MEC privilegiará cursos em concessão de crédito; medida causa discussões

Para OAB, critério de escolha do aluno seria apoio financeiro e não vocação; para engenheiros, escassez do setor seria resolvida

SÃO PAULO – A declaração do ministro da Educação, Fernando Haddad, de que o crédito estudantil será concedido preferencialmente a quem ingressar em carreiras que estão com falta de mão-de-obra provocou discussões entre especialistas. Uns defendem que a vocação deve guiar a escolha da carreira e não a ajuda financeira. Outros pensam na necessidade do mercado de trabalho, decorrente do crescimento econômico.

Segundo o presidente da Comissão de Ensino Superior da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Adílson Gurgel, a medida não deveria ser tomada, diante dos altos índices de pobreza no Brasil e do pouco acesso de jovens ao ensino superior. “Que não se prive o jovem do direito de escolher a profissão que vai seguir, para que o critério de escolha dele não seja o curso que esteja sendo financiado”.

Gurgel ainda falou que se deve deixar que a profissão e as vocações aflorem no momento de escolha do curso.

Escasso x saturado

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De acordo com Haddad, as áreas em que há carência de profissionais terão prioridade na obtenção de financiamentos. Já para as profissões tidas como saturadas, o crédito será restringido. Áreas como engenharia, por exemplo, contariam com mais financiamentos, enquanto o curso de Direito receberia menos alunos atrelados ao crédito estudantil.

“Insisto em que não haja restrição na área de Direito, porque vocação é algo que você não pode impor. É uma área que oferece um leque de oportunidades muito grande para o jovem. Você pode até dar um incentivo melhor para outras áreas, mas que não se restrinja a qualquer profissão”, disse à Agência Brasil.

Privilégio a quem necessita

Já para o presidente da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), Murilo Pinheiros, a proposta é muito positiva, diante da escassez de 20 mil profissionais por ano que o setor tem. “Eu acho extremamente importante essa proposta de privilegiar as categorias que tenham mais necessidade. Vai gerar resultados positivos, sem dúvida, porque você vai atacar aquilo que o país está necessitando”, disse.

Ele ainda disse que a prioridade na concessão de crédito para os cursos de engenharia pode representar, para os estudantes, uma aposta do governo na área. “Passamos duas décadas com esse problema de que a formação tecnológica seria muito mais difícil para oportunidade de trabalho. Essa proposta dá a impressão de que ele pode apostar nesse curso, ele pode ir para frente e que o país está carente desse desenvolvimento”.

Apesar de crer ser positiva a medida, para Pinheiros, ela não é suficiente. “Temos que trabalhar em cima de tudo, na melhoria da qualificação, mostrando cada vez mais o crescimento e desenvolvimento do país. Com um crescimento de 6% ao ano, em pouco tempo, nós teremos falta de engenheiros e de profissionais da área de tecnologia”.