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Se 2025 foi o ano em que a disputa por profissionais qualificados ficou escancarada, 2026 deve consolidar o que especialistas em recursos humanos chamam de “mercado de candidato”. Isso ocorre quando o desemprego atinge patamares tão baixos que as empresas, pressionadas por ganhos de eficiência e transformação digital, passam a negociar de outra forma e os trabalhadores assumem maior poder nas conversas, podendo ser mais seletivos sobre salário, benefícios, propósito e modelo de trabalho.
O resultado é uma batalha por talentos em que a tecnologia pesa, mas o diferencial decisivo costuma ser o humano, de acordo com especialistas ouvidos pelo InfoMoney.
Neste cenário, quem souber usar ferramentas como Inteligência Artificial (IA) para resolver problemas reais do negócio, se comunicar e negociar com precisão, além de conseguir trabalhar sob pressão, pode se dar muito bem na carreira, como mostra o mais recente levantamento da consultoria Robert Half.
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O Guia Salarial 2026 projeta salários iniciais e aponta um “combo” mais valorizado em praticamente todos os setores: digitalização, eficiência operacional e competências comportamentais. Em outras palavras, não basta saber apertar botões, é preciso saber por que apertá-los e o que fazer com o resultado.
Segundo o gerente de negócios da Robert Half, Müller Gomes, a pesquisa sobre carreiras é realizada há 70 anos em todo o mundo e há 18 anos no Brasil, indicando as principais tendências do mercado. “E o que aparece é que hoje é inevitável que se fale em tecnologia, mas agora aplicada ao negócio, incluindo o uso de inteligência artificial. É fundamental que os profissionais tenham conhecimento para atrelar essa tecnologia ao trabalho”, explica, dando como exemplo sua própria trajetória: quando estudou psicologia nem pensava que precisaria de tecnologia para atuar na área de recursos humanos, mas hoje as ferramentas são essenciais para selecionar candidatos.
Ao mesmo tempo, há um movimento de maior seletividade em parte das organizações, com contratações mais cirúrgicas e com mais negociações salariais, especialmente para cargos de alto escalão. A lógica é simples: se a companhia está em modo defensivo, ela contrata menos e escolhe melhor, diferente de quando está em modo ofensivo e precisa acelerar para garantir os perfis que sustentam crescimento e produtividade. É por isso que, nessa lógica, convivem congelamentos pontuais e ofertas agressivas para funções críticas.
Termômetro
Um dos termômetros desse “duplo jogo” é a alta liderança. Segundo outra pesquisa, feita pela consultoria Michael Page, a remuneração fixa média de presidentes e diretores executivos no Brasil ficou estável pelo segundo ano consecutivo, refletindo incertezas políticas e econômicas. A estabilidade, porém, não significa comodidade, segundo a empresa, mas sim cobrança por entrega, liderança em transformação digital e capacidade de engajar times em contextos complexos. Em 2026, o recado para executivos é “menos reajuste automático, mais prova de valor”.
Para os outros níveis do mercado, a rotação deve continuar alta. Um levantamento feito pela Catho aponta que mais de 40% dos profissionais pretendem migrar de carreira em 2026, e os gatilhos da mudança vão além do contracheque, incluindo plano de carreira, qualidade de vida, ambiente saudável e benefícios, que ganharam peso como critério real de decisão.
Na prática, o processo seletivo virou uma via de mão dupla: empresas avaliam candidatos, mas candidatos também “entrevistam” empresas, segundo a Catho.
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Onde estarão as melhores oportunidades?
Em tecnologia, o apetite segue forte em educação, indústria e mercado financeiro, com demanda por segurança da informação, arquitetura e desenvolvimento, cloud computing, dados e IA.
O ponto novo é que o mercado cobra tecnologia “aplicada”: automação que reduz tarefas repetitivas, agentes de IA que aceleram análises e decisões, e sistemas que melhoram experiência do cliente e controle de riscos.
Por isso, engenheiros de Inteligência Artificial aparecem entre os cargos mais bem remunerados fora do C-level, com faixa de R$ 19.500 a R$ 27.100, enquanto um CIO pode variar de R$ 32.000 a R$ 53.600, a depender do porte e do desenho da função, de acordo com a pesquisa da Robert Half.
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Números e dados
Em engenharia, existe ainda um vento a favor com a chegada de várias indústrias, especialmente as chinesas, ao setor automotivo, infraestrutura, máquinas e equipamentos, além de energia, segundo Gomes.
O destaque fica para funções que conectam chão de fábrica e estratégia: melhoria contínua, gestão de projetos e processos, qualidade e aplicação/vendas (a engenharia “que vende solução”). A faixa executiva de Diretor(a) de Supply Chain/Suprimentos pode ir de R$ 28.900 a R$ 54.950, e o(a) Engenheiro(a) de Aplicação/Vendas figura com remuneração entre R$ 10.000 e R$ 19.650.
Em vendas e marketing, a tendência é a profissionalização da venda consultiva, com uso de dados, automação e IA para prospectar melhor, precificar com mais inteligência e aumentar carteira. Nesse universo, a remuneração cresce para quem sabe combinar negociação, inteligência de mercado e execução.
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Um(a) Analista de Inteligência de Mercado, por exemplo, aparece entre R$ 6.600 e R$ 14.800, refletindo o valor de traduzir sinal fraco em decisão forte.
Na área jurídica aparece em rota de alta, com procura por trabalhista, tributário consultivo e M&A, especialmente onde há logística e cadeias complexas, além de impacto da Reforma Tributária e da adoção de IA no fluxo de contratos e pesquisa.
A mensagem é parecida com as demais áreas: quem fala “juridiquês” sozinho perde espaço; quem traduz risco em decisão de negócio ganha cadeira.
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Mas talvez o traço mais importante do mercado de 2026 não seja uma profissão específica, e sim o tipo de profissional que sobe: aquele que aprende rápido, muda rápido e prova valor rápido. Müller Gomes resume esse clima ao apontar que o retorno ao trabalho presencial virou ponto de atrito, mas não necessariamente um impeditivo: muita gente aceita voltar, desde que a troca faça sentido, e isso costuma se traduzir em aumento e benefícios.
“Para as empresas, a equação fica mais cara e mais complexa, porque atrair é só metade do trabalho: reter exige cultura, liderança, clareza de carreira e pacote de valor coerente.”
A estratégia em 2026 é dominar tecnologia útil para a sua função, entender como o seu trabalho impacta receita, custo ou risco, fortalecer competências de comunicação e negociação, e, quando possível, tirar o inglês do modo “leio e escrevo” e levar para o modo “conduzo reunião”.
Leia Mais: Mapa do inglês: proficiência no idioma reflete desigualdade característica do Brasil
Veja abaixo alguns dados da pesquisa da Robert Half em várias áreas:
| TECNOLOGIA |
| – Segmentos que mais contratam: Educação; Indústria; Mercado Financeiro |
| – Cargos em alta: Analista de Segurança da Informação; Analista de Segurança da Informação; Analista de Sistemas, Arquiteto(a) de Software |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Cloud; Data Science e Gerenciamento de Banco de Dados; Administração de Redes; Desenvolvimento de Software e Aplicações. |
| – Competências que garantem salários acima da média: Segurança da Informação e Gestão de Riscos de TI; Desenvolvimento de Software e Aplicações; Inteligência de Mercado de Relatórios, Cloud; |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em cadeiras executivas: CIO – Chief Information Officer: de R$ 32.000 a R$ 53.600 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: Engenheiro(a) de Inteligência Artificial: de R$ 19.500 a R$ 27.100 |
| VENDAS E MARKETING |
| – Segmentos que mais contratam: Alimentos e Bebidas, B2C, Energia |
| – Cargos em alta: Analista de Vendas Internas (Inside Sales); Coordenador(a) de Marketing, Gerente de Marketing |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Prospecção e Negociação; Análise de Dados; Inteligência Artificial; Gestão de Projetos |
| – Competências que garantem salários acima da média: Análise de Dados; Negociação Estratégica; Inteligência Artificial; Automação |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em cadeiras executivas: Gerente Geral: de R$ 34.150 a R$80.950 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: Analista de Inteligência de Mercado: de R$6.600 a R$14.800 |
| ENGENHARIA |
| – Segmentos que mais contratam: Automotivo; Infraestrutura; Máquinas e Equipamentos |
| – Cargos em alta: Gerente de Melhoria Contínua; Gerente de Projetos; Gerente de Contratos; Engenheiro(a) de Processos |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Gerenciamento de Melhoria Contínua; Controle e Garantia de Qualidade; Gestão de Projetos; Aprendizado de Máquina |
| – Competências que garantem salários acima da média: Engenharia de Sistemas e Redes; Gestão de Inovação; Desenvolvimento de Software; Análise de Dados e Big Data |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em cadeiras executivas: Diretor(a) de Supply Chain/Suprimentos: de R$ 28.900 a R$ 54.950 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: Engenheiro(a) de Aplicação/Vendas: de R$ 10.000 a R$ 19.650 |
| MERCADO FINANCEIRO |
| – Segmentos que mais contratam: Asset managers; gestoras independentes e fundos de private equity, Bancos digitais e fintechs (pagamentos, crédito, carteiras digitais) |
| – Cargos em alta: Analista de M&A; Associate em Risco de Mercado e Crédito, CFO |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Finanças Corporativas; Gestão de Riscos Financeiros; Idiomas; Regulamentação Financeira |
| – Competências que garantem salários acima da média: Aplicações de IA Generativa; Conhecimento da Reforma Tributária; Análise Financeira Estruturada para Mercado de Capitais, Idioma |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em cadeiras executivas: Sales Trader – Diretor(a) Executivo(a): de R$ 56.750 a R$ 86.600 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: Especialista de ESG: de R$ 11.100 a R$ 16.700 |
| SEGUROS |
| – Segmentos que mais contratam: Corretoras de seguros e consultorias de benefícios; Healthtechs integradas a planos e benefícios corporativos; Insurtechs (focadas em digitalização e novos produtos) |
| – Cargos em alta: Analista de Finanças (IFRS 17); Analista de Riscos; CFO, Executivo de Contas, Gerente Atuarial |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Conhecimento em Normas Internacionais; Modelagem de Riscos e Precificação; Data Science e Machine Learning |
| – Competências que garantem salários acima da média: IFRS 17 e Solvência II; Precificação Atuarial e Modelagem de Riscos; Data Science e Machine Learning aplicados a sinistros e fraudes |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em cadeiras executivas: Diretor(a) de Crédito e Risco: de R$ 33.500 a R$ 50.200 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: Analista Atuarial: de R$ 11.400 a R$ 13.250 |
| JURÍDICO |
| – Segmentos que mais contratam: Escritórios, Alimentos e Bebidas, Logística |
| – Cargos em alta: Advogado(a) Trabalhista; Advogado(a) Tributário (consultivo), Advogado(a) Empresarial/M&A |
| – Habilidades técnicas mais exigidas: Elaboração de Contratos; Redação Jurídica; Habilidades de Negociação; Visão de Negócios |
| – Competências que garantem salários acima da média: Habilidades de negociação; Uso de IA Generativa; Idiomas; Reforma Tributária |
| Salários: |
| – Cargo mais bem remunerado em posições executivas: – Bancos: Diretor(a) Jurídico: de R$30.100 a 44.150 – Empresas: Diretor(a) Jurídico: de R$19.600 a R$43.300 – Escritórios Advogado(a) Empresarial/M&A SR: de R$14.000 a R$22.300 |
| – Cargo mais bem remunerado nas demais posições: – Bancos: Advogado(a) PL: de R$7.500 a R$11.250 – Empresas: Advogado(a) SR: de R$7.900 a R$15.900 – Escritórios: Advogado(a) Empresarial/M&A PL: de R$10.250 a R$16.650 |