Planejamento de carreira a dois: do namoro à aposentadoria

Sozinho, não é tão difícil planejar carreira. Mas, quando falamos em casal, é mais complicado, porque o trabalho deve ser conjunto

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SÃO PAULO – Carreira é um processo de crescimento, em que o profissional ocupa uma seqüência de posições, muitas vezes em empresas diversas, com o objetivo de atingir melhor remuneração, autonomia e qualidade de vida. Via de regra, a carreira do indivíduo reflete aquilo que ele pensa.

Sozinho, não é tão difícil planejar a carreira. Mas, quando falamos em um casal, a questão se complica, porque o trabalho deve ser conjunto. A opinião é da psicóloga Cleide Guimarães.

O momento certo para casar

Uma pergunta que todos os casais de longa data inevitavelmente fazem é “quando é o momento certo para casar?”. As dúvidas permeiam o imaginário dos jovens: devo esperar conseguir um emprego mais estável ou um salário mais alto? Não seria melhor fazer uma pós ou um mestrado antes de casar? Não seria ideal esperar a promoção? A experiência no exterior pode causar o fim de meu relacionamento?

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Para início de conversa, a fase de consolidação da carreira só acontece depois dos 25 anos, entre os 25 e os 30 anos de idade. E mais, Cleide explica que somente entre os 35 e os 40 anos o profissional atinge cargos altos, que demandam mais responsabilidade e bagagem. Nesta fase, a carreira está em plena expansão, o emprego é estável e o retorno financeiro é bom.

No entanto, esperar essa consolidação para casar pode ser arriscado, uma vez que a mulher possui um relógio biológico que dificulta ter filhos em idade mais avançada. “Conheço muitas mulheres que, por estarem tão focadas na carreira, foram postergando a maternidade e depois se arrependeram de não ter tido filhos”, explica a psicóloga.

Ideal versus realidade

Assim, de fato, o ideal seria esperar a promoção, a experiência no exterior, o salário mais alto, o término da pós-graduação, do mestrado, do doutorado… Mas o ideal não é a realidade. “O casal pode casar antes da consolidação das carreiras, por meio de apoio mútuo e acordos”. Ela cita um exemplo: supondo que os dois queiram cursar uma especialização, mas o orçamento familiar não é suficiente, é possível fazer um revezamento. Um dos dois faz o curso primeiro e depois é a vez do outro.

“Casar pode ser muito bom, se houver democracia entre o casal, porque o parceiro pode até estimular e incentivar o aperfeiçoamento profissional”, supõe Cleide.

Problema mesmo é quando o casal tem um filho que não foi planejado. A situação da mulher é dificultada. Isso porque, por mais que os tempos sejam outros e o homem já assuma muitas tarefas de casa, a responsabilidade da criação do filho ainda cai mais sobre a mulher. “Neste caso, para fazer uma especialização, o ideal é que a mulher espere que os filhos atinjam uma idade mais independente”.

Maternidade e carreira: decisão em conjunto

Cleide trabalha com muitos casais e mulheres. Entre as arrependidas, conta ela, estão as mulheres que largaram tudo para casar ou cuidar dos filhos. As empresas no Brasil ainda são voltadas para o masculino e não se preocupam muito com os sentimentos da mãe que precisa voltar ao trabalho apenas quatro meses após seu filho ter nascido.

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Como muitas mães não têm ninguém em quem confiar suficientemente para cuidar do bebê, elas optam por abandonar o emprego. Outras não ganham muito bem e, ao fazer as contas do quanto gastariam pagando alguém para cuidar de seu filho, chegam à conclusão de que trabalhar não compensa.

A decisão do que fazer após o nascimento do filho deve ser tomada pelo casal. “Essas decisões têm a ver com os sonhos e os anseios dos dois, mas também com o pacto a ser feito entre o casal. Não é fácil, mas, se há um vínculo conjugal de qualidade, é viável”.

Sobre o abandono da carreira

Entretanto, a psicóloga não recomenda o abandono definitivo da carreira. “O abandono da carreira envolve outras questões. Depender economicamente do marido não é bom, pois a mulher se coloca em posição vulnerável. Além disso, é provável que ela se arrependa quando os filhos saírem de casa ou se vier a se divorciar, possibilidade que não pode ser descartada nos dias de hoje, em que o número de separações aumentou bastante”, aconselha. “Chega um determinado momento em que ela (a profissional) se questiona: o que fiz da minha vida?”.

Otimista, a psicóloga diz que “construir a carreira tendo filhos não é um bicho de sete cabeças”. “É uma situação mais difícil, pois é uma vida a mais. As responsabilidades dobram. Porém, muitos pais já estão compartilhando a criação dos filhos, levando-os ao pediatra, mesmo em um dia de trabalho normal, por exemplo”.

Quando um sabota a carreira do outro

Nos casais em que há cumplicidade, há um apoio mútuo que impulsiona as carreiras dos dois. “Um estimula o outro com seu espírito crítico, com conversas, com a simples disponibilidade quando um dos dois passa por dificuldades ou mesmo com uma visão coletiva do dinheiro”, explica a especialista no assunto.

Entretanto, existem aqueles casais em que um sabota o outro. “Existem vários tipos de boicote e, geralmente, a vítima demora a perceber. A ficha demora a cair. Entre os motivos, em primeiro lugar está a questão do poder. Um diz para o outro que não precisa trabalhar, pois, sozinho, consegue cuidar das contas. Essa frase parece muito legal, mas coloca aquele que não trabalha em posição de vulnerabilidade”.

O outro motivo é a insegurança, que tem raiz em questões psicológicas mais profundas. Tanto que quem promove o boicote muitas vezes não percebe. “O inseguro teme que a pessoa com quem convive seja melhor do que ele, o que seria uma grande ameaça de abandono. Ele precisa procurar ajuda profissional porque a atitude reflete uma história de vida difícil”. Frente ao boicote, é preciso se posicionar. “Quem permite ser boicotado viverá, mais cedo ou mais tarde, crises de casal”, garante Cleide.

Aposentadoria

A aposentadoria deve ser planejada cuidadosamente. E não estamos falando aqui de dinheiro, porque todos estão cansados de saber da importância de ter um plano de previdência privada e, também, outras fontes para guardar dinheiro pensando no futuro. A questão central é: o que o casal fará após a aposentadoria? As possibilidades são inúmeras. É possível viajar, abrir uma empresa, mudar para o interior, estudar.

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Planejar isso é importante porque a aposentadoria pode causar um vazio na pessoa. “Aposentar-se implica perdas. A perda da identidade organizacional é uma delas. Pode parecer bobagem, mas imagine alguém que dedicou toda uma vida a determinada empresa, e, um belo dia, acorda sem ter mais as preocupações rotineiras, sem ter o que fazer. É um problema que atinge principalmente o homem”.

E o pior: de repente, esse homem que nunca participou dos afazeres domésticos se vê obrigado a fazê-lo. “Pode causar depressão“, diz a psicóloga. Outra questão importante é que, após anos dedicando-se à carreira, sem muito tempo para a família, o casal é obrigado a ficar em casa 24 horas por dia. Como resultado, os dois terão que se conhecer novamente, mesmo após tantos anos juntos.