Bola fora

Jogadores de futebol do Brasil ficam sem salário após fuga de patrocinadores

Cinco dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro, incluindo os ex-campeões mundiais de clubes da Fifa, São Paulo e Santos encerraram a temporada neste mês sem patrocínio principal em suas camisas.

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SÃO PAULO – O impulso que a Copa do Mundo supostamente daria ao futebol brasileiro não se materializou. A economia em dificuldades e a falta de recursos tornam a maioria dos clubes da primeira divisão do país incapazes de pagar salários.

Cinco dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro, incluindo o ex-campeão mundial de clubes da Fifa, São Paulo, e o Santos, onde a estrela do futebol Pelé passou a maior parte de sua carreira, encerraram a temporada neste mês sem patrocínio principal em suas camisas. Pelo menos 17 clubes atrasaram os salários dos jogadores neste ano, disse uma fonte com conhecimento direto do assunto, que pediu anonimato porque a informação é privada.

Alguns patrocinadores cancelaram contratos após focarem no investimento na Copa do Mundo e outros estão reduzindo os orçamentos de publicidade por causa do crescimento econômico fraco, disse Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras. A joint venture da Toshiba no Brasil e o Banco BMG estão entre as empresas que suspenderam seus patrocínios nos últimos 12 meses. A Kia Motors disse que deixará de financiar clubes porque o retorno ficou aquém das expectativas.

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“A marca acaba ficando muito conectada ao time”, disse José Luiz Gandini, CEO da unidade da Kia no Brasil. “Os fracassos dos clubes podem acabar manchando a imagem da empresa”.

Organizador da última Copa do Mundo, o Brasil construiu ou reformou 12 estádios a um custo de R$ 8,4 bilhões (US$ 3,24 bilhões). As autoridades, incluindo o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, insistiam que o torneio daria início a uma nova era de profissionalismo, que elevaria o nível de competência na administração das equipes. O Brasil usaria a Copa do Mundo para ajudar a consertar a gestão ruim por meio da “profissionalização e da democratização das estruturas do futebol”, disse Rebelo, em uma teleconferência com a imprensa estrangeira, cinco meses antes do início da Copa do Mundo.

O Ministério dos Esportes do Brasil está apoiando um projeto de lei para permitir que os clubes refinanciem suas dívidas sob certas condições, incluindo a limitação de gastos, disse sua assessoria de imprensa ontem.

O BMG preferiu não comentar, também segundo sua assessoria de imprensa. O São Paulo, o Santos e a Semp Toshiba não deram retorno aos e-mails e telefonemas.

Os times de futebol acabaram em dificuldade porque os gestores são quase “amadores” e gastam mais do que arrecadam, disse Walter Schalka, CEO da produtora de papel e celulose Suzano Papel Celulose e ex-membro do conselho do Santos.

Nesta temporada, seis empresas são patrocinadoras principais de 15 clubes da primeira divisão, incluindo a Caixa Econômica Federal, um banco estatal, que patrocina oito clubes, ou 40% das equipes.

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“Eu nunca vi tantos times da primeira divisão sem patrocínio master”, disse Belluzzo, em entrevista por telefone, de São Paulo. “A recuperação levará um tempo. Os contratos de patrocínio voltarão, mas com quantias menores”.

O Botafogo, que lançou a carreira de Garrincha, atacante que ajudou o Brasil a conquistar duas Copas do Mundo, em 1958 e 1962, também atrasou pagamentos neste ano. Em julho, os jogadores do Botafogo entraram em campo usando braçadeiras vermelhas que diziam “estamos aqui porque somos profissionais e por vocês, torcedores”. O Botafogo não deu retorno aos telefonemas.

A receita global dos clubes, que inclui a venda dos direitos dos jogadores, cairá 8% neste ano e permanecerá estável em 2015, disse Fernando Ferreira, diretor da Pluri, uma firma de consultoria esportiva. No ano passado, os gastos dos 29 maiores clubes do Brasil ficaram 22% acima do orçamento, disse a Pluri em um relatório, em agosto.

A violência nos estádios também está desanimando os patrocinadores, disse Belluzzo, o ex-presidente do Palmeiras. Em outubro, um torcedor do Palmeiras foi morto a caminho do estádio onde assistiria à sua equipe jogar contra o Santos. A morte de um torcedor atingido por um vaso sanitário atirado do alto de um estádio ganhou manchetes internacionais em maio.

“Ter sua marca exposta em um ambiente onde há violência entre torcedores francamente inibe muitos patrocinadores”, disse o Itaú BBA em um relatório, em outubro.