Estudo global da Adecco

Trabalho híbrido: um ano e meio após o início da pandemia, modelo remoto é desejo de 71% das pessoas, mostra estudo

Apesar das expectativas, ainda há uma série de desafios como a saúde mental, a gestão à distância e a legislação

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Homem trabalhando em casa no estilo home office
(iStock/Getty Images)

SÃO PAULO – Depois de um 2020 atípico para os profissionais por causa da pandemia de coronavírus e a transformação do modelo de trabalho padrão devido ao isolamento social, o modelo híbrido está consolidado como opção real no formato de trabalho. Pelo menos é o que diz uma pesquisa da consultoria global de RH Adecco feita em junho deste ano, a qual o InfoMoney teve acesso com exclusividade.

Na média geral, dos entrevistados que tiveram a experiência do home office em algum grau desde março do ano passado, 71% deles afirmam que querem trabalhar mais no formato remoto do que trabalhavam em 2019 será importante para eles no futuro, no pós-pandemia.

A pesquisa também fez uma análise considerando todos os entrevistados, incluindo também quem não teve a experiência do remoto: no geral, as pessoas querem passar 53% da semana trabalhando de forma remota, seja híbrido ou totalmente de casa, após a pandemia, e 47% do tempo no escritório.

Ao quebrar os dados por geração, os entrevistados da geração Z (nascidos entre 95 e 2010) preferem mais tempo no escritório (56%) na comparação com os Baby Boomers, quem possui mais de 60 anos, (44%).

“O que é bem evidente é que os jovens no começo de carreira sentem mais falta da socialização, do dia a dia de observação do trabalho dos colegas e líderes, o que explica essa necessidade de estar no escritório mais tempo do que os profissionais experientes, considerando que a adaptação ao modelo remoto foi um sucesso ao redor do mundo”, diz André Vicente, diretor geral da Adecco Brasil.

A pesquisa foi feita em 25 países, incluindo o Brasil, com 14.800 pessoas, que responderam um questionário de cerca de 15 minutos de duração.

Ainda, considerando todos os entrevistados e separando por países o desejo pelo modelo híbrido é latente: os profissionais de todos os países querem passar, pelo menos, 40% da semana de trabalho trabalhando de casa – com exceção da China. Por lá, apenas 23% dos entrevistados têm esse desejo.

Do outro lado, em países como Japão, Reino Unido, Canada e Espanha esse desejo gira em torno dos 60%. Nesse recorte, o Brasil está no grupo Latam, de países da América Latina, cuja média é de 54%.

“Há aprovação universal do modelo híbrido e flexível de trabalho. Os resultados mostram que o trabalho híbrido não é um efeito temporário, mas uma expectativa para os trabalhadores do pode ser o ‘novo normal'”, diz o estudo.

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De fato, quando questionados sobre um ambiente de trabalho em casa 71% do total dos entrevistados afirmam terem encontrado um espaço organizado de trabalho em casa. Em países como Estados Unidos, Austrália, Suíça e Brasil a média chega a 80%.

A fim de aprofundar os efeitos do modelo híbrido, vale lembrar que uma outra pesquisa do LinkedIn detalha os motivos daqueles que preferem trabalhar em casa: evitar o transporte diário para chegar aos escritórios (45%), ter uma vida profissional mais balanceada (45%), ser mais produtivo(a) (33%), manter a saúde mental em dia (31%) e facilitar o cuidado com os filhos, já que não há a necessidade de estar presencialmente 100% do tempo (20%). Essa pesquisa foi feita no Brasil com 1.000 pessoas e divulgada nesta quinta-feira (16).

Desafios

Embora a experiência seja positiva para muitos profissionais, o trabalho híbrido traz alguns desafios:

  • Saúde mental

Outro ponto muito discutido diante do avanço da pandemia ao redor do mundo foi o equilíbrio emocional dos profissionais. A síndrome de burnout ganhou ainda mais espaço. Com as pessoas trabalhando de casa, houve uma dificuldade em organizar a rotina para manter a produtividade, o que levou a mais horas de trabalho.

De acordo com o estudo houve um aumento de 14% na jornada de trabalho desde o início da pandemia e com isso 63% dos entrevistados afirmam que trabalharam mais de 40 horas por semana nos últimos 12 meses.

Do total de entrevistados, 33% dizem que sentiram uma piora na saúde emocional nos últimos 12 meses. No Brasil, a média é bem maior: 43% dos entrevistados afirmaram isso.

Cerca de 40% dos entrevistado admitem se preocuparam com a síndrome de burnout diante do ritmo de trabalho. 

“Em casa, é difícil controlar o horário, ter controle de disponibilidade, e há a sensação de que precisamos ficar online o tempo todo. Uma coisa é a vantagem da flexibilidade de trabalhar em casa, e outra é a gestão do tempo e da rotina ao ficar em casa. Há um desafio em organizar as tarefas, mesmo para quem gosta de trabalhar de casa”, diz Vicente.

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Mesmo um ano e meio desde o início da pandemia, não há um ultimato para aqueles que ainda estão tentando se adaptar, segundo ele. “Sempre é tempo de se organizar e gerir melhor o tempo, priorizando algumas tarefas e separando um tempo para si mesmo”, diz.

Segundo ele, as empresas vão ter um papel importante no auxílio do equilíbrio trabalho-vida. “Coisas como estabelecer horários para reuniões, dias de folga, benefícios de bem-estar e limites para responder mensagens, por exemplo, são coisas que as empresas podem incorporar como cultura para ajudar as pessoas a se organizarem”, acrescenta o executivo.

  • Gestão de equipe 

Gerentes, líderes e executivos enfrentaram uma curva de aprendizado acentuada no ano passado em relação à gestão de times com novas formas de o trabalho e as expectativas em relação à performance diante da crise.

Segundo o estudo, uma lacuna de habilidades sociais foi descoberta diante dos desafios da gestão. A liderança, desenvolvimento e aprimoramento de performance precisaram ser conectados com uma gestão da inteligência emocional como nunca antes.

“Em um momento em que estamos constantemente conectados, os trabalhadores nunca sentiram mais desconectados. Líderes precisam ter a chave para reconectar os funcionários e reinventar a cultura da empresa. No entanto, há uma grande desconexão entre visões de gestão e as opiniões de funcionários. A motivação, senso de equipe e a cultura regrediram desde 2020, o que pode ser uma ameaça ao sucesso para alguns negócios”, diz o estudo.

Globalmente, as relações entre a equipe e seus os líderes pioraram, com menos da metade dos não gerentes (45%) sentindo que seu relacionamento é bom, 17 pontos percentuais (p.p.) abaixo do que o observado em 2020. E apenas um terço (33%) dos funcionários que não têm cargos de gestão sentem que estão recebendo o devido reconhecimento por suas contribuições dentro da empresa.

A maioria dos trabalhadores (74%) afirma que é importante que os gerentes promovam a cultura da equipe. Porém, do grupo e entrevistados que não têm cargos de gestão, apenas 37% sentem que seus líderes estão conseguindo encorajar um bom trabalho, um ambiente engajado e uma cultura colaborativa.

Além disso, embora a motivação dos profissionais esteja em nível alto, apresentou uma diminuição de 13 p.p. em relação à 2020: cerca de dois terços (64%) dos entrevistados em todo o mundo se dizem motivados.

  • Legislação 

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Ainda, vale lembrar que no Brasil não existe uma legislação sobre o trabalho híbrido, por enquanto. As empresas estão se ajustando em termos de contrato e pagamentos entre o modelo de trabalho remoto 100% e o modelo presencial — ambos previstos na CLT.

O InfoMoney fez uma reportagem recente que detalha os desafios de implementação e as expectativas de advogados sobre o tema.

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