Evergrande encrenca

Os problemas da Evergrande devem repercutir sobre o crescimento chinês, com consequências inclusive para o Brasil. Todavia, dada a pouca integração do sistema financeiro chinês com o resto do mundo, não devemos esperar uma crise de proporções globais como em 2008

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(Getty Images)

Enganaria o leitor se afirmasse estar 100% a par do que ocorre com a Evergrande, segunda maior incorporadora chinesa, que, sob o peso de um passivo superior a US$ 300 bilhões, parece não ter condições de honrar os pagamentos de sua dívida.

Apesar de anunciado há algum tempo, a proximidade com o default causou forte turbulência nos mercados nesta semana, passando pelas bolsas, moedas e renda fixa.

A razão, acredito, do enorme receio em torno das dificuldades financeiras da empresa, além do próprio tamanho do conjunto de suas obrigações, se encontra em duas possibilidades de repercussões em direções distintas.

A primeira, que não tenho condições de analisar, se refere ao estado financeiro das demais incorporadoras, que poderia comprometer um setor que contribui com quase 30% do PIB chinês segundo o Financial Times.

Ao mesmo tempo, o não-pagamento das obrigações da companhia pode repercutir sobre a saúde dos seus credores. Boa parte deles são seus clientes, que tipicamente adiantaram recursos à empresa e provavelmente não conseguirão reavê-los, caso tristemente familiar a vários ocorridos no Brasil. Da mesma forma, fornecedores deverão enfrentar dificuldades. Embora trágico para os envolvidos, não é o maior risco que enfrentamos.

A existência de limitação dos juros pagos a depositantes na China levou ao florescimento de empresas não-bancárias que captam recursos sem tal limitação e os usam para financiar empresas, detendo, ao final, de 2019 ativos de mais de US$ 3 trilhões.

Embora a regulação do setor tenha sido apertada ao final do ano passado, tais empresas, de maneira geral, operam com restrições muito mais frouxas do que as impostas aos bancos.

Podemos, na verdade, traçar um paralelo entre as tais empresas e os shadow banks norte-americanos pré-crise de 2008, como empresas que se beneficiam da arbitragem regulatória, isto é, explorar o mesmo serviço de intermediação financeira provido por bancos sem as obrigações correspondentes.

De acordo com relatos da imprensa especializada, algo como 40% da dívida da Evergrande foi financiada por mais de 120 trust companies, cujo grau de transparência é muito inferior ao do sistema financeiro plenamente regulado. Não se sabe, portanto, qual o grau de exposição que cada uma delas tem com respeito à empresa e menos ainda no que se relaciona ao conjunto das incorporadoras.

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Em tal ambiente, é comum que a incerteza desencadeie movimentos no sentido de retirada de depósitos, o que forçaria os trusts a buscar liquidez para honrar os saques, possivelmente junto aos bancos, ou reduzindo seus empréstimos.

O risco, portanto, é o de fenômeno semelhante a uma corrida bancária típica, isto é, fuga de depósitos que leve ao encolhimento do volume de crédito e, portanto, à queda da atividade econômica.

Obviamente, a cura para corridas bancárias é conhecida há mais de cem anos, como bem descrita pelo lendário editor da revista The Economist, Walter Bagehot:

Lend freely, at a penalty rate, against good collateral. [Empreste sem limites, a uma taxa penalizadora, contra garantias de boa qualidade]”

Isto é aplicável à China, sob duas condições. A mais simples se refere à possibilidade de o Banco Popular da China (o banco central chinês) emprestar recursos para tais empresas. Mesmo que isto não seja admissível no marco legal vigente, não antevejo maiores dificuldades para sua alteração de modo ao incluí-las dentre potenciais beneficiários de empréstimos de liquidez.

Já a segunda condição envolve avaliar a qualidade das garantias, algo bem mais complicado, inclusive à luz dos próprios problemas dos projetos da Evergrande, para não falar das demais empresas.

Assim, talvez a solução mais fácil passe por resgatar a própria empresa, provavelmente penalizando acionistas, mas preservando os credores, sejam eles clientes, fornecedores ou emprestadores. Ainda assim, resta saber o tamanho do estrago que pode existir no setor de construção civil.

Ao final das contas, tais problemas podem afetar o ritmo de crescimento chinês, com consequências para o Brasil por meio de preços de commodities, bem como volume exportado.

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Em que pese o tamanho da encrenca, dificilmente se materializará algo similar ao ocorrido em 2008.

O sistema financeiro chinês é pouco integrado ao do resto do mundo (com exceção de Hong Kong) e eventuais problemas por lá não devem contaminar bancos globais, ao contrário do colapso do subprime. Não será um passeio, mas não devemos esperar por uma crise de proporções globais.

Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman foi diretor de assuntos internacionais do Banco Central e economista-chefe dos bancos ABN Amro e Santander. Hoje, comanda a consultoria econômica Schwartsman & Associados. Formou-se em administração pela Fundação Getulio Vargas, fez mestrado em economia na Universidade de São Paulo e doutorado em economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.

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