Vendendo o arroz para comprar feijão

A inflação é um fantasma que já nos assombrou em um passado não muito distante - e que está dando sinais de voltar a nos assustar

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
Moedas, reais, dinheiro, real
(Dihandra Pinheiro/GettyImages)

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é o indicador de inflação oficial do país para a medição de metas inflacionárias e chegou a registrar 1.972,91% em 1989, 1.620,96% no ano seguinte, e absurdos e históricos 2.477,15% no ano de 1993.

Nessa época eu ainda era um adolescente que pouco entendia de economia, mas sabia da importância de ser um bom corredor para conseguir comprar indispensáveis itens de supermercado, nas prateleiras quase sempre vazias. Tenho a mais clara recordação da correria que era pegar os escassos produtos disponíveis nas gôndolas antes do profissional do estabelecimento, com uma etiquetadora manual, remarcar os preços.

No período de hiperinflação e de alta taxa de desemprego, os banhos eram de canequinha e geralmente com água fria. Quando o dinheiro entrava, mal dava para pagar o leite e o pão.

Lembro-me de uma música de João Mulato e Douradinho, intitulada “O que vou dizer agora”. De acordo com a letra, “o que vou dizer agora vão saber como é que é: tem gente vendendo açúcar para poder comprar café. O que vou dizer agora, ninguém vai dizer que não. Tem gente vendendo o leite para poder comprar o pão. O que vou dizer agora sei que vão me dar razão. Tem gente vendendo arroz para poder comprar feijão. O que vou dizer agora está preso na garganta. Tem gente vendendo almoço para poder comprar janta.”.

Em março de 1990, o IPCA chegou a 82,39%. Considerando essa taxa, é como se no início do mês você conseguisse comprar um litro de leite por R$ 3,00 e ao final dele pagasse R$ 5,57. Um litro de gasolina a R$ 5,00, chegaria a custar R$ 9,12. O quilograma da carne que custa R$ 55,00 chegaria a R$ 100,00, em um único mês.

Apesar de estarmos longe de voltar a esse período, já que conseguimos a estabilização da moeda com o Plano Real e desde 2017 o índice inflacionário não passa de 5,0% a.a., em julho de 2021 o IPCA acumulou preocupantes 4,76% desde janeiro. Se continuar assim, ainda que o Relatório Focus aponte para um índice de 7,0%, poderá chegar ao final do ano com um percentual maior, próximo de dois dígitos.

Por que isso preocupa? Porque o índice mede principalmente o aumento dos preços de alimentos e bebidas, transporte, habitação e saúde. São produtos e serviços que atendem às necessidades básicas do ser-humano. Não ter o que comer, onde se abrigar e sem remédios para aliviar os sintomas é terrível.

O aumento generalizado de preços faz com que as pessoas percam poder de compra, já que as contas com supermercado, energia, agua, gás, dentre outros, aumentam e o valor do salário se mantém. Quem mais sofre com isso é a população de baixa renda.

Uma conta de R$ 200,00 de supermercado compromete mais de 15% da renda de um trabalhador que recebe um salário mínimo. O aumento dos preços é muito mais representativo para as pessoas pobres. A inflação é cruel e combatê-la não é uma tarefa fácil.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Parafraseando João Mulato e Douradinho, “quem é pobre quando deita mais pobre ainda levanta”.

Eli Borochovicius

Eli Borochovicius é Head Pedagógico da Progress Educacional, empresa especializada em Formação de Professores para Letramento Financeiro e desenvolvimento de conteúdo financeiro para escolas e empresas e docente de finanças na PUC-Campinas. Doutor e Mestre em Educação pela PUC-Campinas, com estágio doutoral na Macquarie University (Austrália). Possui MBA em gestão pela FGV/Babson College (Estados Unidos), Pós-Graduação na USP em Política e Estratégia, graduado em Administração com linha de formação em Comércio Exterior e diplomado pela ADESG. Acumulou mais de 20 anos de experiência na área financeira, tendo ocupado o cargo de CFO no exterior. Possui artigos científicos em Qualis Capes A1 e A2 e é colunista do quadro Descomplicando a Economia da Rádio Brasil Campinas.