Nunca tantas pessoas tiveram registro na carteira de trabalho, diz Ipea

Mas quase todos os empregos formais criados são de baixa qualificação, que remuneram até dois salários mínimos

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SÃO PAULO – Em abril último, quase metade dos brasileiros que trabalhavam (49%) tinham registro na carteira assinada, segundo a Carta de Conjuntura do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), publicação trimestral que analisa temas importantes da economia.

O indicador parece baixo, uma vez que, em uma situação ideal, 100% dos trabalhadores deveriam ter carteira de trabalho assinada. Apesar disso, representa um grande avanço ao País, uma vez que se trata do maior grau de formalização do emprego desde que foi implementada a nova metodologia de apuração da PME (Pesquisa Mensal de Emprego), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Motivo

No primeiro quadrimestre deste ano, o segmento de trabalhadores com carteira assinada aumentou 8,2%, na comparação com o mesmo período de 2007. Essa melhora quantitativa do emprego vem acompanhada de um incremento dos rendimentos reais dos trabalhadores.

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Após registrar, no fim de 2007, alta de 3,2%, os rendimentos médios reais habitualmente recebidos apontam expansão de 2,6% no primeiro quadrimestre do ano. Essa queda na taxa de expansão dos rendimentos tem como base, sobretudo, o aumento da inflação nesse período, que acabou por corroer uma parte dos aumentos conquistados pelos trabalhadores.

De qualquer maneira, é possível notar um avanço no quadro. O motivo é que o mercado de trabalho no Brasil vem mostrando dinamismo, ao longo deste ano, influenciado, principalmente, pelo bom desempenho da economia do País. No primeiro quadrimestre de 2008, a taxa média de desocupação foi de 8,5%, ou seja, 1,4 ponto percentual menor do que no mesmo período do ano anterior.

O número de desempregados diminuiu porque a população ocupada vem crescendo a um ritmo superior ao da PEA (População Economicamente Ativa).

Baixa qualificação

Um dos principais gargalos da economia brasileira, a falta de mão-de-obra qualificada, é confirmado pelos dados. Quase todos os empregos formais criados no País são de baixa qualificação, que remuneram pouco, reduzindo, desta forma, a média dos rendimentos.

Conforme informações do Caged (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), do Ministério do Trabalho, 82% das novas vagas criadas em maio eram referentes à faixa que compreendia um salário que variava entre zero a dois salários mínimos. Quando se estende essa análise à faixa salarial seguinte (dois a quatro salários mínimos), esse percentual sobe para 95%.

Renda dos informais aumenta mais

Um dado que surpreende mostra que os trabalhadores sem carteira assinada apresentam as maiores taxas de crescimento nos seus rendimentos (4,1%, ao longo do ano), refletindo que esse maior dinamismo salarial está ligado à própria expansão da economia brasileira.

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Explica-se: uma parcela desses trabalhadores informais é constituída por profissionais liberais que prestam serviços. Logo, a melhoria no rendimento dos demais trabalhadores possibilita maior contratação desses serviços, o que gera uma elevação na renda desses profissionais.

De qualquer maneira, o quadro de aumento de empregos e salários exerce uma pressão positiva sobre a massa de salários habitualmente recebidos, cuja expansão no ano é de 6,5%, o que deve manter o ritmo de crescimento do consumo das famílias.

Perspectivas

As perspectivas para o restante do ano se mantêm favoráveis, graças à manutenção do crescimento da economia, que deve continuar impulsionando a contratação de novos profissionais. Segundo dados da Sondagem Industrial de maio, divulgados pela FGV (Fundação Getulio Vargas), 30% das 1.015 empresas consultadas revelaram que pretendem aumentar o número de trabalhadores nos próximos três meses.

Em 2007, esse percentual era de 26%. Além disso, o excepcional comportamento da construção civil também deve contribuir favoravelmente para a criação de novos postos de trabalho ao longo do ano, devido às novas construções habitacionais.

A expectativa da trajetória de crescimento sustentável da economia para os próximos anos deve permitir não apenas manter a taxa de desocupação em patamares menores, como também pode possibilitar o surgimento de um novo contingente de trabalhadores com maior nível de especialização e maior nível salarial, para atender às novas necessidades do mercado.