A Entrevista: veja como um filme pode criar uma guerra entre EUA e Coreia do Norte

InfoMoney assistiu ao polêmico filme e conta o que está criando todo o atrito entre os dois países - e é claro, se vale a pena ver o filme

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SÃO PAULO – Petróleo, comida, invasão de território. Tudo isso já foi usado como justificativa para a realização de uma guerra, mas dessa vez algo inusitado está próximo de ser o causador de um conflito armado entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte: um filme. Há um mês, a discussão sobre um grande ataque de hackers à Sony está criando uma forte tensão entre os dois países, e ninguém descarta o início de uma guerra entre eles.

O filme em questão se chama “A Entrevista” e o InfoMoney já assistiu ao longa. O ditador norte-coreano, Kim Jong-un já havia pedido que o filme não fosse exibido – mesmo que ele esteja negando o envolvimento nos ataques à Sony (confira toda a história sobre os ataques hackers no fim dessa matéria) -, mas será que ele tem razão em ficar tão irritado com o filme?

Produzido pelos comediantes Seth Rogen e James Franco, que também estrelam o longa, a trama mostra um famoso apresentador de programa de entrevistas, Dave Skylark (Franco), e seu produtor Aaron Rapaport (Rogen), que conseguem agendar uma entrevista com o ditador norte-coreano. Aproveitando a oportunidade, a CIA contrata os dois para assassinar Kim Jong-un.

O ditador apresentado no filme é extremamente caricato, lembrando em muitas vezes vilões de filmes de comédia como Minimim – icônico personagem criado por Mike Myers para a série de filmes Austin Powers. As brincadeiras com Kim Jong-un são tantas que não há nenhum momento no filme em que o espectador realmente teme pelo que ele pode fazer contra os Estados Unidos, ou seja, ele não passa medo.

A questão é que Rogen e Franco não perdem uma chance de fazer piada com a Coreia do Norte ou com seu líder. Desde a cena de abertura, onde uma criança canta uma música bastante crítica aos norte-americanos, até ao fato de Kim Jong-un ser fã de Katy Perry e margaritas, o filme deixa bem claro que seu objetivo é brincar com os norte-coreanos.

Não há dúvidas de que o líder coreano é uma pessoa bem excêntrica. Basta uma busca pela internet para ver notícias sobre ele obrigar as pessoas a terem o mesmo corte de cabelo que ele, ou proibir que alguém tenha o seu nome. Na Coreia do Norte há um culto à sua imagem, que está estampada em praticamente todos os lugares, desde prédios do governo, até estações de ônibus e residências. Porém, o maior medo do mundo fica com os testes nucleares realizados por Jong-un nos últimos anos, o que pode se tornar uma grande ameaça.

O filme em si não é grande coisa e tem poucas piadas realmente boas. O grande problema é que “A Entrevista” utiliza um personagem e um país que realmente existem, o que abre a brecha para que ele reclame de como ele é representado, o que se torna um perigo quando lembramos de quem estamos falando. Acho que a questão que fica em mente – e que dificilmente teremos uma resposta – é: se fosse um presidente de qualquer outro país, será que eles teriam coragem de fazer as mesmas piadas?

Não estou aqui defendendo a proibição do filme. Neste sentido eu concordo com o presidente Barack Obama, que falou publicamente que nenhum país deve se curvar ou proibir a exibição de um filme porque outro país não quer. Também acho que é muito exagerado o problema que o filme está causando, principalmente no ego de Kim Jong-un.

“A Entrevista” é um problema que poderia ter sido evitado. As piadas apresentadas no filme incomodam – pense em alguém fazendo um filme onde falam que você é um ditador mimado, que gosta de Katy Perry e tem problemas com o pai – seu alvo, que no caso é um ditador excêntrico e que acha que pode atacar quem o criticar. Por outro lado, o mundo não pode se curvar aos desejos de um líder como esse, mas poderia ter se preparado melhor para os reflexos de uma brincadeira como essa.

Polêmicas à parte, “A entrevista” é um filme mediano, com muitas piadas exageradas e outras que dificilmente brasileiros que não estejam ligados na cultura dos Estados Unidos irão entender. O roteiro é bobo, mas a proposta do filme é de não ter uma trama complexa, focando apenas nas piadas e nas brincadeiras que faz com o líder coreano. Se não fosse toda a polêmica criada em torno do filme, provavelmente ele passaria despercebido pelos cinemas.

Entenda o caso
No dia 24 de novembro aparece o primeiro sinal nos computadores da Sony sobre um possível ataque hacker. Uma lista de exigências e um aviso de “isto é só o começo” levaram a empresa a desligar toda sua rede de computadores – nem as cafeterias do estúdio ficaram livres. Poucos dias depois, cinco filmes do estúdio foram divulgados na internet, incluindo o último longa de Brad Pitt, “Corações de Ferro” (estreia marcada para fevereiro no Brasil).

Uma rede de notícias da Coreia do Norte chama “A Entrevista” de um “ato cruel de provocação”, o que leva aos boatos de que o ataque hacker poderia ter sido feito pelo país em retaliação ao longa de Rogen e Franco.

Desde então, começam a ser divulgados e-mails de produtores do estúdio, incluindo alguns em que uma grande executiva, Amy Pascal, critica Angelina Jolie. Também começam a vazar na rede informações sobre futuros filmes da Sony, escolhas de elencos para grandes filmes, como 007, e até salários de atores e produtores.

No dia 11 de dezembro ocorre a primeira exibição de “A Entrevista”, em Los Angeles e apenas para convidados. Porém, com uma série de ameaças, que incluem e-mails para diversos veículos de imprensa falando em ataques aos cinemas que exibirem o filme, levam a Sony a cancelar a turnê que iria divulgar a produção, que até então estava agendada para 25 de dezembro.

As ameaças não param e a Sony decide cancelar o lançamento de “A Entrevista”. A atitude leva o ator George Clooney a criar um manifesto de apoio à Sony – mas ele não consegue praticamente nenhuma assinatura. Em sua coletiva de final de ano, o presidente Barack Obama também fala sobre o assunto e diz que o estúdio errou ao cancelar o lançamento. No dia 19 de dezembro, o FBI confirma que os ataques foram feitos pela Coreia do Norte. Desde então Estados Unidos e Coreia debatem sobre quem é o real culpado dos ataques. Na última semana, a Coreia do Norte chegou a ficar sem internet no país inteiro, levando jornais do mundo todo a acreditarem que os Estados Unidos estariam envolvidos.

No dia 23 de dezembro a Sony surpreende ao mundo e anuncia o lançamento de “A Entrevista” em cinemas selecionados no dia de natal, assim como em serviços de streaming. Nesta sexta-feira, a Rússia afirmou compreender a raiva dos coreanos: “a ideia do filme é tão agressiva e escandalosa que a reação norte-coreana é totalmente compreensível”, declarou o porta-voz da chancelaria russa, Alexander Lukachevich.

Resta agora entender quais serão os próximos passos de americanos e coreanos nesta briga e até onde irá cada governo para defender seus interesses.

Rodrigo Tolotti

Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.

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