Falta de mão-de-obra qualificada origina crise, mas em alguns setores é mito

Nas universidades, foco sempre foi a academia, e não o mercado de trabalho. Poucas acompanharam o mercado

SÃO PAULO – Estaria o mercado de trabalho em crise? Segundo artigo de William Green, CEO da Accenture, e Peter Cheese, diretor responsável pela Accenture Talento e Performance Organizacional, as empresas ao redor do mundo irão precisar de 3,5 bilhões de trabalhadores em 2010. Em 2020, este número ultrapassará os 4 bilhões. Outras projeções indicam que, somente nos países desenvolvidos, haverá carência de mais de 32 milhões de profissionais, ainda em 2020.

A situação piora se observarmos que os setores com mais problemas, atualmente, são os de infra-estrutura, tecnologia e finanças. No entanto, a geração que hoje está nas universidades se interessa pouco por tais áreas. Em 2005, a Accenture realizou uma pesquisa junto a 1.600 universitários de cinco países.

Áreas que mais atraem a nova geração

Nos Estados Unidos, as áreas mais atraentes para estudantes eram saúde e governo; no Reino Unido, mídia e entretenimento e saúde; na Espanha, mídia e entretenimento e serviços financeiros; na França, serviços financeiros e saúde; e, na Alemanha, mídia e entretenimento e saúde.

Por outro lado, a área votada como a menos atraente em todos os cinco países foi a de metais e minas. Isso significa que a crise atinge de forma mais intensa as empresas que trabalham com infra-estrutura. A pior conseqüência disso é o impedimento de uma aceleração no crescimento econômico mundial.

Situação no Brasil

De acordo com o diretor de Projetos da Manager, Vladimir Araújo, “temos identificado, nos últimos tempos, crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) substancial, por isso, de fato, há falta de mão-de-obra qualificada”. O motivo seria a educação que sempre foi negligenciada no Brasil, principalmente a básica.

Além disso, nas universidades, o foco sempre foi a academia, e não o mercado de trabalho. Poucas delas acompanharam a evolução do mercado e a globalização, que exigiu mão-de-obra cada vez mais competitiva para a sobrevivência das empresas. “O ensino é precário e não está alinhado com as necessidades das empresas, que iniciaram uma busca acirrada por talentos”, explica ele.

No Brasil, a falta de mão-de-obra qualificada está concentrada em alguns setores, mas em muitos ela é mito. Araújo cita empresas que lidam com petróleo e com energia no geral, o segmento bancário, o setor de aviação, de construção civil e a indústria sucroalcooleira.

O diretor de Performance Organizacional da consultoria Right Management, Felipe Westin, cita ainda a indústria automobilística e o setor de informática, sobre o qual afirma: “sempre surgem novas tecnologias, sistemas e processos, de forma que a atualização do profissional de tecnologia da informação deve ser muito rápida”.

Falta de gente qualificada é mito

É importante tomar cuidado com os limites do discurso acerca da falta de mão-de-obra qualificada no Brasil. Em alguns setores, ela é mito. Isso porque existem setores em que há excesso de profissionais e faltam vagas. Vale levantar a hipótese: as empresas não teriam se apropriado do discurso de falta de profissionais qualificados para exigir muito durante o processo seletivo, mas oferecendo um salário que não é compatível com o nível de especialização pedido?

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Araújo, da Manager, acompanha de perto o processo seletivo das empresas e garante: muita gente fica no meio do caminho e não tem nem mesmo a oportunidade de participar do processo. “Muitos podem até ser competentes, mas não passam nem mesmo da triagem de currículos”. Quem nunca viu anúncios de vagas que pediam sete anos de experiência naquela área específica, fluência em dois idiomas, pós-graduação e vivência no exterior?

De acordo com o diretor de Projetos, é natural que as empresas façam isso, pois, nos últimos anos, o momento econômico foi positivo. “Antes, muitos bons profissionais perderam seus empregos em momentos econômicos desfavoráveis”, conta.

“Depois, quando a economia se recuperou, as empresas identificaram a necessidade de reter os melhores talentos, uma vez que o mercado havia se tornado mais competitivo. Mas, como não tinham se preocupado em formar internamente seus talentos, começaram a exigir muito na seleção. O problema é que o nível salarial não acompanhou a evolução desse nível de exigência”, acrescenta.

Lei do mercado

De acordo com Westin, a situação vivenciada em algumas áreas (excesso de profissionais, pouco emprego e salário medianos) é uma lei de mercado. “Em um contexto de competitividade, a única preocupação das empresas é de ter ao seu lado o melhor talento. Se há uma certa abundância no mercado, é compreensível que elas exijam especialização, fluência em idiomas, experiência, etc. e por salários que nem sempre são compatíveis com tantas exigências. É a lei de mercado”.

Conforme sua teoria, se há profissionais altamente qualificados aceitando trabalhar por um valor menor, é normal que o processo seletivo seja tão rigoroso. “Mas essas empresas precisam ficar espertas, pois as chances de perder o profissional muito qualificado são altas”.

O fato é que nem o governo nem os empresários não se prepararam para o momento econômico atual. O primeiro negligenciou a educação. Já as empresas, que não ofereceram capacitação e especialização a seus funcionários no passado, de repente, tiveram que procurar no mercado quem pudesse preencher as lacunas vazias. Ainda hoje, ambos continuam cometendo muitos erros. A pena maior é o Brasil não conseguir acompanhar o ritmo de crescimento dos demais países.