Seria o Macunaíma? Especialista desvenda perfil do profissional brasileiro

Um lado positivo é a criatividade. As pessoas se acostumaram a resolver problemas que o governo não resolve

SÃO PAULO – Dizem que Mário de Andrade desvendou o Brasil com Macunaíma, o anti-herói preguiçoso e malandro, que sempre conseguia o que desejava. Se Macunaíma é o arquétipo do brasileiro, representaria então os profissionais do mundo corporativo?

Para o diretor executivo do Insadi, Dieter Kelber, o povo brasileiro é alegre, flexível, indolente – porque nunca passou por guerras e catástrofes naturais de grande proporção – e miscigenado.

“E o calor é danado”, lembra. Povos que vivem em regiões quentes, no geral, têm menos pique do que as populações inseridas em temperaturas mais amenas. Pode ser também influência do clima o gosto por festas e pelo Carnaval.

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Estas são características gerais. É importante ressaltar que este é um País de proporções continentais e que cada região apresenta suas peculiaridades. “Cada parte do País tem um ritmo de vida diferente”, explica Kelber.

O perfil

Aceitar ordens o tempo todo, sem questionar, é uma característica comum entre brasileiros. Para o diretor, pode ser resquício do espírito de colônia. “Por isso, as empresas carecem de líderes inovadores, que sejam mais do que simples gestores”.

Outra característica: o brasileiro adora comprar estrangeirices, principalmente costumes e crenças americanos. Pode ser por isso que muitos dos executivos sejam oriundos de universidades do exterior. “Os executivos adoram estudar em Harvard”.

Existem muitas exceções, mas, Brasil afora, percebe-se que este povo se contenta com pouco e facilmente se acomoda. “Se o sujeito ganha R$ 1,5 mil e passa a ganhar R$ 3 mil, se dá por satisfeito. Ele poderia não se acomodar e lutar para ganhar R$ 20 mil, mas não o faz”, explica. Isso pode estar atrelado à aversão ao risco, típica dos brasileiros. “A massa da população ainda não percebeu que a vida é um risco. Daí a surpresa quando algo dá errado. Há quem até evite o risco por medo de se frustrar”.

Criatividade e paternalismo

Um lado positivo dos profissionais que nasceram por aqui é a criatividade. “As pessoas se acostumaram a resolver problemas que o governo não resolve. Elas adoram inventar novidades, empreender. Se algo não funciona bem, tentam melhorar”.

Por outro lado, o brasileiro prefere empresas com gestão paternalista. “A população exige um governo paternalista. Por isso, enquanto em todo o mundo as ferramentas de proteção trabalhista diminuem, no Brasil, aumentam”.

A necessidade de paternalismo se reflete no dia-a-dia do trabalho: a não ser que a pessoa tenha sofrido bastante influência de outras culturas, por meio de sua família, é comum que necessite de regras explícitas. “O brasileiro espera que alguém diga a ele o que fazer, como e quando”, diz Kelber.

Espelhando-se em outros povos

No embate com culturas europeias e asiáticas, a brasileira perde nos quesitos disciplina e capacidade de planejamento. “Suecos, alemães e japoneses são planejadores por natureza”, afirma Kelber.

Outro quesito em que o brasileiro deixa a desejar diz respeito ao reconhecimento dos próprios erros. Então voltamos ao Macunaíma. “Alemães, por exemplo, reconhecem os próprios erros, mas são duros com os erros alheios. Já os japoneses reconhecem seus erros, mas, com relação ao erro alheio, tendem a ser mais tolerantes e a dar uma segunda chance. Agora, ao brasileiro, falta humildade para admitir erros. Sempre há uma desculpa. O atraso é culpa do trânsito. O trabalho foi entregue após o prazo, porque alguém da equipe não colaborou…”, revela o diretor do Insadi.