No Dia da Mulher, elas contam como conquistaram profissões “de homens”

"As pessoas que não me conhecem têm receio de me passar tarefas mais complicadas", diz analista de sistemas

SÃO PAULO – A analista de sistemas da Discover Technology, Luciene Pizzi, saiu para comprar uma calculadora HP. Ao perguntar sobre a diferença entre os modelos, ficou boquiaberta. O vendedor disse que não adiantaria explicar para ela e ainda completou: “fala para o rapaz vir aqui que eu explico pra ele, tá?”

“Quando eu disse que a calculadora era para mim, o vendedor ficou chocado, tentou disfarçar e corrigir a situação. Mas daí eu que saí da loja e desisti de comprar”, lembra Luciene.

No ramo de tecnologia da informação, é difícil encontrar mulheres, de forma que se trata de uma das áreas em que o preconceito persiste e acaba sendo escancarado.

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“Noto que as pessoas que não me conhecem ficam receosas de me passar tarefas mais complicadas e, às vezes, insistem em testar meus conhecimentos. Isso acontece, principalmente, quando tenho de ministrar algum treinamento. Sempre me perguntam assustados se eu sou a instrutora e querem saber detalhes sobre minha atuação profissional”, afirma.

Mulheres no mercado de TI

Cecília se formou em engenharia da computação.
Em sua sala, de 90 pessoas, só 13 eram mulheres

Cecília Maia é CTO (chief technology officer, na sigla em inglês) da Okto. Ela se formou em engenharia da computação e conta, com orgulho, que, em sua sala, havia 13 mulheres, em um total de 90 pessoas. “Foi um recorde na época e acho que até hoje não foi quebrado”, diz.

“Um fato interessante é que, normalmente, as mulheres que ingressam nestes cursos se formam. A evasão de mulheres é muito baixa. Pode ser que sejamos mais dedicadas ou que realmente queiramos aproveitar a oportunidade em uma área em que a nossa presença ainda é, de certa forma, incomum”, analisa.

Questionada sobre se já sofreu algum tipo de preconceito, ela garante que se a profissional se dedicar com afinco, for persistente e realmente gostar do que faz, será reconhecida, independentemente do sexo, da raça ou da crença.

Seja como for, ela se lembra de um momento desagradável pelo qual passou: “Tive uma experiência negativa fora do Brasil. O diretor da empresa para a qual fui prestar consultoria não quis me cumprimentar. Mas estava preparada para qualquer problema e o fato não afetou o meu trabalho”.

Gestão feminina… em ambientes masculinos

Cláudia é gerente de Aplicações de Tecnologia
e comanda uma equipe só de homens

Já Cláudia Kleinsorge é gerente de Aplicações de Tecnologia da Documentar. Com 50 anos de idade, ela trabalha com tecnologia há 29 anos. Começou aos 21, como programadora. Atualmente, comanda uma equipe formada só por homens. “Nunca sofri nenhum tipo de preconceito por parte dos meus subordinados. Acho que as coisas já vêm mudando”.

Quem também não sente preconceito é a professora do curso de Ciências da Computação do Mackenzie, Ilana de Almeida Souza. No entanto, ela reconhece o receio dos alunos, a maioria homens. “Principalmente no começo, tinha aluno que não aceitava o que eu falava, ficava desconfiado com relação ao meu conhecimento”, afirma.

“Para driblar a desconfiança, busco não estar nunca despreparada. Sempre me atualizo, procuro ficar por dentro. Há alunos que sabem bastante”, acrescenta ela.

Uma mulher com voz ativa no ITA

A professora de engenharia e representante dos professores para a congregação do ITA (órgão máximo de tomada de decisões da instituição), Maryangela Geimba de Lima, soube tirar de letra a predominante convivência com homens.

“Nas engenharias, sempre há bastante preconceito com relação à atuação de mulheres. O ambiente é predominantemente masculino, inclusive muitas das atividades são bastante masculinas também. Convenhamos que andar de botina, calça comprida e capacete o dia todo não é das vestimentas mais femininas”.

Um fato curioso é que o ITA começou a aceitar mulheres para a graduação a partir de 1996. Na primeira turma, segundo a professora, havia três alunas no total de 120 aprovados no vestibular. Atualmente, a média é de 12 alunas ingressantes por ano.

“No ITA, o ambiente é predominantemente masculino e sempre há preconceito com relação à nossa participação. No entanto, com trabalho, dedicação e persistência, consegue-se que os colegas vejam que somos tão capazes quanto eles”.

Sonhando alto, a história de uma comandante

Para a comandante da Gol Linhas Aéreas, Elisa de Rossi, a diferença está na forma de lidar com as situações e encarar comentários preconceituosos.

Elisa é comandante da Gol Linhas Aéreas.
Para ela, diferença está na maneira de
encarar o preconceito

“Eu procuro levar sempre na esportiva ou, se não estiver nos meus melhores dias, finjo que não ouvi ou percebi. É a melhor receita, sempre deu certo. Sinto também que, hoje em dia, com a globalização e com as mulheres atuando em várias áreas antes dominadas por homens, o preconceito está muito mais ligado com a falta de experiência do que com o fato de o profissional ser homem ou mulher”, revela.

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“Tive um exemplo claro disso quando, conversando com dois passageiros, percebi certa surpresa e apreensão quando eles descobriram que era eu a comandante do voo. Tive de responder as perguntas: Há quanto tempo você voa? Quantas horas de voo você tem? E então eles chegaram a suspirar aliviados com as minhas respostas. Achei muito engraçado, pois eles fizeram uma cara do tipo: Bom, é mulher, mas é experiente. Então vamos voar!”.

Correndo contra o tempo… e contra a falta de bom senso

Simone Muniz de Aguiar trabalhava em uma padaria quando, um dia, seu ônibus demorou uma hora para passar, fazendo com que ela chegasse atrasada. Foi quando resolveu comprar uma moto.

Um motoqueiro disse para Simone ser manicure.
Ela disse que não nasceu para isso

“Foi aí que, na padaria, eles me pediram para fazer entregas. Fui aprendendo algumas ruas. Após certo tempo, entrei de férias e, quando voltei, não quis mais trabalhar na padaria. Recebi uma proposta de trabalho em uma pizzaria, onde não foi exigida experiência. Trabalhei nesta e em outras, e acabei ficando na pizzaria Didio, onde estou até hoje”, conta a motogirl.

O preconceito por parte de colegas já foi explícito. “Um motoqueiro falou para eu ser manicure, fazer unha em casa, pois sua mulher fazia. Falei para ele mandar a mulher dele fazer unha. Eu não nasci para isso. Sou leve e solta”.

A falta de respeito, por vezes, também incomoda. “Fui fazer entrega em um apartamento e o cliente pediu para eu comer com ele. Fiquei com vergonha, falei para ele que não podia, porque estava em horário de trabalho”.

A grande inserção de mulheres no mercado de trabalho fez com que elas conquistassem todas as profissões, todos os ramos. E o preconceito tem cada vez menos espaço.