Balanço do Itaú é um espelho do momento (difícil) do Brasil

Banco reduziu riscos no crédito, elevou receitas em outras áreas, enxugou despesas e passou a olhar mais para os lados - e essa parece ser a receita para quem quer continuar crescendo

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(SÃO PAULO) – Ontem almocei com Nicolas Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento). Ele me explicou que, no atual momento, empresas e instituições financeiras estão em uma espécie de compasso de espera, aguardando uma definição mais clara dos rumos da política econômica. O Brasil perdeu competitividade e previsibilidade nos últimos anos, o que levou banqueiros e empresários a se tornarem mais avessos ao risco – seja na concessão de crédito ou na realização de novos investimentos ou aquisições. Em busca de mais lucro, diz ele, as empresas estão “olhando para dentro” – ou seja, reduzindo custos, melhorando processos, buscando sinergias, etc. Tingas acredita que o setor privado deve manter essa postura mais cautelosa até enxergar sinais mais claros de que a economia voltará ao rumo certo, uma vez que apenas medidas de distribuição de renda ou de incentivo à demanda só serão suficientes para o Brasil continuar a crescer entre 1,5% e 3% ao ano. Quem leu o balanço divulgado hoje pelo Itaú encontrou um lucro de R$ 4 bilhões e uma rentabilidade sobre o patrimônio de mais de 20%, que surpreenderam positivamente o mercado. Mas também achou no documento um pouquinho de cada um desses pontos:

1 – É melhor ganhar pouco do que perder muito – A carteira de crédito do Itaú continua a crescer, mas esse aumento é puxado por linhas de financiamento menos arriscadas. No segmento de pessoas físicas, a carteira cresceu 64% no crédito consignado e 35% no crédito imobiliário nos últimos 12 meses. É importante notar que essas duas linhas têm excelentes garantias: o banco recebe diretamente parte do salário do tomador do crédito ou então pode retomar a casa financiada em caso de inadimplência. Já nos financiamentos a veículos, em que a garantia não é tão boa porque o bem se deprecia em que a inadimplência anda mais alta, o Itaú pisou no freio. A mesma coisa pode ser vista na carteira do banco para pessoas jurídicas: alta nas concessões de empréstimos para grandes empresas (menos risco) e redução para pequenas e médias (mais risco). É importante lembrar que todas essas linhas de crédito menos arriscadas têm spreads menores. Logo, o banco está deliberadamente optando por ganhar menos para não correr o risco de perder muito. E não adianta os bancos públicos apertarem o passo e crescerem nos segmentos mais arriscados: os concorrentes privados não irão atrás.

2 – Expandir sem gastar mais – O Itaú apresentou um saldo de apenas 24 agências abertas nos últimos 12 meses. Mesmo com esse pequeno aumento, foram enxugados quase 3.000 postos de trabalho no mesmo período A ordem parece clara: é hora de ganhar eficiência e crescer sem gastar mais.

3 – Tirar o possível dos maus pagadores – Assim como outros bancos, o Itaú também está indo atrás de quem não paga empréstimos. As perdas com provisões caíram de R$ 6,1 bilhões para R$ 4,5 bilhões. No fundo, o que banco fez foi investir em ações para aumentar a recuperação de créditos de difícil recebimento. Mal comparando, é como aquela pessoa que corta a embalagem da pasta de dente em dois pedaços para tirar todo o possível do que está ali dentro.

4 – Ganhar em outras áreas para compensar o momento difícil do crédito – As tarifas bancárias e de prestações de serviços cresceram de R$ 4,3 bilhões no terceiro trimestre do ano passado para R$ 5,6 bilhões agora. Outras receitas que aumentaram muito foram as de administração de fundos, cartões de crédito e serviços de conta corrente. Entenderam que nessas atividades o banco não corre os mesmos riscos que no crédito? É disso que se trata.

5 – Rever as despesas e cortar o desnecessário – Uma medida emblemática dessa política anunciada pelo Itaú neste ano foi reduzir a relação de troca de dólares gastos no cartão por milhas. O banco percebeu que, na média, os clientes de seus cartões deixavam expirar pouco mais de 20% das milhas sem convertê-las em passagens aéreas. Inclusive quem olha o balanço da Multiplus percebe que boa parte do lucro da empresa vem exatamente desses pontos que os clientes dos cartões deixaram expirar. E o que o Itaú fez então? Decidiu internalizar esses lucros. O banco piorou a relação de troca de pontos por prêmios: antes um ponto valia uma milha agora 1,25 ponto vale uma milha. É lógico que a relação é menos vantajosa para o consumidor. Mas parte do dinheiro que antes ia para a Multiplus agora fica no caixa do Itaú.

6 – Olhar para os lados – Essa é uma informação que não está no balanço do Itaú e não passa de um boato que circula pelo mercado. Os investidores sabem que o Itaú tem muito mais capital do que precisa: seu índice de Basileia é de 17% enquanto o BC exige apenas 11%. Isso significa que os sócios não precisariam ter tanto dinheiro próprio no capital do banco. A pergunta que gera muitas especulações no mercado é: o que os sócios do Itaú podem fazer com esse dinheiro? Um rumor que já foi ouvido algumas vezes é que os Setubal poderiam comprar a Tigre por meio da Elekeiroz, uma empresa química controlada pela Itaúsa, a holding de participações da família. O negócio, no entanto, teria esbarrado no preço: os controladores da empresa de tubos e conexões querem R$ 5 bilhões enquanto a Itaúsa estaria disposta a pagar R$ 4 bilhões. Se há algo de verdade nesse boato, o tempo dirá. Mas é interessante notar que mesmo uma empresa com resultados excelentes como a Duratex sempre figurou como um negócio secundário para a família Setubal. Com o cenário de maior concorrência no crédito, entretanto, os banqueiros podem estar começando a olhar melhor para os lados.

João Sandrini

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