Publicidade
Durante décadas, o acesso ao conhecimento foi um dos principais diferenciais profissionais. Hoje, com a inteligência artificial capaz de escrever relatórios, resumir pesquisas, gerar códigos e apoiar análises em diferentes áreas, esse cenário começa a mudar.
A tecnologia não elimina a importância do conhecimento técnico, mas reduz parte da sua escassez. Em um contexto em que a informação está cada vez mais disponível — e pode ser organizada, sintetizada e produzida por sistemas de IA em poucos segundos —, ganha importância aquilo que depende menos do acesso à informação e mais da capacidade de interpretá-la: compreender contextos, fazer boas perguntas, exercer o pensamento crítico e tomar decisões.
Leia também: Quer aprender a usar IA no trabalho? Veja por onde começar
É a partir dessa transformação que a Expert XP 2026 promoveu um encontro inédito com representantes das principais universidades brasileiras e do mercado financeiro para discutir como aproximar a academia do setor produtivo e preparar os profissionais para as novas demandas do mercado.
O evento colocou no centro da discussão a necessidade de reaproximar o ensino superior dos desafios reais do mundo do trabalho e revelou um consenso: a vantagem competitiva não está mais apenas em saber mais, mas, cada vez mais, em saber o que fazer com o que se sabe.
O desafio vai além de aprender a usar IA
A inteligência artificial acelera transformações que já estavam em curso.
A digitalização da economia, o surgimento de novas ocupações e a velocidade com que competências se tornam obsoletas já exigiam atualização constante de trabalhadores e empresas. Com a IA, esse processo ganha ainda mais intensidade.
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, cerca de 39% das competências exigidas pelos empregadores devem mudar até 2030, enquanto 59% da força de trabalho precisará passar por algum processo de requalificação.
O estudo mostra que o mercado valoriza cada vez mais uma combinação de competências técnicas e humanas.
Continua depois da publicidade
Pensamento analítico lidera a lista das habilidades mais importantes, seguido por resiliência, flexibilidade, liderança, influência social, pensamento criativo, alfabetização tecnológica e aprendizagem contínua. Ao mesmo tempo, IA, big data e segurança cibernética aparecem entre as competências técnicas com maior crescimento esperado.
Na prática, isso significa que dominar novas ferramentas já não basta. O diferencial está na capacidade de interpretar informações, avaliar diferentes cenários e tomar decisões em ambientes cada vez mais complexos.
Leia também: Mercado de trabalho terá “momento darwinista” com IA, diz CEO: Evolua ou seja cortado
Continua depois da publicidade
O novo papel das universidades
Essa mudança também reposiciona o ensino superior.
Durante décadas, as universidades foram a principal porta de entrada para o conhecimento especializado. Hoje, grande parte desse conteúdo está disponível em plataformas digitais ou pode ser produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial.
Na avaliação dos especialistas, isso não reduz a importância da universidade, mas redefine onde está seu valor.
Continua depois da publicidade
“O acesso à tecnologia está cada vez mais democratizado. O que passa a diferenciar um profissional não é apenas saber utilizar uma ferramenta, mas interpretar informações, fazer boas perguntas, tomar decisões e resolver problemas complexos”, afirmou Mariana Zinetti Furlan, sócia e head comercial da XP.
Segundo ela, quanto mais a tecnologia entrega respostas prontas, maior é a necessidade de profissionais capazes de questioná-las, compreender contextos e assumir decisões.
“O conhecimento técnico pode ser atualizado ao longo da carreira. Já a capacidade de análise crítica, argumentação e tomada de decisão continua sendo construída em experiências mais profundas de formação.”
Continua depois da publicidade
Nesse cenário, habilidades como pensamento crítico, argumentação, resolução de problemas complexos e colaboração interdisciplinar passam a ocupar um espaço ainda mais relevante na formação profissional.
O ensino superior também está mudando
As mudanças tecnológicas acontecem ao mesmo tempo em que o próprio setor de educação atravessa uma transformação estrutural.
Dados apresentados durante o evento mostram que o envelhecimento da população brasileira deve elevar a participação de pessoas com mais de 66 anos de 6% em 2000 para cerca de 22% em 2050.
Ao mesmo tempo, mudanças no perfil dos estudantes e o comprometimento da renda das famílias pressionam as instituições a rever seus modelos de atuação.
A composição das receitas do setor ilustra essa mudança. Em 2017, aproximadamente 98% do faturamento das instituições vinha da graduação tradicional. Em 2024, esse percentual caiu para cerca de 60%, impulsionado pelo crescimento de cursos livres, educação executiva, especializações e programas de atualização profissional.
Os indicadores de empregabilidade também mostram um mercado mais dinâmico. O percentual de profissionais empregados após a graduação passou de 79% em 2022 para 90% em 2024. Ao mesmo tempo, metade dos profissionais atua em áreas diferentes daquelas em que se formou, refletindo trajetórias menos lineares e uma demanda crescente por competências transferíveis entre diferentes setores.
Outro desafio continua sendo a permanência dos estudantes. Enquanto a evasão nos cursos presenciais varia entre 37% e 40%, no ensino a distância os índices chegam a ficar entre 63% e 71%, indicando que ampliar o acesso não garante, por si só, a conclusão da formação.
Universidade e mercado deixam de caminhar separados
Outro ponto de convergência do debate foi a necessidade de aproximar universidades e empresas. Em vez de enxergar educação formal e educação corporativa como modelos concorrentes, os especialistas defendem que ambas exercem funções complementares.
À universidade cabe aprofundar fundamentos acadêmicos, desenvolver pensamento crítico e formar profissionais capazes de aprender continuamente. Ao mercado, aproximar estudantes de desafios reais, novas tecnologias e competências que evoluem em ritmo acelerado.
“A universidade não precisa abrir mão da sua autonomia para dialogar com as empresas. Pelo contrário: quando o mercado compartilha problemas reais e a academia contribui com conhecimento e pesquisa, ambos fortalecem a formação dos profissionais”, afirmou Diogo França, CEO da XP Educação.
Mais do que acompanhar a tecnologia, o desafio é acompanhar a mudança
Se a inteligência artificial torna o conhecimento mais acessível, ela também muda o que o mercado passa a valorizar.
Em vez de premiar apenas quem acumula informação, cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar evidências, conectar diferentes áreas do conhecimento, avaliar consequências e tomar decisões em ambientes marcados por incerteza.
Nesse cenário, universidades e empresas compartilham um mesmo desafio: formar profissionais que saibam trabalhar ao lado da inteligência artificial sem abrir mão daquilo que continua sendo essencialmente humano: o pensamento critico.