Profissionais de atacado e varejo têm maiores riscos de burnout, aponta estudo

O que antes era tratado como uma questão individual passa a se configurar como um fenômeno coletivo, diretamente associado às condições e à organização do trabalho

Marcelo Monteiro

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O Brasil ultrapassou a marca de meio milhão de afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, consolidando um cenário de adoecimento em larga escala no ambiente corporativo. Segundo estudo da Gupy – empresa de tecnologia para recursos humanos –, com base em dados da Previdência Social, foram mais de 546 mil afastamentos registrados no período.

O avanço expressivo dos casos indica uma mudança estrutural no perfil de saúde dos trabalhadores brasileiros. O que antes era tratado como uma questão individual passa a se configurar como um fenômeno coletivo, diretamente associado às condições e à organização do trabalho.

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Risco atinge parcela relevante dos trabalhadores

Mais do que os afastamentos formalizados, o levantamento da Gupy revela um cenário ainda mais abrangente de risco dentro das empresas. Dados da plataforma indicam que pelo menos quatro em cada 10 profissionais já sinalizam algum nível de risco de adoecimento mental, com base em pesquisas de engajamento realizadas com trabalhadores ativos nas organizações.

O quadro se intensifica em determinados setores. Em áreas como tecnologia/software e educação, entre seis e sete em cada 10 profissionais já indicam estar em risco, evidenciando que o problema não está restrito a funções operacionais ou ambientes tradicionalmente mais pressionados.

Esse padrão reforça que o adoecimento mental deixou de ser pontual e passou a integrar a dinâmica cotidiana do trabalho.

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Burnout avança e revela padrão transversal

O estudo também identifica os segmentos com maior incidência de burnout em níveis críticos. O setor de varejo/atacado lidera o ranking, com 10,79% dos profissionais nessa faixa. Na sequência aparecem educação, com 9,87%, e marketing/publicidade/comunicação, com 9,67%.

Apesar das diferenças entre as atividades, os dados mostram uma convergência relevante: o esgotamento mental não é exclusivo de um tipo de trabalho, mas resultado de pressões que atravessam diferentes setores da economia.

Segundo Gil Cordeiro, especialista em pesquisas e tendências da Gupy, essa mudança de leitura é fundamental para compreender o fenômeno. “O burnout deixou de ser uma ‘fragilidade individual’ para ser reconhecido como um fenômeno ocupacional.”

De acordo com o especialista, os fatores que explicam esse avanço estão diretamente ligados à forma como o trabalho é estruturado. “Entre eles, aparecem a carga elevada de trabalho, metas e prazos sob pressão constante, jornadas longas ou imprevisíveis, baixa autonomia e apoio insuficiente das lideranças”, afirma Cordeiro.

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Cultura “always on” amplia a pressão

Outro ponto central apontado pelo estudo é o impacto da digitalização sobre a saúde mental. A incorporação acelerada de tecnologias e a conectividade permanente contribuíram para reduzir as fronteiras entre vida profissional e pessoal.

Segundo Gil Cordeiro, esse movimento ajuda a consolidar um novo padrão de comportamento nas empresas. “A digitalização acelerada também borrou as fronteiras entre vida profissional e pessoal, contribuindo para a formação de uma cultura ‘always on’, em que estar disponível o tempo todo passa a ser quase uma expectativa implícita.”

Esse modelo tende a se manifestar de formas distintas entre setores, mas vem se consolidando como um denominador comum nas organizações, ampliando o risco de esgotamento e dificultando o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

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Regulação avança, mas é apenas o começo

Diante desse cenário, mudanças regulatórias começam a surgir como resposta ao avanço dos riscos psicossociais. A atualização da NR-1, que passa a exigir a inclusão desse tipo de risco na governança das empresas, é apontada como um avanço relevante.

No entanto, a avaliação é de que a medida, isoladamente, não resolve o problema estrutural.

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Segundo Gil Cordeiro, a exigência regulatória representa um passo importante, mas ainda inicial diante da complexidade do tema. “Nesse cenário, a NR-1 chega como um avanço fundamental ao exigir que o risco psicossocial entre formalmente na governança das empresas. No entanto, é importante lembrar que ela é apenas a ponta do iceberg”, avalia Cordeiro.

O diagnóstico apresentado pelo estudo indica que o Brasil entrou em uma fase em que o adoecimento mental deixou de ser exceção e passou a fazer parte do funcionamento cotidiano das organizações. Mais do que uma questão individual, os dados apontam para um desafio estrutural, que exige revisão de práticas de gestão, modelos de trabalho e cultura corporativa.

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Sem mudanças mais profundas, o cenário tende a persistir – com impactos diretos não apenas sobre a saúde dos trabalhadores, mas também sobre produtividade, engajamento e sustentabilidade das empresas.