Erros no currículo são aceitáveis?

Presidente, ministros, governador, cientista e uma diversidade de profissionais têm em comum a apresentação de erros no currículo.

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A ex-presidente do Brasil havia informado que era mestra e doutora pela Unicamp. Em 2009 a instituição de ensino informou que ela foi aluna, mas não defendeu dissertação de mestrado ou tese de doutorado, portanto, os títulos não lhe foram outorgados. Ela errou.

Decotelli não chegou a assumir o cargo de Ministro da Educação. Dizia ter pós-doutorado na Alemanha, mas a sua tese de doutorado na Argentina havia sido reprovada, portanto, nem doutorado tinha. Na sua dissertação de mestrado, há indícios de plágio e a FGV está apurando as denúncias. Ele errou.

Quatro ministros tiveram que se explicar. Damares havia dito em uma palestra que tinha mestrado em Educação e em Direito Constitucional, assumindo depois não ter os graus acadêmicos. Em um artigo publicado em 2012, Salles dizia ter mestrado em Yale, mas explicou que foi um equívoco da sua assessoria de imprensa. Weintraub e Vélez inflaram o currículo com informações não verdadeiras. Erraram.

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O governador do Rio de Janeiro, Witzel, disse que teria feito pós em Cambridge, mas tudo indica ter sido um erro, assim como o da cientista Joana D’Arc Felix que mencionou no seu currículo ter pós-doutorado em Harvard, embora o diploma não existisse.

Erros em currículo são mais comuns do que se possa imaginar. Os mais frequentes apresentados às empresas são sobre as habilidades, níveis de experiência profissional e formação dos candidatos. As pessoas costumam errar o tempo de experiência, os motivos de terem deixado empregos anteriores, conhecimento de idiomas e não é de se espantar, erram inclusive o seu grau de formação.

Em períodos com taxa de desemprego alta, os erros ocorrem com maior assiduidade em função do volume de vagas ofertadas ser menor e a concorrência maior. Os erros geralmente aparecem pela necessidade de ostentar uma experiência que não existe para parecer notável ou um título não conquistado para parecer ilustre.

A questão é que dificilmente um profissional de Recursos Humanos experiente não perceberá esses erros. Um estudo realizado pela empresa americana CareerBuilder apontou que mais da metade dos entrevistados com erros nos currículos foram dispensados. No Brasil, erros no currículo são passíveis de demissão. Em 2017 a Robert Half revelou em pesquisa que 75% dos entrevistadores excluíram candidatos brasileiros que erraram no preenchimento do currículo. Para que o processo seletivo seja mais confiável, algumas áreas estão aderindo à tecnologia blockchain, contratando profissionais com certificação comprovada.

Entendo que aquele que erra no próprio currículo, tem maiores chances de cometer erros também na empresa. É uma questão de índole. Um erro no currículo poderia ser completamente compreensível no passado, mas ele tem sido cada vez menos tolerável.

Tem gente que erra até na autodeclaração étnico-racial em processos vestibulares de universidades públicas. Pela lógica, teria grandes chances de se tornar presidente, ministro ou governador, mas os tempos são outros: comissões estão sendo organizadas para evitar que pequenos erros privilegiem aqueles que cometeram os erros.

Há uma falsa sensação de que esses erros podem garantir vantagem competitiva em relação aos demais concorrentes, mas a verdade é que eles depõem contra o candidato principalmente pela demonstração da falta de ética, um valor que está cada vez mais em evidência.

Já diz o ditado: o erro tem perna curta.

Para o profissional de finanças, que deve preocupar-se com o sigilo e a integridade das informações da empresa, zelar pela conformidade no cumprimento das normas reguladoras, cuidar para que haja transparência nas informações e tratar com equidade as partes, errar no currículo é praticamente um sinal de incompatibilidade para atuar nesse mercado.

Eli Borochovicius

Eli Borochovicius é administrador, doutorando e Mestre em Educação pela PUC-Campinas, com estágio doutoral na Macquarie University, Austrália. Possui MBA pela FGV/Babson College (Estados Unidos) em Gestão e Pós-Graduação na USP em Política e Estratégia. É fundador e professor da moola Educação Financeira, docente de finanças na PUC-Campinas e participa semanalmente do quadro Descomplicando a Economia da Rádio Brasil Campinas.