A influência da Copa do Mundo na economia brasileira

A menos de uma semana para o início da Copa do Mundo, o Brasil vive um momento econômico desanimador e com o mercado financeiro volátil e pessimista.

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O assunto ainda diverge não só opiniões entre participantes do mercado financeiro e economistas, como a população de forma geral. Muitos, principalmente governistas e pessoas envolvidas com a organização evento, apontam investimentos em infraestrutura, construções de estádios e aumento no número de turistas que deverão desembarcar no país para assistir ao Mundial, como fatores positivos e que refletirão saudavelmente na economia brasileira. Para outros, os investimentos realizados em infraestrutura são pequenos se observadas às necessidades do país e os baixos investimentos realizados em anos anteriores. Além disso, os mais pessimistas aos impactos positivos que a Copa possa trazer ao país argumentam que os incentivos fiscais concedidos para a construção de Arenas e a isenção de impostos para os organizadores são prejudiciais a economia do país, enquanto que a construção dos estádios, os poucos aeroportos ampliados e as raras vias de acessos construídas, pouco acrescentarão em benefícios ao país.

Recentemente o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse a jornalistas que a Copa do Mundo deve influenciar positivamente o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre, principalmente por conta do crescimento dos setores de comércio e serviços. Ainda segundo o ministro, a lenta recuperação da economia externa, a volatilidade cambial, a inflação crescente e a escassez de crédito são os vilões do fraco desempenho da economia do país nos primeiros meses do ano. Analisando os argumentos do ministro para o fraco desempenho da economia, e considerando as perspectivas para a economia local e externa para o meses de junho e julho em que a Copa será realizada, quais cenários podemos vislumbrar adiante? Será mesmo que a Copa beneficiará a economia brasileira?

Estes e outros questionamentos não são tão simples de responder como possam parecer. Mas se analisarmos somente alguns pontos levantados pelo ministro, provavelmente chegaremos à conclusão de que sim, a Copa provavelmente refletirá positivamente sobre o PIB do país, mas não há motivos para euforia quanto aos benefícios que a Copa possa trazer a economia brasileira em curto, médio ou longo prazo, pois seus benefícios não devem ser significativos.

Os setores citados pelo ministro Mantega como prováveis impulsionadores do PIB por conta do Mundial, realmente deverão ser impactados positivamente, pois participam deles a rede hoteleira, restaurantes, o comércio e o turismo de forma geral. O aumento no número de turistas estrangeiros no período do evento, além da movimentação de turistas nacionais que deixarão suas Cidades e Estados para acompanhar partidas de futebol em outras localidades, contribuirá positivamente para que estes setores possam mais uma vez ajudar o país a crescer. No entanto, há de se frisar que os baixos investimentos em infraestrutura – baixos por que estamos atrasados se comparados a outros emergentes – desmotivaram investimentos privados no país e impedirão que os números dos setores produtivos sejam mais beneficiados pela Copa. O crescimento do PIB por intermédio dos setores citados não deve ser muito animador se analisarmos a expectativa de quem atua diretamente no turismo, na aviação e no comércio.

A ABEOC – Academia Brasileira de Eventos e Turismo acreditava que o país receberia entre 600.000 e 700.000 turistas no período do Mundial. No entanto, a tão pouco tempo do início da Copa, esta estimativa foi reduzida para 300.000 pessoas. Segundo a academia, somente algumas cidades, como Rio e Fortaleza, terão sua capacidade hoteleira totalmente ocupada. Em São Paulo, a principal cidade do País, a ocupação não deve superar 60%. Já na aviação comercial, a expectativa de diretores das maiores empresas do setor, é de que o crescimento será abaixo dos anos anteriores ao do Mundial. Para o comércio, principalmente o de venda de eletrônicos, com destaque para os televisores que costumam vender bem em época de Copa, o aumento das vendas ficará dentro das expectativas de crescimento. Ainda falando do comércio, a famosa Rua 25 de Março no centro de São Paulo, é um excelente termômetro quando se precisa medir o desempenho do comércio em período de eventos importantes, como Natal, Dia das Crianças e Copa do Mundo. E o que se ouviu de lojistas no fim do mês de maio, é que a menos de 15 dias pra a estreia do Brasil as vendas decepcionavam e a esperança estava na velha máxima de que o brasileiro deixa tudo para a última hora. Apesar da esperança do ministro de que estes setores possam impulsionar o PIB, os pesos dos gastos potenciais dos turistas não deverão refletir tão significativamente no Produto Interno Brasileiro. Além disso, os investimentos em infraestrutura ligados ao evento são baixos se levarmos em consideração as décadas de baixíssimo investimento, o que faz com que as obras realizadas sejam incapazes de aliviar os gargalos estruturais da nossa economia.

Além disso, os meses de junho e julho trarão agendas carregadas de indicadores econômicos ao redor do mundo, indicadores que não devem apresentar mudanças significativas na economia global. Junte a isso a redução do fluxo estrangeiro decorrente das férias no hemisfério norte, das “paradas programadas” em dias de jogos, as greves que vêm se avolumando com a proximidade da Copa e pronto, temos um cenário pessimista para o período do Mundial.

Por mais otimista que o ministro Mantega esteja, o desempenho econômico brasileiro deve continuar decepcionando, pois mesmo que a Copa seja um sucesso dentro e fora dos gramados, a questão fiscal e a inflação seguirão preocupando, assim como o risco de racionamento elétrico que pode voltar a incomodar, além da crise hídrica vivida pelo Estado com maior PIB da nação.

Diante de tudo o que foi exposto acredito que a Copa não alterará a fraca evolução da economia brasileira. Isso, aliado ao menor fluxo de investidores estrangeiros, me faz acreditar que no período de Copa do Mundo a BOVESPA terá um desempenho fraco e desanimador.

Edgar de Sá