Teste vocacional não é suficiente a estudantes indecisos, dizem psicólogos

"A escolha da profissão exige uma análise mais profunda", opina a psicóloga Rosemary Araújo

SÃO PAULO – O Anglo Vestibulares não aplica teste vocacional nos pré-vestibulandos. Para a instituição, o método é ultrapassado e não funciona. A mesma opinião é compartilhada pelo psicólogo-clínico Maximiliano Rezende, professor da PUC há 32 anos. Ele trabalha no setor de orientação profissional do Anglo há dois anos e, com base na experiência que teve até o momento, pode afirmar que o tradicional teste não passa de uma prática de “bom sendo disfarçado”.

Ele explica que o teste avalia interesses e talentos dos estudantes, mas não reflete o que ele deseja para si ou a situação do mercado de trabalho, que, nos dias de hoje, deve ser levada em conta. “É um método caro, que demora. Ou seja, ele exige investimento e tempo, para, no fim, o resultado não dizer muita coisa”, explica.

Teste auxiliar

Para a psicóloga Rosemary Araújo, que trabalha com orientação vocacional há 17 anos, o teste vocacional é apenas um “auxiliar”. “A escolha da profissão exige uma análise mais profunda”, esclarece.

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Ela, por exemplo, orienta alunos por meio de cinco etapas: entrevista (para saber como é a vida do estudante e como foi sua educação), pesquisa de dados sobre as profissões, teste vocacional, teste de personalidade (aqui é avaliado o perfil profissional da pessoa) e entrevista final, para saber se o resultado está de acordo com as expectativas.

“Outro dia, dei orientação a uma moça que tinha tudo para ser médica. Era o que ela queria e, por ser inteligente, acredito que passaria na faculdade. Entretanto, no teste psicológico, ficou claro que ela não conseguia trabalhar sob pressão, característica inerente à profissão de médico. Como o curso de medicina é demasiadamente puxado, ela provavelmente desistiria da faculdade”, conta Rosemary.

Para ela, um dos principais problemas é que, no Brasil, os jovens são obrigados a escolher muito cedo o que farão teoricamente para o resto de suas vidas. “A decisão é tomada em uma idade de inseguranças, na qual poucos possuem maturidade emocional. A maioria nem se descobriu direito, por isso recomendo buscar orientação.”

Vale a pena?

Mais importante do que fazer o teste vocacional é se conhecer, saber o que quer para si e saber da situação da profissão. “Não é mais possível ser idealista. Os estudantes precisam conhecer a realidade. Não adianta se formar em uma área na qual apenas 10% das pessoas conseguem emprego, da mesma maneira que uma pessoa ambiciosa não pode escolher um mercado no qual os profissionais são mal remunerados. Além disso, o idealismo ‘cega’ a pessoa, que pode não conhecer como de fato é o dia-a-dia de um profissional da área almejada”, afirma o psicólogo-clínico do Anglo.

Por conta das citadas deficiências, Rezende conta que o teste vocacional foi substituído pela orientação profissional, serviço que está crescendo no Brasil. Essa orientação é baseada em bancos de dados com informações precisas e realistas das mais diversas áreas. “Assim, é possível saber se há vagas sendo abertas na área selecionada e quanto ganham os profissionais. Além disso, o método proporciona a comparação com outras profissões”, explica.

Sua principal crítica ao teste vocacional é o fato de ele “disfarçar” a falta do auto-conhecimento da pessoa. “Quem procura um teste desses, na verdade, está procurando ajuda de maneira implícita. Geralmente, são adolescentes que passam pelas conhecidas crises existenciais, mas não têm coragem de pedir ajuda explicitamente.”

Dica

Para fazer a escolha correta, o psicólogo recomenda tentar conhecer profissionais da área e conversar com os mais velhos. “Ter contato com os pais dos amigos, os professores e outras pessoas, das mais diversas áreas, ajuda no processo decisório”, completa o psicólogo do Anglo.

Já Rosemary adverte que, atualmente, os jovens estão preferindo profissões que remuneram bem. Entretanto, o mercado muda, isto é, profissões que são rentáveis hoje podem não ser amanhã. Além disso, a escolha guiada pelo dinheiro acarreta em desmotivação. “O jovem provavelmente será um profissional mediano ou infeliz. O dinheiro é desmotivante, mas não motiva, ou seja, quem faz o que gosta, mas ganha pouco, poderá se sentir desmotivado, porém quem não faz o que gosta e ganha extraordinariamente bem continuará desmotivado.”