Argentinos cantaram como nunca no Maracanã (mas não há motivo para chorar por eles)

Quem assistiu a final da Copa no estádio viu uma goleada de 7 a 1 da Alemanha sobre a Argentina em matéria de cordialidade e educação nas arquibancadas

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

(SÃO PAULO) – Assisti a final da Copa no Maracanã e não consigo pensar em um só motivo para chorarmos pelos argentinos. Não que não tenhamos muito a aprender com a torcida de nossos coirmãos. Em matéria de guerra psicológica à beira do gramado, eles são imbatíveis: vaiam o adversário o tempo todo e apoiam o próprio time até o fim mesmo quando o placar é desfavorável. O vídeo a seguir dá uma pequena ideia do fanatismo platino (imagens de um cinegrafista muito amador):

Cabe aqui a ressalva de que estou longe de ser um argentinófobo. Em 2002, tive a oportunidade de morar em Buenos Aires, onde me tornei um fã do futebol e das torcidas portenhas. Como queria ter experiências diferentes das já vividas por milhares de turistas brasileiros, comecei a frequentar a “cancha” do Independiente de Avellaneda, um time com um presente não tão glorioso quanto o passado, representante de uma das regiões mais decadentes da Grande Buenos Aires – aos interessados na história da cidade, recomendo o filme “Luna de Avellaneda”, dirigido e protagonizado pelos onipresentes Juan José Campanella e Ricardo Darín, respectivamente.

Nos primeiros jogos, não fazia questão de expor minha nacionalidade. Mas depois da primeira vez que apareci com a camiseta azul da seleção brasileira – à época ainda com quatro estrelas no peito – esse se tornou meu uniforme em Avellaneda. Por mais inacreditável que possa parecer, fui adotado pelos barra bravas. Ficava sempre junto aos “hinchas” mais fanáticos, de pé, atrás do gol, colado ao alambrado que separava a torcida do campo. Em muitos jogos, era provavelmente o único brasileiro naquele estádio caindo aos pedaços. Aparecia mesmo nas noites de sábado com temperaturas negativas. Esquentava o corpo com vinho de caixinha e comia “choripán”, assim como a maioria deles. Ajudava a soltar os fogos de artifício quando o time entrava em campo e pulava embaixo do bandeirão quando hasteado. Após alguns meses, ninguém mais me estranhava ali – alguns até pediam para tirar foto com “El Brasileiro”. A identificação e o respeito foram tão grandes que, no retorno ao Brasil, trouxe na mala não apenas uma camiseta do “Rojo” de Avellaneda como também uma da seleção argentina.

A sensação de que temos um preconceito exagerado com os argentinos, porém, caiu por terra ontem no Maracanã assim como a esperança deles no Messias. Em ampla maioria na arquibancada amarela do estádio, nossos hermanos deram um show de “verguenza ajena”. Presenciei várias brigas. Os que torciam pela Alemanha eram ameaçados. Muita gente ao meu lado foi atingida por copos de cerveja no gol bem anulado de Higuaín. Uma torcedora brasileira de mais de 40 anos germanamente paramentada foi atacada por um grupo de argentinos e só não teve roubada a bandeira alemã que cobria suas costas porque um segurança com um cassetete de um metro de comprimento resolveu agir. Para mostrar que estavam se sentindo em casa, argentinos tentavam o tempo todo furar a fila da cerveja, arrumando várias confusões. Já os alemães goleavam os adversários de 7 a 1 em matéria de educação e cordialidade – e acredito que agiriam dessa forma mesmo que não fossem minoria nas cadeiras.

Não foi nenhuma surpresa, portanto, que eu e os poucos brasileiros que estavam ao meu lado tenham comemorado mais o gol de Götze do que muitas vitórias de nossa própria seleção. O sentimento que veio à tona em dois minutos ininterruptos de pulos e gritos era de que toda a arrogância estava sendo castigada a varadas. Ao saber dos tumultos causados pelos argentinos em Copacabana após a derrota, a certeza de que não era para ser deles só se consolidou. Entendo que após um mês de provocações e trocas de hostilidades, àquela altura nenhuma das duas torcidas podia se dizer a dona da razão. Já não esperava ver nada parecido com a elegância de Messi ou com a sabedoria do papa nas arquibancadas, mas tampouco acreditei que estaria acompanhado por tantos Suárez e Zuñigas. Assim como os petistas relativizam as vaias a Dilma nos estádios, continuo a acreditar que os presentes no Maracanã não representam o povo argentino de forma fidedigna. Mas podemos comemorar o desfecho da Copa sem culpa. E, daqui a uma ou duas décadas, quando algum deles relembrar a vitória acachapante da Alemanha sobre nossa seleção, sempre poderemos dizer: “Y, vos, te acuerda del Maracanazzo-2014? Porque nosotros no lo olvidaremos jamás.”

João Sandrini

Leia também