AO VIVO Analista Charlles Nader explica estratégia para ter consistência na Bolsa

Analista Charlles Nader explica estratégia para ter consistência na Bolsa

Veja os erros do líder que resiste em formar novo time e carrega antiga equipe

Na opinião de diretor da BPI no Brasil, o grande líder descobre novos talentos em equipes consolidadas

SÃO PAULO – Cenário: sala típica de alto executivo, mesa grande com papéis e pastas espalhadas e outra mesa redonda de reunião à frente. Sentado atrás dela está um senhor, sênior diretor. A sua frente e de lado para a platéia, há um jovem, com cara e roupa de executivo. Nota-se uma clara relação chefe – subordinado e uma certa dificuldade de relacionamento e comunicação. O jovem tem menos de seis meses no cargo.

Diretor: E então? Como vão as coisas?

Jovem executivo: Bem, o Senhor sabe… A turma é meio fraquinha, estou tendo dificuldades em impor meu jeito, dar velocidade. Eu até queria falar mesmo com o senhor. Gostaria de poder trazer minha equipe anterior. Afinal, eles sabiam trabalhar comigo… O que o senhor acha?

Diretor: Meu rapaz, bons líderes não arrastam velhas equipes, montam novas, formam novos talentos.

O diálogo foi elaborado pelo professor do Ibmec-SP e consultor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gilberto Guimarães, que também dirige a BPI no Brasil, consultoria européia especializada em processos de mudanças.

Medo do novo

Desmontar toda uma equipe para trazer os antigos colegas de trabalho é uma tentação. E muitos não resistem, segundo Guimarães. “É muito, muito comum mesmo”. Ele mesmo conta que já fez isso. Mas diz que aprendeu, ao longo dos anos, que não é a melhor saída.

“Aprendi, na minha vida, como líder, que arrastar antigas equipes não é bom. A nova equipe já tem a cultura da empresa e o ideal é que o executivo assimile o novo ambiente e o desafio”, explica.

Segundo ele, líderes trazem antigas equipes por dois motivos. O primeiro é a necessidade de ter alguém em quem confiar. “Imagine se você teve, durante anos, uma pessoa que cuidava de suas contas e compromissos, que sabia o número de sua conta no banco e lembrava das datas de aniversário de seus parentes, colegas e amigos. Sem ela, será complicado, em qualquer empresa”, exemplifica.

A outra razão é a insegurança. “Muitas pessoas fazem questão de acabar com a nova equipe e trazer a velha, não porque confiam em seus antigos colegas, mas porque desconfiam de si próprio, de sua capacidade enquanto líder de se adaptar às novas pessoas e às novas regras do jogo. Estamos falando de um sentimento parecido com o de uma criança que muda de escola e não conhece ninguém. É duro almoçar com estranhos. Nem todo mundo tem a coragem de dar a cara para bater”.

Atitude acarreta perda de oportunidade

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Na opinião do consultor de carreira da Catho, Renato Waberski, demitir os novos subordinados para contratar a antiga equipe tem mais conseqüências negativas do que positivas. “Acaba sendo bastante comum, mas é sempre importante deixar o velho para trás. Fora a insegurança que irá gerar na diretoria – já que as atividades que eram desenvolvidas de uma forma serão feitas de outra – o líder perderá a oportunidade de conhecer e formar novos talentos”.

Ele defende a tese de que o líder pode, literalmente, reinventar sua carreira com o novo time. “É uma situação que ele precisa vencer. Pelo menos aos meus clientes mostro esse caminho. A mudança é uma maneira de reinventar a si mesmo enquanto profissional e a carreira. Não se pode perder a oportunidade”.

É importante ressaltar ainda que as pessoas que já trabalham há algum tempo na empresa têm a memória da organização, o que diminui as chances de o novo executivo cometer os mesmos erros do passado. Isso sem falar que, ao trazer a antiga equipe, ele fechará as portas da organização para a qual trabalhava, que pode ficar desfalcada.

Mas não há apenas conseqüências negativas: de acordo com Guimarães, pode ser bom trazer a antiga equipe, se o executivo estiver fazendo isso porque tem certeza de que os resultados serão melhores dessa maneira, e não porque está inseguro.

O ideal, segundo especialistas

Na opinião do diretor da BPI no Brasil, o grande líder descobre os talentos na empresa para a qual foi trabalhar. “Não precisa desmontar a equipe. O grande líder é aquele que forma grandes equipes, descobre novos talentos e tem o dom de descortinar as competências nas pessoas. Ele pode até ter uma surpresa e encontrar pessoas até melhores”. Waberski concorda. “É importante ter como meta formar uma nova equipe”.

Guimarães acrescenta que é possível demitir alguém após um certo tempo de avaliação da equipe herdada. “O líder pode mapear quem é quem na equipe por meio de uma conversa com a área de Recursos Humanos e, depois de dar uma chance a todos, demitir aquele que não está adequado aos objetivos da empresa”, recomenda.