Sem ilusão com dados positivos: recuperação se sustenta em fatores reais

Se não despencam mais, mercados buscam referências para consolidar retomada; indicadores podem enganar

SÃO PAULO – Em meio aos espasmos de crescimento e ondas de desconfiança, os mercados buscam nos indicadores de atividade a confirmação da retomada. De acordo com analistas, se a queda livre foi interrompida, a chave para a recuperação sustentada pode estar em dados menos evidentes, como custo de insumos e mão-de-obra.

Até o momento, os investidores acompanham com atenção o fim da “sensação de algo despencando do penhasco”, como definem os analistas Dalton Gardimam e Denis Blum, da Bradesco Corretora. Mas nem mesmo a presença de alguns dados positivos isolados – os chamados “green shoots” -, passa a certeza da retomada.

Retomada do crescimento

De modo análogo, o economista Eugenio Aleman, do banco Wells Fargo, avalia que nem mesmo dados muito positivos sobre a atividade serão capazes de sacramentar a retomada do crescimento. “A verdade é que é apenas isto, uma retomada de um nível muito baixo”, afirma.

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Os números podem até parecer com os de uma forte recuperação, mas a confusão é desfeita ao serem comparados com os dados anteriores à crise. Ademais, como ressaltam os analistas, a característica momentânea dos dados positivos é também reflexo de um dos motores que a impulsionam – os estímulos monetário o fiscal.

“Importante é entender o que acontecerá quando esses dois componentes da retomada desaparecerem”, afirma Aleman. Cedo ou tarde, os governos devem reduzir os desembolsos emergenciais, assim como recuar gradualmente nos estímulos monetários, tanto em relação ao juro básico quanto ao afrouxamento quantitativo.

Para onde olhar?

Para além da maquiagem e dos estímulos temporários, “o que devemos analisar são seus mecanismos intrínsecos”, ressaltam os analistas da Bradesco. A sugestão é que os investidores atentem para os salários reais, juros finais e preços de commodities, como indicadores de uma possível recuperação sustentada. “Se não caírem, (…) a tendência é não haver recuperação, ou ela ter dias contados”, destacam.

Na mesma linha, o analista do Wells Fargo afirma que “dependeremos mais da elevação de produtividade, em fatores reais econômicos”. Deste modo, a recuperação deverá enfrentar fortes restrições, uma vez que o cenário aponta para a manutenção de consumo frágil e restrições à expansão do crédito. “Somos obrigados a não compartilhar do elevado grau de otimismo observado nos mercados”, afirmam os economistas da Bradesco Corretora.