De “pomba” à “falcão” do mercado: a metamorfose do presidente do BC, Alexandre Tombini

Se no primeiro mandato de Dilma ele guiou a queda da taxa básica de juros para o menor patamar da história, agora, ele guia um ritmo de forte alta de juros para o combate da inflação

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SÃO PAULO – Basta acessar o site do Banco Central e entrar no histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom, a Selic. Quem olha para os números de 2011 a 2015, não deve acreditar que políticas tão diferentes foram comandadas por uma mesma pessoa.

Entre agosto de 2011 e abril de 2013, foi comandado um ciclo de queda na taxa básica de juros de forma a estimular a economia, fazendo com que a Selic caísse de 12,5% ao ano para 7,25% ao ano. Este patamar foi o menor da história e fora alcançado em novembro de 2012, sendo mantido nas três outras reuniões.

“Considerando o balanço de riscos para a inflação, a recuperação da atividade doméstica e a complexidade que envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta, ainda que de forma não linear”, informou o comunicado do BC no dia daquela decisão histórica.

Comemorada por alguns, criticada por muitos. Este foi o efeito da decisão do BC, que sinalizou uma autoridade monetária “dovish”, ou suave, em referência ao voar de uma pomba, indicando que o BC estaria mais preocupado com a atividade do que com a inflação.

Além disso, diversos economistas destacaram que o fato do Banco Central reduzir a taxa de juros indicava uma certa subserviência da autoridade monetária ao governo de Dilma Rousseff. Na época, a presidente foi às redes nacionais de televisão e rádio comemorar a queda da taxa básica de juros e conclamar os bancos privados a reduzirem as taxas de juros para acompanharem a queda na taxa Selic. Em 2012, também foram anunciadas medidas para reduzir a conta de luz, marcado pelo dia 11 de setembro do setor elétrico. A presidente anunciou um corte de 16,2% no preço de energia residencial e de 28% para o setor produtivo, de modo a reduzir o chamado custo-Brasil, através da Medida Provisória 579. Somou-se a isso a expansão fiscal que caracterizou o período.

O resto da história muitos de nós sabemos: a energia voltou a subir, a inflação registrou ganhos e o modelo conhecido como nova matriz econômica, caracterizado pela expansão fiscal, expansão do crédito público a juros subsidiados e intervenções do Banco Central no mercado cambial mostrou os seus resultados.

Dentre um dos efeitos, a inflação, que não atinge o centro da meta de 4,5% ao ano desde 2009, depois de desacelerar de 2011 (+6,50%) para 2012 (+5,83%) só aumentou (alta de 5,91% em 2013 e 6,40% no ano passado). Com a alta dos preços administrados neste ano depois do congelamento nos anos anteriores, entre outros motivos, a expectativa é de que esse ano a inflação chegue aos 9%, sendo que algumas casas já preveem uma alta ainda maior – o Credit Suisse, por exemplo, acha que o IPCA fechará 2015 a 9,4% ao ano.

Pois bem. Depois de atingir o patamar mínimo de 7,25%, os juros voltaram a subir, mas ainda a passos mais tímidos, passando de 7,5% em abril de 2013 para 11% em maio de 2014, mantendo-se neste patamar até 29 de outubro de 2014 – curiosamente, na reunião após o segundo turno das eleições presidenciais, em que Dilma Rousseff se sagrou vitoriosa com uma margem estreita sobre o segundo colocado, Aécio Neves (PSDB). No ano da eleição, a Selic subiu apenas 1,25 ponto percentual mesmo com os sinais de inflação em alta. Porém, logo depois das eleições, a alta da taxa básica de juros ganhou passos mais largos. Desde a última reunião de 2014, em dezembro, até a reunião do início de junho, a Selic passou de 11,25% ao ano para 13,75%, no maior patamar desde 2008.

E as expectativas são de que a Selic vá subir ainda mais este ano, com expectativa de que chegue a 14,75% e, dependendo de como for a trajetória da inflação, passar até dos 15% ao ano em 2015.

Se observarmos quem estava no comando do Banco Central nestes dois momentos, vamos encontrar a mesma resposta: Alexandre Tombini. Aliás, se antes ele era considerado “dovish” demais, agora ele está sendo considerado muito “hawkish” (ou duro, em referência a um falcão), em linha com a mudança de linha do segundo governo da presidente Dilma Rousseff, que mudou a sua estratégia de política econômica. Contudo, preservou Tombini no comando do BC, só que “repaginado”, enquanto mudou radicalmente o titular do ministério da Fazenda, substituindo o expansionista Guido Mantega, pelo “mãos de tesoura” Joaquim Levy, com PhD na Universidade de Chicago.

E se antes muitos duvidavam da “vigilância” de Tombini – termo muito utilizado por ele ao falar da inflação – agora parece que ele realmente está “vigilante”. Mas não sem críticas de setores do governo, da economia e até do próprio PT.

Grupos do PT, conforme informou o Valor Econômico da semana passada, entendem que Tombini adotou uma estratégia demasiadamente dura de elevação de juros, o que poderia provocar a maior destruição de empregos da história recente do Brasil.

Inclusive, afirmam, até mesmo economistas ortodoxos de bancos de investimento questionam a atuação recente do Banco Central. E, realmente, esta discussão está no radar dos mercados: muito se avalia se a alta dos juros pode deprimir ainda mais a economia.

Além disso, muito se contesta também sobre o impacto da alta da Selic para além da atividade, mas também sobre as contas públicas. Quando houve o último aumento de 0,5 ponto percentual na Selic, a dívida interna foi elevada em R$ 11 bilhões, o que pode levar ao aumento da dívida pública e enfraquecer as premissas para que o Brasil continue com grau de investimento.

Desta forma, a avaliação é de que Tombini deveria ter adotado uma estratégia de mais longo prazo para fazer a inflação convergir para o centro da meta a um custo menor para o emprego e para a atividade econômica.

Tombini, assim como a presidente Dilma Rousseff, passou por uma metamorfose entre 2014 e 2015. Mas não sem efeitos colaterais e contestações por todos os lados.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.

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