Números de acidentes de trabalho no Brasil são assustadores

Dados da Previdência apontam para uma média de oito óbitos por dia em acidentes de trabalho; doenças também preocupam

SÃO PAULO – Somente no ano passado houve 410 mil acidentes de trabalho no Brasil, o que revela o descuido de boa parte das empresas em relação às normas de segurança de seus empregados. Do total de acidentes registrados, três mil incorreram em morte do empregado e 102 mil em invalidez permanente. Além disto, outros milhares de trabalhadores contraíram doenças com as quais terão que conviver pelo resto da vida.

Os dados, sem dúvidas, são preocupantes. Afinal, a média de oito óbitos por dia não é algo natural. Os dados são do Ministério da Previdência Social e se referem ao ano de 2002.

Vale ressaltar que os números podem ainda ser muito maiores do que se imagina, haja vista que os dados do Ministério só levam em conta os trabalhadores formais que contribuem para o INSS (Instituto Nacional da Seguridade Social). Estima-se, portanto, que cerca de 40 milhões de pessoas estejam na economia informal e não contribuem para a Previdência.

Doenças mais comuns

PUBLICIDADE

Entre as 200 patologias relacionadas ao trabalho, as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) merecem destaque, uma vez que são a segunda causa de afastamento do trabalho no Brasil.

Para se ter uma idéia, no Sudeste, por exemplo, entre cada 100 trabalhadores, um é portador de LER, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A doença atinge bancários, metalúrgicos e operadores de telemarketing geralmente na faixa etária entre 30 e 40 anos de idade.

Doenças relacionadas ao estresse e à fadiga física e mental foram apontadas por especialistas como doenças que freqüentemente afetam os trabalhadores, principalmente bancários e profissionais da saúde.

Os principais motivos que levam à doença mental podem ser atribuídos às seguintes tarefas: lidar com o público, sobrecarga de trabalho, redução salarial, atividades monótonas, pressão temporal, pressa na informatização e lidar com a vida, morte e dinheiro. A violência e criminalidade também são grandes vilãs na saúde mental de bancários, policiais, vigilantes e trabalhadores rurais.

Atuação dos CRSTs

No Brasil, existem atualmente 60 Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CRST) espalhados pelo país. Até abril do próximo ano deverão existir 130 destes centros, o que demandará um investimento de R$ 43,5 milhões.

Nos CRSTs, surgidos no final de 1980, são tratadas as principais doenças com maior gravidade e prevalência: LER, DORT, doenças provocadas por inspiração de grãos de areia (pneumoconioses), agrotóxicos, metais pesados e solventes orgânicos, além dos acidentes graves e fatais de trabalho.

Empresas não investem em segurança

A redução do índice de acidentes de trabalho só é possível com a prevenção por parte das empresas, mas, infelizmente, muitas simplesmente não vêem rentabilidade neste investimento e, portanto, acabam deixando a tarefa de lado.

Trata-se apenas de algumas mudanças no dia-a-dia de trabalho, como a prática de ginástica laboral, oferecimento de academias, cinemas, horário de almoço, palestras sobre qualidade de vida etc.

Lei poderia ser modificada para pressionar empresários

O médico especialista em medicina do trabalho, Gutemberg Fialho, sugere uma mudança na legislação para que as empresas passem a investir em segurança do trabalho. Como após o 15º dia de afastamento do trabalhador é a Previdência Social quem arca com o salário do acidentado, o investimento em segurança fica para segundo plano.

Por este motivo Fialho acredita que a lei deveria ser modificada e a empresa responsabilizada pelo pagamento de todos os custos de acidentes de trabalho causados por negligência da empresa. Para ele, somente ao sentir o peso da medida no bolso é que o empresário passará a investir e, prevenção e saúde ocupacional. As informações são da Agência Brasil.