Profissionais de beleza têm espaço garantido no mercado; como se dar bem?

Em 16 anos, oportunidades do setor cresceram mais de 278%. Para aproveitar esse boom, profissionais devem se especializar

SÃO PAULO – Enquanto a economia cresceu 59% nos últimos 15 anos, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos cresceu 341%, sem considerar a inflação do período. Não é à toa que as oportunidades profissionais para quem atua nesse segmento têm sido cada vez mais promissoras. Segundo dados da Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), o crescimento médio anual do mercado de trabalho do setor é de 9,3%, considerando os últimos 16 anos. Nesse período, o número de oportunidades foi 278% maior.

Ao todo, foram abertas 4.282 vagas no segmento em todo país, em 2010. Em 2004, eram 1.130. E os próximos anos devem ser de crescimento. Apesar disso, as oportunidades profissionais no setor de beleza não são para todos. Quem quer consolidar uma carreira na área precisa mais que encontrar uma vaga. Isso porque, segundo explica a diretora geral da Beauty Fair (Feira Internacional de Cosméticos e Beleza), Luciane Beltran, as mudanças do setor não se resumem a números. “Esse mercado passou a se profissionalizar mais”, afirma.

O que antes era um “bico” quando o orçamento apertava, hoje é opção profissional. “Ao longo dos anos, esse mercado passou por diversas mudanças, incluindo a formalização e o aparecimento de universidades sérias para esses profissionais”, explica a executiva. “E quem estiver desatualizado, não vai se sustentar nesse mercado e está fadado a ficar para trás”. Atenta ao crescimento desse mercado, a esteticista Roberta Erolles Nunes, de 27 anos, buscou o diferencial para se destacar.

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Descontente com a área de enfermagem, na qual atuava, Roberta pensou em mudar. “Não me identifiquei, então, resolvi procurar algo ligado à saúde e decidi por estética, que é algo que eu gosto”, conta. Em 2007, ela se formou esteticista pela Anhembi Morumbi, em São Paulo. E desde então, muitas portas foram abertas. “Cheguei a traballhar em dois empregos ao mesmo tempo”. Para quem pensa que a rotina de Roberta é só passar cremes, está enganado. É preciso estudar, e muito, para acompanhar o mercado. “Agora, vou fazer uma especialização em maquiagem definitiva”, conta. 

A informação e a atualização, diz Luciane, são ferramentas fundamentais para os profissionais do setor. E o motivo é simples: os consumidores desse mercado estão mais exigentes e querem novidades a todo momento. “Como os produtos estão cada vez mais específicos, eles têm de acompanhar essa especialização”, considera o presidente da Abihpec, João Carlos Basilio.

Mudanças estruturais
Por trás do crescimento do mercado está justamente a mudança do perfil do consumidor e a estabilização da economia. Diante de uma instabilidade e altas taxas de desemprego, “fazer a unha” da vizinha, uma escova ou uma hidratação ajudava a complementar o orçamento familiar de muitas mulheres. Com a consolidação delas no mercado de trabalho e aumento da renda da população, muitos começaram a ver nesse mercado uma oportunidade de negócio. Roberta percebeu isso. Depois de adquirir experiência no mercado, a esteticista abriu seu próprio negócio. 

“O mercado da beleza não depende de crédito, só do aumento da renda. Com isso, a beleza passou a fazer parte da cesta de consumo dos brasileiros”, explica Luciane. A partir daí, dá para enxergar um círculo virtuoso nesse segmento quando a economia está bem. Como a mulher ainda é a maior consumidora desse mercado, com mais renda, ela passa a comprar mais e a exigir mais, deixando a vizinha para procurar centros especializados. Para não ficar pra trás e aproveitar a potencialidade do mercado, aqueles que tinham um pequeno salão na garagem de casa passam a se especializar. Com mais especialização, a exigência das mulheres modernas aumenta. E o ciclo continua.

“O crescimento do setor é resultado de um conjunto de fatores, como moeda estável e inflação mais controlada. Com a entrada de novos consumidores, surgem mais oportunidades para se investir em pequenos negócios”, afirma Basilio. E com a entrada cada vez maior de homens preocupados com a aparência, a tendência é de elevar o grau de especificidade e de especialização dos profissionais.

Tendências de mercado
Dados compilados pela Beauty Fair mostram que, em 2010, quase 65% do mercado desse setor é formado por cabeleireiros, 14,1% por esteticistas e fisioterapeutas e 7,85% por manicures. Podólogos, maquiadores, massoterapeutas, depiladores, dermatologistas e clínicas e profissionais que atuam em spas representam menos de 2% cada um desse mercado.

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Mas a tendência é mudar, segundo os especialistas consultados. “Profissionais da área de serviços de maneira geral, principalmente dermatologistas e esteticistas, terão ascensão garantida”, afirma Basilio. Outra oportunidade para profissionais dessa área está no setor de vendas diretas de produtos de beleza. Segundo a Abihpec, as oportunidades de trabalho cresceram mais na área de consultoria de venda direta, em mais de 429% nos últimos 16 anos, com média anual de crescimento de 11,8%. “Temos mais de 2,4 milhões de pessoas comercializando produtos de venda direta”, diz Basilio.

Outro mercado potencial está na área de consultoria. “Com o crescimento das linhas de maquiagem e produtos, o espaço para os consultores de beleza crescerá muito nos próximos anos”, diz Luciane. Com eles, crescem, ainda mais, as oportunidades para cabeleireiros, manicures e maquiadores. O setor de bem estar, segundo a executiva, apresentará um forte boom, principalmente nos períodos de Copa e Olimpíada. “Quem chegar no Brasil para os jogos, vai querer desfrutar disso”, avalia.

Pela necessidade de apresentar novidades a todo momento, segmentos mais especializados, como os de pesquisa e desenvolvimento, serão os grandes pontos fortes do setor. “Nessas áreas, existem grandes dificuldades de se encontrar bons profissionais dessas áreas”, diz Basilio.

Para se dar bem
Ter feito um curso de graduação, como fez Roberta, ou mesmo ter feito vários cursos técnicos na área é um dos fatores que mais alavancam a carreira dos profissionais dessa área. Primeiro porque, em muitos casos, como a da esteticista, não existe uma regulamentação da profissão, o que eleva a variação da remuneração. “Essa falta de regulamentação dificulta nosso trabalho”, conta Roberta. Durante sua trajetória profissional após formada, a esteticista passou por empresas pequenas, que não registram o profissional. Nesses casos, a remuneração é um percentual sobre os ganhos da casa.

Para Luciane, da Beauty Fair, a profissionalização do setor e a dificuldade que muitos têm de gerir o próprio negócio são os grandes gargalos que impedem um crescimento mais acentuado das oportunidades. Por isso, a valorização de profissionais que buscam informações técnicas. Mas, não é apenas isso que garante ao profissional espaço no mercado. “Nessa área, é preciso ser um bom ouvinte”, afirma Basilio. “É preciso entender que essa área lida com a autoestima das pessoas. Por isso, entender de gente, das relações humanas é fundamental para quem quer se dar bem”, completa Luciane.