Superproteção familiar pode prejudicar autonomia de executivos, diz especialista

Para professor, jovens acostumados à segurança familiar costumam ter mais dificuldades em lidar com desafios nas empresas

SÃO PAULO – Os jovens executivos de empresas, especialmente os que tiveram uma infância e adolescência repleta de cuidados excessivos dos pais, costumam apresentar mais dificuldade para lidar com os desafios do dia a dia nas empresas em que atuam. Ao menos é nisso o que acredita o professor da Faculdade FIA de Administração e Negócios e especialista em liderança corporativa, Alfredo Behrens.

Segundo ele, os profissionais superprotegidos costumam ser mais acomodados que os demais e têm menos confiança para sair das chamadas ‘zonas de conforto’. “É como se tal proteção familiar tivesse privado o profissional do confronto diário, ocasião em que um jovem costuma não apenas medir sua força, mas também adquirir segurança para enfrentar os desafios do cotidiano”, explica.

Falta exposição
Quem também compartilha dessa opinião, mas de modo diferente, já que não culpa unicamente a superproteção dos pais, é a professora de Psicologia Organizacional e do Trabalho da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, Carmen Lúcia Arruda Rittner.

PUBLICIDADE

Para ela, este comportamento costuma ser motivado pela realidade em que tais jovens estão inseridos atualmente, afinal, por estarem constantemente cercados pela tecnologia, eles costumam ser cada vez menos expostos à situações de conflito.

“Não se trata de uma superproteção familiar propriamente dita, mas, sim, do intuito de oferecer oportunidades diferenciadas que proporcionam uma baixa tolerância à situações de estresse e conflito”, diz Carmem.

Nas empresas
E, se falta exposição no dia a dia, imagine para lidar com as situações de estresse nas empresas? De acordo com Carmem, por exemplo, não é raro encontrar profissionais que tenham dificuldade em assumir certas responsabilidades dentro das organizações.

“Os jovens que se enquadram em tais características costumam deixar para o outro a responsabilidade para a solução de conflitos. Eles não assumem a total responsabilidade por situações que envolvam diferentes posições politícas ou mesmo de ideias, por conta dessa dificuldade de certezas”, explica a profissional.

O problema, no entanto, não costuma ser encontrado na mesma proporção nas classes sociais menos favorecidas, já que a maioria dos jovens destas camadas sociais costuma trabalhar desde muito cedo.

“Eles são obrigados a se socializar sem regras e a exercer diversas funções para garantir a própria sobrevivência. Essas pessoas lutam todos os dias e, com isso, se tornam mais competitivas e espertas”, esclarece Behrens.

PUBLICIDADE

Qualificação
Mas engana-se quem imagina que apenas isso seja o suficiente para garantir boas oportunidades no mercado de trabalho brasileiro, afinal, se por um lado sobram caráter e vontade de crescer aos profissionais desta classe social, por outro falta qualificação, e muita.

“Essas pessoas normalmente não possuem qualificação técnica em gestão. Além disso, as empresas buscam profissionais que saibam outros idiomas, o que fatalmente acaba restringindo as oportunidades disponíveis aos profissionais de universidades particulares”, explica Behrens. Mas nem tudo está perdido, segundo o professor.

Para ele, muita coisa poderia mudar se, ao invés de apostar em profissionais sem garra, os empresários oferecessem oportunidades e treinamento aos que já a possuem. 

“Uma solução viável seria a realização de um trabalho conjunto entre escolas de negócios e empresas para o treinamento e qualificação de profissionais de classes sociais menos favorecidas, gerando, além de uma inclusão social, um executivo com mais garra”, diz.