Empresa que cresce por desconto está comprando faturamento — e vendendo margem

Na guerra de preços, quem reage no automático transforma promoção em tabela e deixa o caixa pagar a conta

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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Deixa eu te contar uma verdade que incomoda muito empresário: vender mais não significa lucrar mais. Uma empresa pode bater recorde de pedidos todo trimestre e, ao mesmo tempo, ficar mais frágil a cada venda. Basta que o preço caia mais rápido do que o custo de entrega.

A cena é clássica. O concorrente baixa o preço. O comercial entra em pânico. O vendedor pede autonomia. O dono aprova um desconto para “não perder o cliente”.

A venda entra, o faturamento sobe, o time comemora. Meses depois, na reunião de resultado, alguém pergunta por que a margem despencou — e ninguém sabe apontar em qual pedido o dinheiro começou a escapar.

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Desconto que ninguém revisa vira preço. E preço que ninguém defende vira margem perdida.

Os números não mentem. Um levantamento recente da Strategy&, da PwC, botou essa conta preto no branco ao cruzar os dados do primeiro semestre de 2026 de empresas listadas na CVM.

A receita aumentou para quase 70% delas. Até aí, todo mundo posta no LinkedIn. Mas o problema aparece quando você olha para o detalhe: entre as 254 companhias não financeiras que faturaram mais, metade perdeu margem operacional. Em 115 delas, o resultado líquido simplesmente piorou.

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Isso não é detalhe de contador. É diagnóstico de gestão. Metade das empresas que cresceram passou a ganhar menos a cada real vendido.

Faturamento é vaidade, lucro é sanidade, caixa é rei. Só que o empresário brasileiro foi treinado para olhar só o topo da DRE. Faturamento alto não paga boleto de fornecedor nem folha de pagamento. Margem de contribuição paga. Caixa paga.

Se você precisa vender cada vez mais só para empatar o jogo no fim do mês, você não está crescendo. Você está correndo numa esteira de hamster: cada vez mais rápido, no mesmo lugar e prestes a infartar o caixa.

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A promoção que vira modelo de negócio

O perigo da guerra de preços é que ela raramente começa como estratégia. Ela começa como uma concessão disfarçada de exceção:

Só que exceção sem regra vira hábito. E hábito comercial vira tabela informal. Foi exatamente o que chamou atenção no movimento recente da Ford no Brasil. Ao reduzir em até R$ 25 mil o preço de tabela de Territory, Maverick e F-150, a empresa explicou que estava aproximando a tabela dos valores que as concessionárias já praticavam na ponta.

Créditos: Alfredo Soares

Traduzindo: o desconto já existia. Apenas oficializaram a sangria.

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O desconto nasce na negociação, vira rotina e vira a nova régua. A partir daí, a próxima negociação já começa de um patamar mais baixo. E o mais revelador: a Ford não está em crise — as vendas da marca cresceram no ano.

A margem não escapa só quando o negócio vai mal. Ela sangra principalmente quando a empresa vende bem e ninguém tem coragem de auditar a qualidade dessas vendas.

O concorrente pode baixar o preço. Você não é obrigado a baixar a régua. Existe uma distância brutal entre competir e entrar em desespero.

No setor automotivo, com mais de 350 mil veículos importados parados nos pátios e a pressão agressiva das marcas chinesas, muita montadora entrou em pânico de estoque. Mas olhar para a queima alheia não significa queimar a própria margem.

Diante do mesmo cenário, a Honda fez o oposto na pré-venda do City 2027: segurou o preço e subiu a régua do valor com faróis Full LED, pacote de assistência Honda SENSING, seis airbags e garantia de seis anos, num lote de 3 mil unidades.

Encerrado o lote, a versão LX sobe R$ 200 e as demais ficam R$ 1.100 mais caras.

Quando a única resposta do seu negócio para a concorrência é cobrar mais barato, você está admitindo para o mercado que não sabe explicar por que vale mais.

Créditos: Alfredo Soares

O teste dos quatro pisos antes de dar o próximo desconto

Para não entrar na guerra no piloto automático, eu recomendo travar a operação comercial em quatro pisos:

  1. Piso de Margem: Qual é o menor valor que a sua empresa aceita receber sem queimar a própria operação? Nenhuma negociação deveria começar sem esse número na cabeça do vendedor. E aqui entra o custo completo: imposto, comissão, frete, atendimento e custo financeiro. Um produto de R$ 100 parado três meses no estoque não custa mais R$ 100. Com juros altos, capital parado custa caro.
  2. Piso de Ameaça: Antes de reagir no susto, investigue. O corte do rival é estrutural ou ele está queimando lote vencendo? O seu critério de decisão tem que ser a perda real de clientes lucrativos, não o pânico do seu vendedor porque viu um post patrocinado do concorrente.
  3. Piso de Valor: O que você pode colocar na mesa antes de tirar da margem? Ofereça garantia, prazo, suporte diferenciado, treinamento. Entregue algo que custa pouco para você produzir, mas tem alto valor percebido para o cliente.
  4. Piso de Contrapartida: Se a concessão for inevitável, nunca entregue de graça. Exija pagamento à vista, lote mínimo, contrato de longo prazo ou compra combinada com produtos de margem gorda. Desconto sem contrapartida não é estratégia comercial; é doação.

Olha o exemplo prático: uma distribuidora com 30% de margem vê o concorrente anunciar 10% de corte. Se ela acompanhar no reflexo, a margem despenca e ela vai precisar vender 50% a mais só para empatar o lucro anterior.

Se ela aplica os quatro pisos, descobre que o rival só tem um lote pontual, mantém o preço e fecha o contrato garantindo reposição em 4 horas. Ela não vende preço; vende a tranquilidade de o restaurante nunca ficar sem produto na sexta-feira à noite.

O gestor precisa saber onde a empresa ganha dinheiro

Se o seu diretor comercial sabe de cor quais produtos mais vendem, mas não sabe quais clientes e linhas deixam mais margem líquida, a sua empresa está sendo pilotada pelo retrovisor.

Leve essas quatro perguntas para a mesa da diretoria na próxima segunda-feira:

O mercado sempre vai ser agressivo. Concorrente desesperado queima caixa, o cenário muda e sempre vai ter alguém disposto a quebrar a própria empresa antes da sua. O problema é que, no desespero de não perder a venda, muito gestor age como “maria vai com as outras”. Vê o vizinho se enforcando no preço e decide colocar a mesma corda no pescoço só para não ficar de fora.

O que o concorrente faz com o caixa dele não é problema seu. O que está no seu controle é o piso abaixo do qual a sua empresa não desce.

Pare de dar desculpas usando a economia. Pare de comprar faturamento com a margem que deveria pagar o seu crescimento. O jogo não é vencer a próxima cotação a qualquer custo para inflar o ego no fim do mês; é botar dinheiro no bolso, proteger a sua operação e estar capitalizado quando o concorrente que baixou o preço quebrar.


É cofundador, sócio e mentor do G4, maior plataforma brasileira de soluções corporativas para PMEs, que já impulsionou o crescimento de mais de 87 mil empresas. Apenas em 2025, o G4 faturou R$508 milhões, atuando com educação corporativa, comunidades e marketplace de soluções. Alfredo Soares é autor de três best-sellers: “Bora Vender”, “Bora Varejo” e "Todos Somos uma Marca". É também presidente da Loja Integrada, empresa digital voltada para ajudar empresas a fortalecerem suas marcas, fundador e ex-CEO da Xtech Commerce, e-commerce focado em pequenas e médias empresas, que foi adquirida pela VTEX, maior plataforma de e-commerce da América Latina, da qual também se tornou sócio.