Falta de profissionais pode provocar “apagão” no setor de aviação

Empresários do setor alertam para necessidade de ampliar a formação de profissionais no mercado para lidar com problema

SÃO PAULO – A crise no setor aéreo já ultrapassou as portas das salas de embarque e desembarque e as pistas dos aeroportos e heliportos. Está aceso o sinal de alerta entre os empresários do setor para a necessidade de um grande número de profissionais capacitados para os próximos anos, sobretudo em funções com maior grau de exigência técnica, como os engenheiros de manutenção e os pilotos.

Segundo sondagem do Sindicato Nacional dos Aeroviários, o deficit de mecânicos e equipe de pista para as vagas disponíveis gira em torno dos 22% no Brasil. Entre os pilotos, ainda há alguns trabalhadores disponíveis no mercado, principalmente em função do fim das empresas Transbrasil, Vasp e Varig e dos problemas registrados em fundos de pensão, que obrigaram profissionais aposentados a retomarem às atividades.

O vice-presidente técnico operacional da companhia aérea Azul, Miguel Dau, relata que a empresa ainda não enfrenta dificuldades graves para convocar profissionais como piloto e copiloto, mas entende que é uma questão de tempo para que isso ocorra. “A oferta já não vem no ritmo tranquilo que teve há três anos. Com o crescimento do setor – só nós projetamos quase dobrar em 2011 – o ritmo de demanda aumenta muito mais rápido que a oferta”.

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Parcerias
A própria empresa, de olho no futuro, está trabalhando para evitar um possível “apagão” de mão de obra. Prova disso é um convênio assinado com a PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) através da Faculdade de Ciências Aeronáuticas para assegurar aos pilotos formados na universidade a prioridade no processo de seleção da empresa. Dessa forma, os alunos diplomados pela instituição entram direto na segunda fase do processo seletivo de pilotos, sem passar por análise de currículo. Com a parceria, a Azul espera preencher parte das 150 vagas para copiloto que deve abrir por ano até 2015.

E não é só. Atenta à necessidade de capacitar trabalhadores de outras áreas de atuação, a empresa pensa em se antecipar às dificuldades. “Planejamos desenvolver nossa própria universidade corporativa, em um futuro não muito distante, inclusive para atender terceiros. Sabemos que toda a cadeia do setor, desde atendimento até a manutenção, precisa de mais profissionais capacitados”, enfatiza Dau.

Táxi aéreo
A sombra da falta de profissionais não atinge só o segmento de aviação comercial. As empresas de táxi aéreo enfrentam alta rotatividade dos profissionais – que em função do aquecimento do mercado elevam suas pedidas salariais e têm facilidade de ocupar diversas oportunidades, no próprio segmento de táxi aéreo, na aviação comercial e nos serviços de exploração de petróleo.

O comandante e proprietário da empresa Helimarte Táxi Aéreo, Jorge Bitar Neto, explica como o setor chegou ao atual estágio. “Com o aumento do consumo, cresceu também a procura por voos, estimulando o rápido crescimento do setor. Desta forma, começou o problema da mão de obra, sobretudo porque o custo para formar um piloto é altíssimo, acarretando em poucos profissionais ingressando no mercado. Ainda temos de lembrar que não é permitida a atuação de pilotos estrangeiros aqui”, lamenta o executivo, que viu o índice de rotatividade entre os pilotos de sua empresa chegar a quase 50% em 2010.

Os interessados em explorar esse mercado precisam pagar as horas de voo – que custam entre R$ 50 mil e R$ 70 mil o pacote para 200 horas, além da parte teórica. Para o empresário, urge a necessidade de que o governo incentive a formação de mais profissionais, tanto para atender a crescente necessidade do mercado, quanto para proporcionar competitividade ao segmento. “No passado, o governo incentivava os aeroclubes, proporcionava subsídios em combustíveis. É necessário retomar esse processo, quem sabe criar linhas de financiamento para as horas de voo, proporcionar bolsas de estudos em cursos de graduação”, propõe. Conselho de quem já aplica as práticas. “Nós mantemos sempre dois pilotos em treinamento na empresa, inclusive com incentivos, para que possamos estar sempre preparados”, conta.