Novo livro é mais lenha na fogueira da polêmica de autor de “O Capital”

Antecedendo em 10 anos a publicação do seu livro mais famoso, "Economia da Desigualdade" chega ao Brasil e promete trazer mais discussão

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SÃO PAULO – Autor do livro mais comentado e, infelizmente, um dos menos lidos de 2014, Thomas Piketty tem agora um novo livro lançado pela Intrínseca. “A Economia da Desigualdade” foi escrito dez anos antes de “O Capital no Século XXI”, mas é na esteira do polêmico texto que contrapôs keynesianos e liberais e alçou à fama comparável quase à de uma estrela do rock o economista francês, que o texto ganha uma versão em português. 

“A Economia da Desigualdade” traz o embrião de diversas teorias macroeconômicas que depois sustentariam “O Capital” e funciona como uma boa introdução ao pensamento de Piketty. Garimpando uma vastidão impressionante de dados históricos de riqueza e salários, o economista pavimenta o seu caminho de análise dos fatores que produzem a desigualdade social e busca soluções para esta. 

A quem já leu o best-seller do autor vai parecer familiar a citação já na página 26 da famosa curva de Kuznets, teoria segundo a qual a desigualdade seria crescente na primeira etapa do desenvolvimento, quando se incia o processo de industrialização e urbanização para depois passar por uma estagnação e finalmente recuar. A curva, lembra Piketty, era verdadeira para a época em que foi formulada, no pós-Segunda Guerra, quando o mundo se recuperava economicamente, mas tem sido revertida desde os anos 1970. Ou seja, depois da geração baby-boomer, a desigualdade só cresceu.

Assim, depois de mostrar que a desigualdade não é um problema que se soluciona sozinho no longo prazo deixando o mercado se autorregular, ele passa a dissecá-la, buscando soluções possíveis. Analisando a desigualdade na França, ele percebe que ela se dá muito mais no nível das rendas familiares do que nos salários, achando o capital como culpado. Assim, reduzir o rendimento do capital (entendido como a renda obtida com investimentos em imóveis, ações, títulos etc.) e aumentar o rendimento do trabalho por meio de impostos seria, para ele, uma das melhores soluções para a questão da desigualdade. 

A partir daí, ele deixa de lado o pensamento da esquerda tradicional de que uma redistribuição direta seria melhor do que uma tributária usando um conceito chamado substituição capital-trabalho. Velho conhecido dos economistas, mas nem tanto de alguns líderes sindicais, essa substituição capital-trabalho singnifica que um aumento, por exemplo, no salário-mínimo tem como consequência mais frequente um aumento no desemprego do que uma distribuição mais igualitária da renda. Isso ocorre porque as empresas passam a usar menos funcionários e mais capital como máquinas diante de um aumento no custo dos seus empregados. 

Esquerda ou direita? Os dois
É com essa maneira singular de recusar os dogmas tanto da direita quanto da esquerda, que Piketty se torna relevante. Ao transitar entre extremos e buscar pontos em comum, ele cria inúmeros inimigos, mas, ao mesmo tempo, também tira o leitor da sua zona de conforto e o obriga a pensar. E muito. Ainda que seja para discordar de cada ponto levantado pelo livro.

Por exemplo, quanto de desincentivo ao enriquecimento um imposto maior sobre as grandes fortunas e sobre juros e dividendos traria? Em que medida isso não provocaria uma cultura da mediocridade? Quão politicamente perigoso seria aumentar o tamanho do Estado ao nível que o autor propõe? Entre outros questionamentos que suas obras levantam.

Diferenças ao “O Capital”
Embora o tamanho de “A Economia da Desigualdade” – 144 páginas – seja bem menos assustador que o de “O Capital” – 768 páginas – ele pode atrair menos o leitor, já que se foca bem mais na teoria macroeconômica e no debate (o mais correto talvez fosse dizer embate) filosófico entre liberais e marxistas do que em exemplos mais palatáveis buscados na literatura. Quem ler “Economia da Desigualdade” procurando citações a romances de Jane Austen e Balzac, que frequentemente trazem leveza ao “Capital”, ficará desapontado. 

Por outro lado, quem vencer essa dificuldade inicial de leitura pode ser muito bem recompensado nas passagens em que ele relaciona taxas de poupança dos países desenvolvidos e qualidade da educação, ou quando ele fala em como a discriminação pode funcionar como uma falha de mercado, ao desestimular o aperfeiçoamento e trazer desperdício de capital humano. 

Seja para amar ou para odiar, o novo livro de Piketty está aí para dar uma nova oportunidade a quem deseja entender o que já foi pensado sobre a desigualdade. Muitas das soluções trazidas Piketty realmente parecem precipitadas e frutos de inclinações ideológicas, mas suas análises dos problemas nem tanto. E é isso que torna tão rica a leitura das suas obras.  

Título: A Economia da Desigualdade
Editora: Intrínseca
Tradução: André Telles
Número de páginas: 144 
Preço do impresso: R$ 39,90
Preço do Ebook: R$ 24,90 

Equipe InfoMoney