O jogo que se ganha antes do apito inicial

A Copa do Mundo oferece lições sobre estratégia, planejamento e sucessão que também valem para a gestão do patrimônio familiar

Alessandro Fonseca

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A Copa do Mundo é festa. A cada quatro anos o Brasil para. Álbum de figurinhas, mãos das crianças batendo no chão e estampidos que assustam os adultos a qualquer momento, em qualquer lugar: bafo, bafão, bafinho… Quem convive com crianças sabe.  

Bares movimentados, churrascos e grupos de mensagens em polvorosa, figurinhas divertidas e muitas provocações. Palpites em bolões, camisas amarelas resgatadas do fundo do armário e muitas discussões acaloradas sobre quem deveria, ou não, estar em campo.

Eu costumo observar tudo isso e faço um paralelo de que boa parte do que se aprende dentro das quatro linhas vale, quase sem ajustes, para a maneira como uma família cuida de seu próprio patrimônio.

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Escrevo este artigo em julho, com o Mundial na reta decisiva e a grande final se aproximando. Boa parte do país está de férias seguindo o calendário escolar. É um mês de casa cheia, de viagem e de muita gente reunida.

Eu não poderia ficar de fora dessa farra. Apesar de não ter habilidade para entrar em campo e contribuir jogando com a camisa amarela, não há uma partida nesse mundial que não me remeta ao que vivo no meu dia a dia de advogado que atua, há quase 30 anos, com famílias e planejamento patrimonial.

Vejamos o que o meu cotidiano compartilha com uma partida da Copa do Mundo. São muitas as similaridades, mas quatro delas me chamam mais atenção.

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A escalação que ninguém vê

Nenhum técnico levanta uma taça com onze craques jogando cada um para o seu lado. Ganha quem monta um time e sabe escalar cada jogador numa posição, com função clara e missão determinada do que fazer quando a bola chega (infelizmente a Noruega e a atuação do craque Halland durante a partida de eliminação da seleção brasileira comprovam isso). 

No planejamento de uma família, a lógica é exatamente essa e é aqui que mora o erro mais comum que costumo encontrar.

As pessoas vão “contratando craques” avulsos ao longo da vida. Abrem uma holding porque o vizinho abriu. Fazem um testamento às pressas, antes de uma viagem. Contratam um seguro de vida do qual ninguém mais lembra. Compram uma previdência com o gerente do banco. 

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Cada peça, isoladamente, pode até ser excelente. O problema é que ninguém escalou o time.

Não existe um plano que faça a holding, o testamento, o seguro e a previdência conversarem entre si e aí, no jogo de verdade, descobre-se que três instrumentos disputam a mesma posição enquanto o gol fica escancarado.

Um time de craques literalmente sem goleiro. Patrimônio bem cuidado, planejado com eficiência e legado, não é coleção de bons jogadores. É escalação.

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Título se ganha na defesa

Esta é a minha reflexão preferida justamente por ser a menos glamourosa. Essa verdade não falha: o atacante leva a manchete, mas é a defesa bem posicionada que segura o resultado quando o jogo aperta (novamente, o goleiro Vozinha da seleção de Cabo Verde está aí para não me deixar mentir). 

No planejamento patrimonial a defesa atende por outros nomes: proteção, organização, estruturação.

De toda forma, qualquer uma dessas denominações sofre do mesmo mal, qual seja, o mal do zagueiro, aquele que ninguém aplaude, até o dia em que faz falta (aqui, eu tenho que mencionar o gol do Japão contra o Brasil, numa falha do Casemiro, que, felizmente, conseguiu se redimir e marcar um gol para neutralizar a falha anterior).

Faço sempre uma comparação que parece boba e, mesmo assim, funciona. Antes de viajar nas férias, você confere se trancou a porta, se o alarme está armado, se alguém vai dar um jeito nas plantas. Ninguém sai de casa para um período fora deixando tudo aberto. 

Por que, então, tanta gente “sai de casa” na própria vida deixando seu patrimônio escancarado, sem nenhuma linha de defesa montada? Proteger o que se construiu não é desconfiança nem pessimismo.

É o básico do básico. A vida é imprevisível, certamente muito mais do que qualquer partida que envolva a Argentina, que o digam as seleções do Egito e da Suiça.

Ninguém quer decidir nos pênaltis

Essa reflexão vem do momento mais cruel do futebol. Não conheço um torcedor sequer que goste de decisão por pênalti, a não ser que seja meramente na condição de espectador de uma partida que não envolva seu time.

Decisão por pênaltis é loteria, é coração na boca, é injustiça à espreita: um goleiro inspirado, uma bola na trave, e anos de trabalho viram pó em 30 segundos.

Sucessão sem planejamento é exatamente isso. A família é empurrada para a disputa de pênaltis no pior cenário possível.

Uma perda inestimada, o emocional em frangalhos e o desfecho entregue à sorte, ao calendário do fórum sob o ritmo do inventário (ainda que se possa pensar no procedimento extrajudicial, sem dúvida mais célere e barato, mas não aplicável para qualquer hipótese). 

Planejar é o oposto disso. É resolver o jogo no tempo normal, com calma, escolhendo as próprias jogadas ao invés de deixar que o acaso faça a escolha derradeira. 

Reitero o que sempre digo: planejar não é antecipar o fim de nada. É decidir que as regras do jogo serão definidas por quem está jogando, e não por quem vai precisar apitar a disputa depois. 

Nesse sentido, afirmo, com a tranquilidade de quem já viu muitas vezes que quase todo litígio sucessório feio que cruzou a minha mesa começou com uma frase inofensiva: “a gente ia organizar isso, mas não deu tempo”.

O intervalo e as pausas para hidratação

Chego, então, à reflexão que o próprio mês de julho nos entrega de presente: o intervalo. Todo bom time aproveita as pausas para hidratação e os quinze minutos do vestiário durante o intervalo para reler o jogo. Verificar o que está funcionando, o que precisa mudar no segundo tempo, quem entra e quem sai. 

As férias são esse intervalo no calendário de uma família. A casa cheia, o ritmo mais lento, todo mundo por perto. É a hora rara em que cabem as conversas que a correria do ano não permite: o que cada um tem, o que cada um quer proteger, quem cuida de quê, o que acontece se…

Não estou sugerindo, que fique claro, estragar as férias com reunião de advogado, longe disso. Mas talvez aquela conversa adiada há três verões caiba num fim de tarde de inverno, com o café na mesa ou um vinho na frente da lareira. 

Convém lembrar que o segundo tempo do novo sistema tributário está prestes a entrar em campo, portanto, melhor aproveitar essa pausa, se hidratar e rever o próprio plano para entrar no jogo melhor posicionado, na frente, com mais chances de fazer gol.

Já diz a sabedoria popular: quem não faz gol, toma! Infelizmente a eliminação da seleção brasileira também pode ser invocada para comprovar isso.

Quem deixar para depois pode descobrir que o adversário tributário já abriu o placar.

Leia também: Amor, patrimônio e a realidade sobre o que os casais precisam conversar

Mas por que pensar nisso justamente agora?

Esse artigo não é um convite para transformar a final do dia 19 numa reunião de planejamento sucessório. Seria péssima ideia, e provavelmente eu seria expulso da sala.

É, antes disso, um lembrete de que o jogo mais importante de uma família não se decide no improviso do último minuto. Decide-se antes: na escalação que se monta com cuidado, na defesa que se arma sem alarde, na recusa de entregar o futuro à loteria dos pênaltis. 

Decide-se, no fundo, em conversas que quase sempre são adiadas porque dinheiro, separação e morte são assuntos que ninguém quer colocar na mesa quando tudo vai bem. E é exatamente quando tudo vai bem que essas conversas saem melhor.

A taça vai para quem se preparou antes do apito inicial. Com o patrimônio de uma família, não é nada diferente. Que o campeão faça a sua parte na final, já que nós, brasileiros, voltamos para casa antes do que gostaríamos. Que, ao apito final, nos sobre um pouco de fôlego para cuidar do único time que a gente realmente não pode perder: o de casa. 

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Alessandro Fonseca

Advogado, professor e palestrante. Sócio do Mattos Filho, Presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Patrimonial – IBRAPP, Diretor da Society of Trust and Estate Practitioners – STEP BRAZIL BRANCH e International Fellow da The American College of Trust and Estate Counsel – ACTEC