazendo um esforço redobrado nesta área. Além de garantirmos mais vagas e mais qualidade em todos os níveis de ensino, aumentamos o número de creches e escolas de tempo integral, de universidades e escolas técnicas, e consolidamos programas decisivos para a formação profissional e o emprego, como o Pronatec e o Ciência sem Fronteiras. O Pronatec já beneficiou mais de 5 milhões de jovens e adultos com cursos técnicos e de qualificação profissional. Enquanto o Ciência sem Fronteiras ofereceu 60 mil bolsas a estudantes brasileiros em algumas das melhores universidades do mundo.

Continuamos nosso esforço gigantesco para oferecer moradia para os pobres e para a classe média. E o Minha Casa, Minha Vida transformou-se no mais exitoso programa desse gênero no mundo.

Reforçamos o programa Brasil sem Miséria e estamos a um passo de acabar com a pobreza absoluta em todo o território nacional. Ampliamos nosso diálogo com todos os setores da sociedade e escutamos seus reclamos, implantando pactos para acelerar o cumprimento de nossos compromissos. Defendemos uma reforma política que amplie os canais de participação popular e dá maior legitimidade à representação política.

Não abrimos mão, em nenhum momento, de apoiar o combate à corrupção em todos os níveis. Exatamente por isso, nunca no Brasil se investigou e se puniu tanto o malfeito. O Brasil também tem buscado apoiar fortemente suas populações tradicionais, em especial os grupos indígenas e os quilombolas. E eu tenho um imenso orgulho do programa Viver sem Limites, que leva oportunidades e cidadania para as pessoas com deficiência.

Em suma, não deixamos em nenhum momento de lutar em favor de todos os brasileiros em especial dos que mais precisam. Com o olhar muito especial para os jovens, para as mulheres e para os negros. Mas sabemos que há muito, muito mesmo, ainda por fazer e muito, muito mesmo, por melhorar.

Minhas amigas e meus amigos,

O Brasil melhorou, a nossa vida melhorou, mas o melhor é que temos tudo para melhorar ainda mais. O Brasil será do tamanho que quisermos, do tamanho que o imaginemos. Se imaginarmos um país justo e grande e lutarmos por isso, assim o teremos. Se mergulharmos em pessimismo e ficarmos presos a disputas e interesses mesquinhos, teremos um país menor.

O mesmo raciocínio se aplica à nossa economia. Assim como não existe um sistema econômico perfeito, dificilmente vai existir em qualquer época um país com economia perfeita. A economia é um conjunto de vasos comunicantes em busca permanente de equilíbrio. Em toda economia sempre haverá algo por fazer, algo a retocar, algo a corrigir para conciliar o justo interesse da população e das classes trabalhadoras e os interesses dos setores produtivos. Por isso, temos que agir sempre de forma produtiva e positiva tentando buscar soluções e não ampliar os problemas. Se alguns setores, seja porque motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas.

Digo aos trabalhadores e empresários que continuo disposta a ouvi-los em tudo que for importante para o Brasil. Digo aos trabalhadores e aos empresários que apostar no Brasil é o caminho mais rápido para todos saírem ganhando. O governo está atento e firme em seu compromisso de lutar contra a inflação e de manter o equilíbrio das contas públicas. Sabemos o que é preciso para isso e nada nos fará sair desse rumo, como também nada fará mudar nosso rumo na luta em favor de mais distribuição de renda, diminuição da desigualdade pelo fim da miséria e em defesa das minorias. Não perderemos jamais nossa disposição de lutar para que o povo brasileiro tenha uma saúde e educação de mais qualidade hoje e no futuro. Por isso, no orçamento do próximo ano os setores que tiveram mais aumento foram justamente a saúde, a educação e o combate à pobreza.

No médio e longo prazo fizemos do pré-sal nosso passaporte para o futuro destinando seus recursos majoritariamente para a educação. Minhas amigas e meus amigos, O Brasil tem passado, tem presente e tem muito futuro. Existem poucos lugares no mundo onde o povo tenha melhores condições de crescer, melhorar de vida e ser mais feliz. É isso que sinto Brasil afora, é isso que sinto coração adentro.Um ano novo cheio de felicidade e prosperidade para vocês e de muito progresso e justiça social para o Brasil.

Obrigada e boa noite.

Felipe Moreno

Leia também