2014: Uma eleição cada vez mais à direita

Aécio Neves é o nome mais forte da direita, mas Eduardo Campos e Dilma Rousseff deverão estar à direita

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SÃO PAULO – Mesmo com um possível vencedor de esquerda, a eleição de 2014 deverá ser a mais “à direita” entre as últimas. Em campo, Dilma Rousseff, do PT (Partido dos Trabalhadores), Aécio Neves, do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) e Eduardo Campos, do PSB (Partido Socialista Brasileiro) devem ser os grandes nomes deste pleito.

A figura de Joaquim Barbosa, atual presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) também paira sobre a disputa – mas tudo o que se tem até o momento são rumores: seu nome é fortemente cotado para a presidência em partidos de menor expressão, mas fala-se que ele foi convidado por Aécio para ser candidato a governador em Minas Gerais e pelo deputado federal Romário, presidente do PSB carioca, para ser o nome do partido a se candidatar à sucessão de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro.

Barbosa é fortemente cortejado pela guinada conservadora que o Brasil tem dado nos últimos anos: que se mostrou ainda mais feroz no julgamento da Ação Penal 470, popularmente conhecida como “Mensalão”. O ministro ganhou projeção nacional com esse julgamento – a ponto de ser o virtual candidato com maior intenção de votos durante as manifestações de junho, de acordo com números do Datafolha. Até abril, ele deverá ter seu destino definido: Barbosa tem um pouco mais de prazo por ocupar um lugar no STF.

Para todos os outros, o quadro partidário teria que ser fechado em outubro. E foi finalizado com apenas uma surpresa: a inclusão de Marina Silva no PSB, após fracassar em sua tentativa de criar um novo partido, a “Rede”.

Mesmo assim, o Brasil ganhou dois partidos: o PROS (Partido Republicano da Ordem Social), aliado imediato do PP (Partido Progressista), mas que terá uma posição ambígua na eleição seguinte. O PP atualmente é aliado do PT – embora não tenham, em seus programas, praticamente nada em comum. O outro partido é o Solidariedade – nome inspirado no partido do polonês Lech Walesa -, de Paulinho da Força Sindical, que se aliará com Aécio Neves.

Aécio Neves: nome mais forte da direita
Ideologicamente, a direita ganha força. Terá, possivelmente pela 1ª vez, uma grande central sindical a seu lado. E deverá fazer grande uso das reclamações que surgiram nas manifestações de junho: serviços públicos que possuam melhor relação benefício versus imposto, menor corrupção – bandeiras que são associadas, tradicionalmente, com candidatos de oposição. Se antes eram parte das exigências do PT, agora devem fazer parte da campanha do PSDB à presidência.

Aécio deverá dar uma guinada à direita em sua campanha – se casou recentemente, em uma jogada que parece ser uma tentativa de marketing para apagar sua fama de boêmio. Família deverá ser um tema central, como nas eleições norte-americanas, principalmente com a grande exposição de Tancredo Neves, seu avô – e “mártir” da redemocratização nacional.

Deverá fazer uma grande defesa das privatizações, sobretudo das que o governo de Fernando Henrique Cardoso, também do PSDB, fez em seu governo. Aposta em um grande crescimento de sua imagem à nível nacional, já que ainda é um político muito conhecido apenas em Minas Gerais – onde deixou o governo com altíssimo grau de aprovação.

José Serra ainda almeja tomar sua vaga no partido, mas é improvável: o político paulista está envolvido em um escândalo de corrupção, é tido como pouco confiável pelo seu eleitorado e não conseguiu nem mesmo ganhar a eleição para prefeito na cidade de São Paulo, perdendo para Fernando Haddad, que tinha muito menos projeção que Serra no início da disputa.

Eduardo Campos: no centro
Se o programa de Aécio deverá ser o mais “à direita”, Dilma e Eduardo também serão mais direitistas que na eleição anterior. Se Aécio é oposição desde o começo do governo petista, esse não é o caso de Eduardo, que fora ministro sob Lula e um dos principais aliados do PT no nordeste.

Ele deverá assumir um discurso de que o governo tem feito um bom trabalho, mas que é possível fazer mais. Assumirá uma postura desenvolvimentista e de “amigo do empresariado”, posição que deverá ser fortalecida pela presença de Marina em seu partido – já que, ultimamente, a ex-ministra do Meio Ambiente tem visto com muito bons olhos diversos assessores econômicos de linha liberal. Sem se esquecer que ela dá a voz evangélica à chapa de Eduardo, tendo boa aceitação nesse grupo, que é tradicionalmente conservador.

Dilma Rousseff: a esquerda com cara de direita
Por fim, Dilma ainda é a candidata favorita ao pleito – liderando com folga as pesquisas até agora feitas e contando com o apoio de Lula, o maior político brasileiro desde Getúlio Vargas. Ela devera continuar sua guinada recente à direita, como meio de estimular a economia nacional, que se estagnou nos últimos anos e atingiu o pior desempenho desde a República Velha.

Com isso, espera-se que a presidenta continue a sua política pragmática de concessões (que, entre outras coisas, quebrou a promessa da campanha de 2010 de que o pré-sal não seria privatizado) e elevação da Selic, a taxa básica de juro nacional. Tudo isso para que se mantenha o “Tripé Macroeconômico” sob controle, com contas públicas superavitárias, inflação baixa e câmbio flutuante. A economia deverá ser tratada como o grande calcanhar de Aquiles do governo Dilma.

O PT, maior bancada da Câmara, não se sustenta sozinho, e precisará, novamente. fazer alianças com partidos menores e mais conservadores – a começar pelo anti-reformista  PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), do vice-presidente Michel Temer. Será o caso também do PSD (Partido Social Democrático), que, embora tenha um estatuto liberal, se auto declara “nem de direita, nem de esquerda” e já declarou apoio à Dilma.

Se o PSD e PMDB são tidos como puramente fisiológicos e não devem ter imposições ideológicas que afastarão a candidatura da esquerda, o mesmo não pode ser dito de PP, partido de Paulo Maluf, do PRB (Partido Republicano Brasileiro), do ministro Marcelo Crivella – político ligado às bases evangélicas – e até mesmo do PSC (Partido Social-Cristão), que conta, entre outros tantos nomes contestados, com o deputado Marco Feliciano. Com tudo isso, não será surpresa ver uma Dilma mais pragmática, privatizadora e conservadora na próxima campanha.

Felipe Moreno

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