Queda para o fundo do poço: fracasso tem duas versões; escolha a certa

Steve Jobs foi demitido da própria empresa que ajudou a fundar. Com o fracasso público, ficou sem saber o que fazer por meses

SÃO PAULO – Em 2005, Steve Jobs, o CEO (diretor executivo) da Apple e co-fundador da Apple e da Pixar Animation Studios, fez um discurso para formandos da Universidade de Stanford. Discurso este que teve tanta repercussão que é possível encontrar seu vídeo em inúmeros sites na internet. Nele, Jobs conta os fracassos que enfrentou e as barreiras que quebrou ao longo da vida.

Filho de uma universitária solteira que decidiu entregá-lo para adoção, Jobs lembra que sua mãe queria muito que ele fosse criado por pessoas com curso superior. Mas este não era o caso do casal que acabou adotando-o. Quando descobriu isso, sua mãe biológica se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou quando o casal prometeu que, um dia, Jobs iria para a faculdade. E ele foi, aos 17 anos.

O problema é que todas as economias de seus pais, que pertenciam à classe trabalhadora, estavam sendo usadas para pagar a faculdade. Após seis meses, o fundador da Apple não via mais valor naquilo, porque estava gastando o dinheiro que seus pais haviam juntado durante toda a vida. Foi quando decidiu largar a faculdade.

Demitido da Apple

Mais de uma década depois, quando a Apple já era uma gigante, um executivo foi contratado para dirigir a empresa. Com o tempo, começaram a surgir as divergências de opinião entre o fundador e o novo executivo. Após o lançamento da maior criação da marca, o Macintosh, Jobs acabou sendo demitido da própria companhia que ajudou a fundar. Ele ficou sem saber o que fazer por meses. Sentiu que havia decepcionado toda uma geração de empreendedores.

O fracasso foi público e ele até pensou em deixar o Vale do Silício. Foi quando percebeu que amava o que fazia e decidiu começar tudo de novo. E a lição que aprendeu? Todos precisam procurar e encontrar o que amam fazer.

Em 2004, Jobs descobriu que estava com câncer. Era um tumor no pâncreas, ao qual os médicos se referiram como um tipo de câncer incurável. Mais tarde, o empresário fez uma biópsia, que permitiu a retirada de algumas células do tumor. Sua mulher conta que, quando os médicos viram as células, em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático, que poderia ser curada com cirurgia.

Foi outra situação difícil que se apresentou na vida de Jobs. Mas a experiência foi válida. Ele aprendeu que o tempo era limitado, que não se deveria gastá-lo vivendo a vida de outro alguém, que não deveríamos viver presos a dogmas nem deixar o barulho da opinião dos outros calar sua própria voz interior.

O que é mesmo o fracasso?

De acordo com a coach da Sociedade Brasileira de Coaching, Mirian Zacareli, fracasso é uma palavra muito forte e, na verdade, não existe. “As pessoas chamam de fracassos os objetivos que não são alcançados, mas, às vezes, elas estavam com falsas expectativas. O fracasso é uma frustração, que remete a um pensamento equivocado com relação às metas e aos planos”, diz ela.

“Veja a diferença entre o comportamento dos ginastas Diego Hypolito e Jade Barbosa, na última Olimpíada. O primeiro chorou e pediu desculpas para o povo brasileiro. Ele se sentiu um fracassado, por não ter conseguido a medalha”, explica.

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“Já a Jade agradeceu pela oportunidade e pelo apoio de todos aqueles que a ajudaram. Ela se valorizou e levou em consideração não só o resultado, mas tudo o que tinha feito para chegar lá. A diferença é que a expectativa de Diego estava muito voltada para o resultado, tanto que ele nem pensou na possibilidade da derrota”.

A conclusão? Fracasso é uma interpretação da pessoa, que depende de seu estado de espírito naquele determinado momento e de sua maneira de ver as coisas. Se sentir fracassado é muito ruim. “A pessoa não vê coisas boas em nada, somente procura os defeitos e fixa sua atenção naquilo que não deu certo, no lugar de analisar os fatos”.

Fatos versus crenças

Quando o indivíduo se sente fracassado, ele não enxerga a realidade, deixando-se “cegar” pelas suas percepções, que, em um momento de baixa auto-estima, podem estar erradas. Logo, o remédio contra o fracasso é saber identificar e analisar os fatos. “Diferencie o que de fato aconteceu de suas interpretações”, recomenda Mirian.

O segundo passo é verificar o que pode ser feito para melhorar. Depois, é preciso começar a trabalhar com um novo plano de carreira, traçando um objetivo claro. “O futuro vai depender do presente”, garante ela. “A pessoa deve ter vontade de mudar e fazer tudo de maneira diferente. Essa é a diferença da persistência e da perseverança. O persistente nunca desiste, mas também nunca muda a maneira de fazer as coisas, ao passo que o perseverante faz de forma diferente e acaba crescendo”.

Segundo ela, é muito mais fácil e cômodo não reagir mediante uma situação de fracasso. É preciso coragem para dar a volta por cima. E essa reação começa na descoberta de seus talentos, passa pela visualização do que se quer alcançar e termina com a vontade de realizar. “Não fique apenas se massacrando por seus pontos negativos”.

Sacudindo a poeira

O fracasso pode ser um grande aliado na carreira, segundo a professora da Fundação Dom Cabral e sócia-diretora da MBA Empresarial, Sandra Betti.

“Fiz uma pesquisa, há muitos anos, e descobri que os bem-sucedidos executivos e diretores de grandes empresas tinham quatro características em comum: eles receberam muito feedback ao longo da carreira, tiveram bons gurus e mentores que os inspiraram, eram resilientes e vivenciaram um wake-up call, uma situação que deu uma chacoalhada em suas vidas, como uma demissão ou uma frustração muito forte na carreira”, conta Sandra.

Eles aprenderam muito com as situações negativas. “A verdade é que você aprende bastante tanto com o bom chefe quanto com o mau chefe. Além disso, com a situação de fracasso, esses profissionais tiveram que ser fortes, se levantar e sacudir a poeira. Como resultado, se tornaram pessoas tão fortes que não quebram com qualquer adversidade”, finaliza Sandra.

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