Foi demitido? Saiba por onde começar e como dar a volta por cima

"Pesquisas já demonstraram que a carga estressante que advém da demissão é significativa", explica Hélio Terra

SÃO PAULO – “Brasil, 2007. Um brilhante executivo da área comercial de uma corporação internacional dá instruções a uma estagiária e, na execução destas, surge um erro que compromete a imagem da empresa. Aos 32 anos, com a carreira em crescimento, salário elevado, excelentes perspectivas, o jovem é demitido. Entra no programa de outplacement da empresa e é encaminhado à Manager, que vai assessorá-lo na busca de uma nova colocação no mercado.

Altamente empregável em decorrência de seu histórico, perfil e qualificação, o profissional tem apenas um problema: as feridas deixadas pelo impacto da demissão. De modo consciente ou não, sente muita culpa: Por que deixei isso acontecer?

Tem a sua auto-estima em frangalhos: Como posso ter dado essa derrapada? Ele tem medo do futuro: O que ocorrerá agora se os outros souberem? Como vou viver com essa marca? Ele sente vergonha. Tudo isso afeta decisivamente sua capacidade de reconduzir sua carreira para o rumo certo.

O problema tem um ângulo objetivo: um erro que causou a demissão, um ponto a menos para o titular. Mas, este é muito pequeno em relação ao problema percebido – a mente do jovem executivo dá a ele dimensões dramáticas. É fundamental então lidar, primeiro, com o lado subjetivo da situação para, depois, dimensionar corretamente o problema objetivo e tratá-lo do modo adequado”.

O impacto para o demitido e sua família

O trecho acima foi extraído do livro “Empreendedorismo e experiência em RH”, escrito por Hélio Terra, presidente da Ricardo Xavier Recursos Humanos, e publicado pela Editora Gente. Na obra, ele aborda os impactos da demissão, tanto para o demitido quanto para sua família.

“Pesquisas já demonstraram que a carga estressante que advém da demissão é significativa, superada apenas pelos eventos mais dramáticos da vida humana, como morte de cônjuge ou familiares próximos, divórcio, prisão. Perfeitamente explicável, pois o emprego tem posição central na vida das pessoas, associa-se com sua identidade, ocupa maior parcela do seu tempo e organiza suas relações com os outros”, diz o livro.

Assim, no âmbito psicológico, a pessoa tem uma súbita redução em sua auto-estima, sente culpa, mágoa e ansiedade. No campo social, os relacionamentos com familiares próximos se tornam mais sensíveis e sujeitos a atritos e mal-entendidos. A pessoa tende a se isolar. Muitas vezes, a demissão é seguida de divórcio. No âmbito profissional, a carreira sofre um abalo e precisa ser colocada no eixo.

Para a família do demitido, a situação é igualmente negativa. Além da queda na receita da casa, fica uma sensação de perda e insegurança para todos.

Por onde começar

Segundo Terra, após um evento de demissão, o profissional precisa se localizar, fazer uma avaliação do episódio e de si mesmo – levando em consideração as competências técnicas e comportamentais a serem melhoradas -, para depois definir uma estratégia para dar continuidade à carreira, sem necessariamente conseguir um novo emprego.

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“E a pessoa não pode apenas ter em mente outro emprego. Ela poderá atuar como autônoma, prestadora de serviços, ou ainda pode abrir o próprio negócio. As empresas estão cada vez mais enxutas, o que abre oportunidade para autônomos”, garante.

A situação é um pouco mais delicada para quem passou anos a fio na mesma empresa, período no qual se acomodou e não se preocupou em se atualizar profissionalmente, segundo o presidente da Ricardo Xavier Recursos Humanos. “O profissional fica sem chão, mas não adianta se apressar”, explica ele.

Mesmo que ele se matricule em um curso após a demissão, não irá fazer muita diferença, a não ser que seja um curso rápido de atualização. Por exemplo, geralmente aprender um idioma demora anos. A recomendação de Terra é, então, aceitar um emprego com salário menor ou posição inferior, para depois pensar no que fazer em prol das mudanças e galgar novos caminhos.

O melhor caminho

Segundo Terra, mais de 70% dos empregos obtidos têm como pano de fundo a rede de relacionamentos do contratado, sendo este o melhor caminho. Por isso, não se pode ter vergonha de pedir ajuda. “Quando a pessoa está desempregada, sente vergonha de sua situação, o que é uma tremenda besteira. As pessoas ajudam e têm prazer em ajudar”.

Além disso, o desempregado deve procurar agências de emprego, inclusive as virtuais e consultorias. “Mas nada supera a rede de relacionamentos”, afirma.