The end

O país segue impávido para o desastre, incapaz de aprender com seus próprios erros, seja no campo sanitário, seja no campo fiscal, mas, principalmente, no campo político

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mask for prevention of respiratory diseases, with the American flag painted. US pandemic concept. North america corona virus, risk of epidemic.
(RHJ/Getty Images)

O Brasil hoje parece uma obra de arte. No caso, a épica abertura de Apocalypse Now: coqueiros explodindo em chamas enquanto o vozeirão de Jim Morrison declama “this is the end”.

Exagero? A cada dia a Covid mata mais de 2 mil pessoas e previsões indicam piora à frente, resultado da delicada combinação de incompetência, negligência e completa ausência de empatia.

As preocupações do governo, face ao desafio, se resumem a tentar comprar o apoio do Centrão, irritado com a inaptidão na área da saúde, mas obviamente sem pensar em colocar em seu lugar qualquer pessoa disposta a lidar de fato com a tarefa, como ilustrado na tragicomédia que testemunhamos nos últimos dias.

O desastre sanitário tem, como aprendemos da pior (e mais didática) maneira possível, consequências não menos calamitosas para o desempenho econômico.

O risco concreto (que, a bem da verdade, já se converteu em certeza) de esgotamento da capacidade das UTIs força novas medidas de distanciamento social, cujo impacto é negativo para a atividade, não só pela perda de renda (a ser atenuada pela renovação, afinal, do auxílio-emergencial), mas porque o medo da doença leva à redução do contato interpessoal, crucial para a vasta maioria das atividades de serviços, principal origem de emprego no país.

Um ano depois, enquanto países mais previdentes e organizados, se preparam para a volta a uma certa normalidade, contemplamos uma nova rodada de recessão e aumento do desemprego.

Não há indicações que o duro aprendizado pelo qual a população passou tenha chegado à elite governante.

Não há nada de errado, como princípio, na extensão do auxílio-emergencial, que cansei de defender nesse espaço, devidamente compensado num futuro de preferência não muito distante, por medidas que permitam interromper a tendência crescente do gasto obrigatório. Deveria esse ser o sentido, como também já argumentei, da PEC aprovada na semana passada.

Todavia, como explorado com detalhe por pessoas mais bem qualificadas, em particular Felipe Salto e Marcos Mendes, o efeito líquido da aprovação na trajetória dos gastos é pequeno, se é que existe (e, não, não é verdade, infelizmente, que tenha congelado salários de servidores por 15 anos). No caso do governo federal, talvez apareça em 2025, se nada ocorrer no meio do caminho que inviabilize também essa proposta.

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Evitou-se, é bom que se diga, um desastre ainda maior, como a incipiente discussão (com o aparente apoio do presidente da República) acerca da retirada do Bolsa-Família do teto de gastos, mas impedir um gol contra de pouco adianta quando a defesa é incapaz de segurar o ataque adversário.

As perspectivas, portanto, são que o retorno a saldos positivos nas contas primárias ficou ainda mais longínquo, se é que um dia haverá de ocorrer.

O resultado do descontrole fiscal é uma maior pressão sobre o dólar e sobre os juros. Como explorado na minha última coluna, o dólar mais caro, acoplado a preços mais altos de commodities (uma combinação rara), tem feito a inflação se acelerar, se manifestando em particular na elevação persistente de preços de alimentos.

Ao contrário do que eu imaginava no final do ano passado e começo desse ano, o IPCA deve superar consideravelmente a meta de inflação talvez pela margem mais alta desde 2016.

Muito embora o efeito do atual aumento dos alimentos deva ficar restrito a 2021 (desde que dólar e commodities não sigam subindo), cabe agora ao BC evitar que esse impacto seja repassado aos preços dos demais produtos, notadamente serviços, o que parece ser o motivo para o início do processo de normalização da taxa de juros que devemos testemunhar essa semana.

Não há como evitar o desconforto de observar a elevação da Selic com a economia prestes a uma recaída recessiva, mas, dados os demais erros de política, sanitária e econômica, não parece haver alternativa para lidar com o problema, ainda mais depois do fiasco da aprovação da PEC.

Em outubro de 2018, às vésperas do primeiro turno da eleição, em entrevista aqui mesmo no InfoMoney, eu dizia que, independentemente do resultado, não tínhamos a menor chance de dar certo.

Não escrevo isso para me gabar (na verdade, sim, mas só um pouquinho); apenas para confessar que meu pessimismo (realismo?) naquele momento não chegou perto de antecipar a obra de arte que hoje contemplamos.

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Não foi por acaso. Desde antes daquele momento o país, incapaz de forjar um consenso político, é campo de batalha de grupos de interesse, cuja luta incessante por nacos da renda nacional conseguiu nos fazer marchar impávidos rumo ao desastre.

This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end

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Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman foi diretor de assuntos internacionais do Banco Central e economista-chefe dos bancos ABN Amro e Santander. Hoje, comanda a consultoria econômica Schwartsman & Associados. Formou-se em administração pela Fundação Getulio Vargas, fez mestrado em economia na Universidade de São Paulo e doutorado em economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.

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