O Dilmo

O poder excessivo do estado brasileiro, na figura de empresas sujeitas à vontade do mandatário de plantão,  possibilita o tipo de comportamento que teve o presidente Jair Bolsonaro, ao pedir que o Banco do Brasil reduzisse os juros

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Os instintos intervencionistas de Jair Bolsonaro mais uma vez se impuseram quando, no começo da semana, pediu publicamente ao presidente do Banco do Brasil (BB) que reduzisse as taxas de juros praticadas pela instituição, ecoando uma das políticas mais desastrosas do governo Dilma (em que, infelizmente, não faltaram políticas desastrosas).

Depois da péssima reação do mercado financeiro, expresso em queda de cerca de 1% nas ações do BB, o porta-voz do governo federal negou que o presidente tenha intenção de intervir nas políticas do banco, afirmando que seu comentário foi feito em “num ambiente muito amigável”.

Por mais “amigável” que fosse a ocasião (no caso, uma feira de tecnologia para o agronegócio), não se trata de incidente isolado.

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Há pouco o presidente interveio no banco, proibindo uma propaganda destinada ao público jovem, aparentemente por não concordar com o perfil dos retratados na peça publicitária.

Apesar de, há muitos anos (muitos mesmo), ter feito algumas cadeiras da área de marketing, obviamente não sou qualificado para avaliar o conteúdo da peça, nem se teria efeitos significativos sobre a estratégia comercial do banco. Isto dito, o presidente também não tem as credenciais para tanto.

Nem cabe esquecer, é claro, sua reação ao aumento do óleo diesel anunciado pela Petrobras no começo do mês, tema que explorei há pouco no meu blog, eventualmente revertida. Sua auto alardeada ignorância acerca de assuntos econômicos claramente não bastou para impedir manifestações sobre assuntos que não domina. É bem verdade que, apesar da fala presidencial, o preço do diesel sofreu aumento (R$ 0,01 abaixo do que havia sido anunciado), mas o estrago já estava feito.

A raiz do problema não é a ignorância do presidente. Seria melhor que todos os mandatários eleitos no país tivessem alguma noção básica do assunto, mas não se trata apenas de premissa irreal, como também desnecessária.

O problema emerge do poder investido no executivo (e no mundo político em geral) para intervenções, por vezes até bem-intencionadas (mas não menos maléficas), sobre o domínio econômico.

Em outras palavras, é o poder excessivo do estado brasileiro, na figura de empresas sujeitas à vontade do mandatário de plantão, que possibilita este tipo de comportamento. Não é exclusivo, é claro, de Bolsonaro, mas praticado, em maior ou menor grau, por praticamente todos os presidentes (ou governadores, ou prefeitos) precisamente porque do ponto de vista institucional o acionista controlador pode determinar políticas que não façam qualquer sentido para os negócios da empresa em questão, mas que tragam benefícios políticos (reais ou imaginários, não importa) aos donos do poder.

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Enquanto esta situação perdurar, teremos que conviver com tais riscos. Obviamente, as declarações do presidente, inclusive durante a campanha, não nos dão maiores esperanças quanto à alteração deste estado de coisas.

Bolsonaro, apesar do pretenso discurso liberal, já deixou claro que se opõe à privatização de empresas como a Petrobras, o BB e a Caixa Econômica Federal (precisamente as estatais que importam), pelo seu suposto “papel estratégico”, o qual, aliás, fica mais nítido a cada intervenção presidencial.

No final das contas, Dilma intervinha porque acreditava – ao contrário de toda evidência disponível – que entendia do riscado; já Bolsonaro intervém mesmo sabendo que nada entende do assunto. Há uma diferença, que na prática não faz a menor diferença.

Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman foi diretor de assuntos internacionais do Banco Central e economista-chefe dos bancos ABN Amro e Santander. Hoje, comanda a consultoria econômica Schwartsman & Associados. Formou-se em administração pela Fundação Getulio Vargas, fez mestrado em economia na Universidade de São Paulo e doutorado em economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.