Formação deficitária dificulta entrada de advogados no mercado, diz OAB-RJ

Para presidente da OAB-RJ, excesso de faculdades e baixa qualidade são responsáveis pelas reprovações no Exame de Ordem

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SÃO PAULO – O excesso de universidades e a má qualidade de ensino oferecida por algumas delas têm sido um dos principais responsáveis pela reprovação de formandos do curso de direito no Exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). A informação é do presidente da OAB do Rio de Janeiro, Wadih Damous, em entrevista ao Portal Infomoney nesta quinta-feira (11) – data em que se comemora o Dia do Advogado no País.

A situação é ainda pior ao se avaliar o histórico dos estudantes submetidos ao teste, que apresentam uma defasagem de aprendizado já no ensino médio. “Algumas das faculdades são até bem aparelhadas, mas infelizmente costumam admitir alunos cuja formação é precária”, explica Damous.

Reprovação em foco
Com tal cenário, entender os motivos que levam ao alto índice de reprovação do Exame de Ordem fica mais fácil. Para se ter uma ideia, no último ano, foram reprovados cerca de 88% dos 106.891 bacharéis em direito. Isto significa que do total de inscritos, apenas 12.534 candidatos foram aprovados no teste realizado pela Fundação Getulio Vargas.

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O números surpreendem, mas têm explicação. “O exame é mais rigoroso que no passado, pois funciona como uma ‘peneira’. Os aprovados normalmente frequentaram os cursos mais tradicionais de direito”, explica Damous.

A opinião é compartilhada também pelo vice-presidente do IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo), Euclydes José Marchi Mendonça. Para ele, a prova é fundamental para o mercado de trabalho. “Precisamos selecionar as pessoas que se formam e tentam ingressar no mercado. O exame tem essa função”, afirma. “As faculdades se tornaram um negócio e muitas deixaram de se preocupar com o preparo de seus alunos”, critica Mendonça.

Dificuldades por todos os lados
Com tantas reprovações não era de se estranhar que muitas críticas fossem feitas ao sistema, afinal, se os formandos já apresentam um deficit de ensino por conta de suas vivências anteriores, fica difícil imaginar que algum deles conseguirá a aprovação em um exame tão rigoroso.

Essa é a visão do sócio do Furtado, Pragmácio Filho & Advogados Associados, Eduardo Pragmácio Filho. Para ele, um dos problemas é que a nova geração perdeu o costume de ler e, apesar de deter muita informação, ainda não sabe como utilizá-la. “Os candidatos já chegam menos preparados para o exame e como passam boa parte da vivência universitária em um esquema ‘decoreba’ não sabem como aplicar as informações”, avalia o advogado.

Outro ponto amplamente discutido têm sido o grau de dificuldade do exame, que hoje se mostra mais difícil que em épocas anteriores. “Com uma prova muito difícil, a OAB puxa pra si a responsabilidade de fiscalizar a graduação de direito e isso não é papel dela. Eu aposto que, se qualquer dirigente da Ordem se submetesse ao exame, o mesmo também seria reprovado”, desafia Pragmácio Filho.

Para ele, não é o exame que faz um advogado ser capaz de exercer sua profissão, mas sim, a ética do profissional. “Atualmente, considero o Exame de Ordem como uma máquina de fazer dinheiro. As milhares de pessoas que tentam obter aprovação servem de fonte de arrecadação para a OAB e, ao serem reprovadas, trazem mais arrecadação ainda, já que são obrigadas a fazer o teste novamente”, conclui Pragmácio Filho.