Estados Unidos em tensão: resultados corporativos ou pressão tarifária?

Embora as tarifas gerem ruído, a força corporativa dos EUA continua ditando o ritmo, ainda que não livre de turbulências, como as causadas pelos anúncios recentes

Axel Christensen

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O mercado norte-americano vive uma intensa tensão econômica entre duas forças que puxam em direções opostas. De um lado, a força dos lucros corporativos, impulsionados por transformações estruturais como a revolução da inteligência artificial (IA). Do outro, o impacto crescente das tarifas, que ameaça desacelerar o crescimento e gerar pressões inflacionárias.

Os resultados do segundo trimestre mostram que as empresas americanas continuam resilientes. Os lucros subiram cerca de 8% em doze meses e as margens corporativas atingiram níveis recordes, muito acima das registradas por empresas europeias. A IA segue como o principal motor de investimento, com gigantes como Microsoft e Meta liderando o caminho.

Mas as tarifas também vêm ganhando destaque. As chamadas tarifas “recíprocas”, anunciadas em abril, já estão sendo aplicadas, com taxas efetivas entre 15% e 20%. Como resultado, o Tesouro americano arrecadou US$ 27 bilhões apenas em junho. Quem paga essa conta? Uma combinação de fornecedores estrangeiros, empresas locais e consumidores. E, embora muitas companhias tenham antecipado importações para mitigar os efeitos, essa estratégia está se esgotando e os impactos começarão a ser mais amplamente sentidos.

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Um exemplo está nos preços de bens duráveis nos EUA, que sobem no ritmo mais acelerado desde 1991, excetuando o período da pandemia. Setores como o automotivo já mostram sinais de desgaste. General Motors e Ford anunciaram que estão absorvendo o custo das tarifas, enquanto marcas asiáticas optam por reduzir preços para se manterem competitivas. Na Europa, a pressão enfrentada por muitas empresas do setor é dupla: competir com carros elétricos chineses e lidar com margens cada vez mais apertadas. Em contraste, marcas como a Ferrari conseguiram aumentar seus preços, demonstrando que o poder de precificação é essencial.

Paradoxalmente, o setor industrial, o mais exposto às cadeias globais e às tarifas, lidera o desempenho do índice S&P 500 neste ano, com alta de 15%. O motivo está na combinação entre a inteligência artificial e o aumento dos gastos com defesa, duas megaforças que estão redefinindo o panorama econômico global.

Em resumo, embora as tarifas gerem ruído, a força corporativa dos EUA continua ditando o ritmo, ainda que não livre de turbulências, como as causadas pelos anúncios recentes. Esse ambiente exige olhar além dos setores e adotar uma visão mais granular, pois, nessa disputa de forças, cada empresa e cada consumidor têm seu papel — e um custo a pagar.

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Axel Christensen

Estrategista-chefe da BlackRock para América Latina