Procuram-se estatísticos: desconhecida, profissão está em alta no mercado

Coordenadora geral do Conre 3 postou mais de 1 mil vagas de emprego, mas apenas metade delas foi preenchida

SÃO PAULO – O estatístico está em alta. Nos últimos anos, houve uma corrida por estatísticos, sendo que muitas oportunidades surgiram no mercado financeiro, nas palavras da coordenadora geral do Conre 3 (Conselho Regional de Estatística da Terceira Região, que engloba São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso), Doris Satie Maruyama Fontes.

Não é difícil entender o motivo. As empresas que se planejam e estudam cuidadosamente suas estratégias precisam de estatísticos. Em um mundo tão competitivo, esses profissionais passaram a ser mais requisitados do que nunca.

O que faz o estatístico

Estatísticos trabalham com qualquer tipo de modelagem estatística. Por exemplo, são eles que avaliam qual o melhor público-alvo para a empresa.

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“O estatístico define quais os riscos de se vender para as classes A, B, C, D ou E. Para determinada empresa, as classes mais altas podem ser pior pagadoras do que as mais baixas, bem como estas últimas podem consumir mais, dependendo do produto. O estatístico faz essa análise e define o risco financeiro de se emprestar para cada perfil de cliente”, explica Doris.

Eles também definem qual o produto mais rentável para cada tipo de público, identificam novos nichos de mercado, avaliam a precificação do seguro, calculam risco de sinistro, apóiam o setor de marketing das empresas, indicam como fidelizar os clientes e fazem pesquisas de mercado.

Até mesmo o departamento de Recursos Humanos das empresas necessita de estatísticos. Doris explica que esses profissionais são capazes de medir os riscos operacionais que envolvem as empresas e um dos maiores riscos operacionais que existe hoje tem a ver com o RH. “A quantidade de processos trabalhistas no Brasil é a maior do mundo”, garante ela.

Setores críticos

Para se ter uma idéia da importância do estatístico, esse profissional participa de todas as fases de teste dos remédios produzidos pela indústria farmacêutica, já que trata-se de um segmento de alto risco, que implica extrema responsabilidade por parte das empresas. “Há estatísticos que se especializam na área”, diz Doris.

As indústrias automobilística, de eletrodomésticos e do ramo de alimentação são outras que melhoraram muito, no que se refere à qualidade dos produtos ofertados, após a implementação do controle estatístico de qualidade. A coordenadora geral do Conre 3 lembra ainda que, atualmente, todas as empresas de telecomunicações estão procurando estatísticos.

Apesar de ainda não serem muito conhecidos, profissionais formados em estatística também são demandados por empresas de pequeno e médio portes. “É muito comum elas contratarem estatísticos para fazer pesquisa de mercado. Há também organizações do setor de logística demandando esses profissionais”, conta.

Profissão desconhecida

A profissão em questão ainda é muito desconhecida no Brasil. Para quem não sabe, existem cursos específicos para os estudantes que desejam ingressar na área.

Doris conta que, no Orkut, há uma lista de universidades que oferecem o curso de estatística, com a relação candidato/vaga. Nela, há poucas universidades e uma relação candidato/vaga baixíssima, na comparação com os demais cursos. Por exemplo, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), segundo essa lista, são 4,1 candidatos por vaga; na Unesp (Universidade Estadual Paulista), 4; na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), 3,27 e na UFBA (Universidade Federal da Bahia), 1,7.

A baixa relação candidatos/vaga, segundo ela, pode ser explicada pelo desconhecimento da profissão. “Nem mesmo os professores do ensino médio conhecem a profissão. E se eles não conhecem, como irão indicar aos alunos? O curso de estatística não é novo e a profissão foi regulamentada antes da de engenheiro, em 1965. Pode ser que os profissionais da área não saibam fazer marketing pessoal”, avalia.

“Além disso, vários outros cursos contam com matéria de estatística na grade. Por isso, todos acham que podem trabalhar com estatística, o que não é verdade, pois quem não cursa estatística só aprende o básico. Os cursos de economia, por exemplo, não são fortes em matemática”, opina ela, ao lembrar de outro fator grave: a alta evasão dos cursos de estatística. Poucos se formam na área. “O curso pode parecer difícil, mas com um mínimo de dedicação o aluno se forma”, diz Doris.

Procuram-se estatísticos

Para se ter uma idéia de como o mercado sofre com a falta de estatísticos, recentemente, a coordenadora geral do Conre 3 postou mais de 1 mil vagas de emprego, mas apenas metade delas foi preenchida. “No Brasil, economistas não podem trabalhar como estatísticos, mas não estamos fiscalizando porque simplesmente não há estatísticos para satisfazer a demanda do mercado”.

“Também estão sendo abertos muitos concursos públicos para estatísticos. Agora há um em andamento para trabalhar na produção de informação da área jornalística do Senado. O salário é de R$ 11,3 mil e nem necessita de especialização, apenas graduação”, conta ela, com base em informações que monitora sobre o mercado.

Ela diz que não sabe como o mercado vai ficar após a crise, mas sua expectativa é de que ele fique bem melhor. “Não sei o que vai acontecer, mas acho que pode até melhorar, pois, até então, muitos estatísticos estavam sendo contratados para elaborar modelos de risco financeiro e operacional”, explica, em referência aos inúmeros riscos que as empresas estão correndo hoje.